Mostrando postagens com marcador Social Darwinism — psychoanalysis. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Social Darwinism — psychoanalysis. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Vigotski contra Freud

por E. Yu. Zavershneva

O problema de estudar a relação entre as teorias de Vigotski e Freud

Em caderno inédito “Conferência sobre temas de investigação. 27 a 29 de outubro 1933”, Vigotski, ao esboçar um plano para trabalhos futuros, afirmou: “As perspectivas: defender a posição básica de Freud (psiconeurose — resultado de um deslocamento que falhou, conflito entre o Ego e o Id, as camadas superiores e inferiores da psique no novo sistema): Freud considera o consciente à luz da doutrina do inconsciente; nós — o inconsciente à luz da doutrina do consciente. Uma nova teoria da psiconeurose infantil. Nem redescobrir a América nem considerá-la não descoberta. Quem quer construir uma psicologia científica deve seguir outro caminho: Fr. não deu a doutrina do consciente; não se pode agregar a Fr. a doutrina do consciente; é necessário reconstruir seus fatos e teorias em um todo novo”[1].

Esta tese, expressa na discussão do relatório do psicanalista V .F. Shmidt nas “conferências internas”, é um testemunho em primeira mão que expressa a atitude de Vigotski em relação à teoria de Freud. A tarefa especificada na tese — repensar a psicanálise no contexto da teoria histórico-cultural — já foi designada por Vigotski em 1925, no prefácio do livro de Freud “Além do princípio do prazer” (escrito com A. R. Luria [18]). Analisando o prefácio, R. Van der Veer aponta que, para os autores, a única “variante aceitável de anexação” era o estudo dos princípios básicos da psicanálise e sua verificação à luz da própria teoria, mas a forma concreta de tal anexação permanecia obscura [34, p. 60]. Em nosso estudo tentamos mostrar como esta tarefa, formulada em 1925 como uma pura declaração de intenções, gradualmente passou para a categoria de resolvida, e a polêmica de Vigotski com Freud atingiu o nível de rivalidade potencial dos programas científicos.

A discussão sobre a atitude de Vigotski em relação à psicanálise é fundamental devido às seguintes razões. Em primeiro lugar, Vigotski e Freud lançaram as bases das duas maiores direções, cada uma das quais tem uma saída na metapsicologia e é, em essência, uma prática antropológica. Diferentemente de outros conceitos, onde se estuda funções ou processos de processamento de informações, ou seja, uma “pessoa sensível”, dividida em elementos e considerada fora da dimensão do significado, dentro destes sistemas se tenta construir uma ontologia da pessoa, uma compreensão teórica de sua “segunda natureza” e sua formação dirigida através da educação ou da terapia.

No entanto, as diferenças fundamentais nas bases das abordagens fazem com que sua unificação livre de conflitos seja impossível dentro do marco da teoria psicológica geral, a qual Vigotski tentou criar. Na tese do relatório de Shmidt citado acima, assim como nas primeiras teses sobre “o problema da consciência” (05/12/1932; [12, p. 156–167]), as teorias de Vigotski e Freud se opõem como sistemas polares: psicologias de cumes e profundidades. A operação aritmética somar cumes e profundidades eventualmente dará zero (veja a atitude crítica de Vigotski em relação ao Freudomarxismo [12, pág. 330–331]), portanto, a pergunta sobre com quais bases é possível o diálogo entre essas abordagens permanece aberta.

Apesar da grande importância do tema da relação entre psicanálise e psicologia histórico-cultural, sua investigação é muito escassa. A razão para isso é, por um lado, a dificuldade objetiva do trabalho metodológico sobre a correlação de dois conceitos, cuja bases não estão completamente esclarecidas e vão além da psicologia para a filosofia. Por outro lado, a análise é dificultada pelo conhecimento insuficiente dos trabalhos posteriores de Vigotski, em particular, os estudos da dinâmica semântica de consciência. Em nenhum dos artigos encontrados por nós, que traçam paralelos entre a psicanálise e o enfoque de Vigotski [19; 32; 33; 35 e outros], este último está representado como um todo único em sua versão final de 1932–1934; para a maioria dos autores a contribuição de Vigotski para a psicologia se limita à teoria da mediação do signo e à monografia Pensamento e Fala. No entanto, cabe assinalar uma tendência positiva: o tema central das intersecções entre tais concepções — o papel da linguagem e da sociedade no desenvolvimento da pessoa, é discutido de alguma maneira por todos os autores.

Caracteristicamente, esses estudos foram feitos principalmente no Ocidente durante os anos 1990 (talvez dentro do boom Vigotskiano relacionado à publicação das obras escolhidas de Vigotski em língua inglesa). Como regra geral, as ideias de Vigotski atuam como heurísticas projetadas nas posições teóricas da psicanálise ou sobre os problemas da relação entre analista e paciente[2]. Apesar da variedade de temas, esses estudos estão “na superfície”: eles estudam os vínculos entre as abordagens no nível de questões individuais. A única investigação condizente com a tarefa, identificada pelo próprio Vigotski na década de 1930, foi realizada no artigo de E.V. Ulibina, onde se considera a possibilidade “de construir um único espaço teórico, no qual uma análise substantiva adicional permite, em particular, considerar os fenômenos descritos por Freud a partir do ponto de vista da psicologia histórico-cultural” [28; pág.72]. Porém, mesmo aqui existe a mesma ótica tendenciosa: as obras do “período instrumental” estão incluídas na análise, enquanto os trabalhos posteriores de Vigotski — e com eles a teoria dos sistemas semânticos dinâmicos — permaneceram fora do campo visual do autor. Como resultado, os paralelos mais significativos das abordagens permanecem nos bastidores, levando a uma significativa incompletude do estudo que, no entanto, contém uma série de ideias interessantes, expressas não apenas na relação com a psicanálise ortodoxa, mas também com relação à sua versão lacaniana.

Sem questionar o valor da pesquisa, propomos outra em comparação com a linha geral de pesquisa estrangeira: o aspecto do problema; analisaremos a dinâmica da relação de Vigotski com a teoria de Freud, apoiando-nos em fontes publicadas e inéditas, e então partiremos do plano histórico ao teórico para repensar a psicanálise a partir da psicologia histórico-cultural.

Dinâmica da atitude crítica de Vigotski em relação à psicanálise em 1925–1931

A polêmica de Vigotski com a psicanálise é caracterizada por uma série de elementos que atestam a situação excepcional de Freud no círculo de oponentes de Vigotski. Ao debater com representantes de outros sistemas científicos, Vigotski se adapta ao curso de pensamento do oponente, segue-o, revela os pontos de crescimento da teoria, então a refuta e dá sua própria explicação, mais heurística, dos mesmos fatos ou regularidades obtidos no marco da reflexologia, Gestalt, das teorias de W. Stern, J. Piaget, K. Koffka, K. Lewin e outros. E só no caso da psicanálise não observamos este jogo intelectualmente afiado e emocionalmente carregado (exceto talvez em “Psicologia da Arte”). Não é que sua fase aberta tenha chegado tarde demais; por exemplo, os argumentos decisivos na disputa com Koffka sobre o desenvolvimento infantil apareceram em um dos últimos artigos de Vigotski [12, p. 238–290], uma situação semelhante ocorreu na disputa com Lewin [10]. A questão é: nas obras publicadas de Vigotski praticamente não há tentativas de jogar no campo adversário, testar seu pensamento, jogar com ele, leva-lo ao absurdo onde estará localizada a linha básica de ataque, e encontrar um grão de verdade no invólucro de falsas hipóteses. Até o ponto de inflexão de 1932, Vigotski limita-se à crítica “ao serviço” da psicanálise, que não cria momentos de confronto inerentes à crítica de outras abordagens.

O início da polêmica pode ser transferido para 1925, quando Vigotski expressou pela primeira vez, sua atitude em relação às obras de Freud e suas resenhas são bastante elogiosas. No citado prefácio do livro de Freud, no artigo de Luria “A Psicanálise como um sistema de psicologia monista” [26] e em uma nota analítica posterior “O problema da psicanálise e do marxismo” (arquivo familiar de L. S. Vigotski), que Vigotski e Luria enviaram à Sociedade Russa de Psicanálise e ao Instituto de Psicologia em abril de 1927 (Fig. 1); o desenvolvimento da psicanálise no marco da ideologia marxista foi altamente recomendado pelos autores como um campo de pesquisa promissor. Citemos a passagem final da nota, onde os aspectos positivos da psicanálise são destacados: “[…] compreensão dinâmica dos processos mentais (repressão do inconsciente, transformação dos afetos, influência dos impulsos em processos mentais, sublimação, etc.); materialista em essência a consideração de toda a vida mental como um desenvolvimento baseado no material primário (redutível como resultado de processos físico-químicos) de necessidades-impulsos; determinismo na explicação da psique e, por fim, busca dar uma construção objetiva de conceitos mentais baseada no estudo dos processos inconscientes”. No entanto, logo muda a posição de Vigotski, e ele critica duramente, não apenas o artigo de Luria, mas também trabalhos similares de Zankind e Friedman [12, p. 328–333]. A “objetividade” de Freud desaparece da lista de seus pontos fortes, como o “monismo” e o “através do sociologismo” de sua teoria, e o “materialismo em essência” se converte agora no materialismo de um fato sempre distorcido na psicanálise por meio de uma interpretação idealista desse fato.

A primeira e última tentativa de abrir o confronto com a psicanálise nas obras de Vigotski publicadas em vida, pode ser rastreada no capítulo IV de “Psicologia da Arte”, onde a principal crítica é a redução errônea da criatividade à sublimação. A gama de críticas é muito ampla, a concepção de Freud se opõe ao seu próprio ponto de vista, que se reflete na teoria da catarse da arte como um sentimento social, etc., mas “a anexação do território” é reduzida a uma única lei: Vigotski aprecia muito a interpretação freudiana do fenômeno da criatividade nos aspectos enérgico e econômico, e afirma que os resultados de sua investigação estão em certa correspondência com esta interpretação, embora a metáfora energética em si mesma pareça “um tanto arbitrária” [11, p. 294]. A anexação em escala não acontece: apesar de que toda a “Psicologia da Arte”, de fato, é outra explicação da criatividade, Vigotski está comprometido, não tanto em refutar o inimigo, quanto em construir sua própria teoria.

A crítica a Freud em “Psicologia da Arte” contrasta com o prólogo de seu livro, escrito naquele mesmo ano. Aparentemente, no processo de escrever “Psicologia da Arte” a incompatibilidade da psicanálise com a psicologia marxista tornou-se evidente para Vygotski; além disso, como apontamos anteriormente, “Psicologia da arte” pôde ser completada em 1926 e em meados desse ano surgiram as primeiras teses da teoria histórico-cultural, que encontrou o caminho de sua própria pesquisa [22]. De uma forma ou de outra, a mudança está acontecendo, e outras fontes foram, provavelmente, as obras de V. N. Voloshinov [3; 4] em que, não apenas Freud é criticado, mas também Luria, Zalkind, Friedman e outros freudo-marxistas[3]. A atitude de Vigotski em relação à obra de Freud torna-se mais moderada e até 1932 apresenta a seguinte série de comentários críticos:

1) Anti-historicismo, refletido na interpretação do desenvolvimento como epigênese [11, p. 105–106; 16, p. 161–162];

2) Naturalismo da teoria, que considera “a psique humana como um processo puramente natural” [11, p. 103–104, 319; 14, pág. 19–20];

3) Abordagem dualista: Freud atua como materialista quando se baseia nos fatos e luta por sua explicação determinista, e como idealista ao tentar interpretar os fatos a partir dos conceitos filosóficos de Schopenhauer, Lipps e Herbart [ver, por exemplo: 12, pp. 136, 145- 146, 332; 13, pág. 25];

4) Adoção de leis particulares para o universal [11, p. 103; 12, pág. 117–118; 6, pág. 1033]; esta objeção toca no problema da norma em psicologia [ver 12, p. 293] e assinala que na psicanálise o estágio neurótico do desenvolvimento é tomado como típico, e a norma é uma variedade rara;

5) Obscuridade da linguagem científica, confusão do sistema conceitual [12, p. 333, 335];

6) “A escassa capacidade de persuasão dos reforços reais” [ibid.], ou seja, não o descrédito do material factual, mas a debilidade e especulação das hipóteses explicativas [por exemplo, sobre a tríade de traços de caráter anal, ver: 16, p. 161];

7) E, claro, o pansexualismo e a fixação do simbólico — o lugar mais comum da crítica da psicanálise por toda a sua existência [11, p. 103–104; 17].

Até certo ponto, essa crítica era padrão, ou seja, reproduzia as objeções generalizada à psicanálise. Naqueles anos, chamar o psicólogo “burguês” de idealista significava quase certamente não dizer nada de novo ou substancial sobre ele; a “dualidade” foi o contra-argumento universal de Vigotski, voltado contra qualquer teoria do círculo adversário: apontava para a manifestação de uma crise na psicologia, explícita ou implicitamente dividida em dois campos ideológicos[4]. A área em que Vigotski pôde em 1930 resistir a Freud está bem fundamentada, descrita nos pontos 1 e 2, já que no marco da estrutura da “psicologia instrumental” criou a teoria do desenvolvimento das funções psíquicas superiores, que explicava o processo de transformação da psique natural com base nas ideias do ato instrumental; pôde opor seu método genético ao método antigenético da psicanálise e interpretar o papel da sociedade no desenvolvimento infantil. No entanto no final da década de 1920 Vigotski não fez isso.

Existem elementos de confrontação em “História do desenvolvimento das funções psíquicas superiores” (escrita no mais tardar em 1930), onde Vigotski não só fez uma breve crítica — por um lado — à psicanálise relacionada com sua naturalização da psique superior e a subestimação do papel da cultura no desenvolvimento do homem, mas também esboçou seu conceito de desenvolvimento. No entanto, aqui também Vigotski resolve seus próprios problemas: os argumentos não estão dirigidos a Freud, na parte principal da monografia apenas o menciona brevemente duas vezes, e o único fragmento de polêmica, que pode tomar-se como “anexação” dos fatos, está relacionado à discussão da natureza da amnesia infantil [14, p.321; ver também: 12, p.148]. É característico que Vigotski apenas tenha necessitado desse fato do arsenal da psicanálise quando discutia a pergunta chave do papel da fala no desenvolvimento do psiquismo.

Aparentemente, a controvérsia aberta com Freud não fazia parte dos planos de Vigotski e não podia ter lugar por razões óbvias. A teoria do desenvolvimento das FPS nesse momento se estendia principalmente às funções cognitivas e afetava a esfera volitiva-afetiva apenas pela tangente. Vigotski não tinha uma teoria do afeto superior, não havia uma periodização do desenvolvimento, que aparecerá na década de 1930, para não mencionar a teoria da personalidade, que ele nunca criou explicitamente. “Pedologia do Adolescente” (1931) atesta o surgimento de novos interesses de pesquisa na área de psicologia clínica, mas o material factual sobre histeria, esquizofrenia e outras doenças citadas nele são tomadas de outros autores. Tenhamos em mente que as publicações de 1930–1931 não refletem que Vigotski, que já tinha muitos anos na investigação da criança anormal (crianças surdocegas, deficientes mentais), trabalhava intensamente na clínica e observava crianças com diagnósticos de neuroses, psicoses e outros tipos. Ressaltemos que até agora nenhuma menção foi feita a nenhuma das práticas de Vigotski, mas o caderno “Clínica EDI” (1931) contém descrições de 37 histórias clínicas; neste documento ele descreve dois casos em detalhes (Kolia S., Naum P.), em que Vigotski conseguiu liminar um diagnóstico psiquiátrico dos pacientes e substituiu-o por um diagnóstico de “atraso no desenvolvimento”. Ambos os casos ilustram a aplicação prática da futura “psicologia dos cumes”: o ponto de partida é a personalidade do paciente, a possibilidade de seu crescimento e a compensação do defeito através do desenvolvimento da superestrutura cultural, a reorganização do sistema das FPS ao incluir conexões terciárias e relações de caráter[5].

Juntamente com a crítica formal, Vigotski invariavelmente expressa seu respeito pelo oponente em declarações moderadas, mas eloquentes, sobre as realizações da psicanálise. O reconhecimento de Vigotski aos serviços de Freud, em nossa opinião, é mais informativo do que a crítica das deficiências, já que aponta mais aos problemas científicos (causalidade estrita, teoria genética do afeto, caráter, personalidade) que coincidiram por todas as suas diferenças em sua configuração básica. A psicanálise, segundo Vigotski, foi progressiva em vários aspectos, dentre os quais destacam-se os seguintes:

1) O estudo do problema da correlação do biológico e do social no desenvolvimento de personalidade, a concepção de caráter como uma superestrutura sobre um sistema de impulsos que têm origem social [11, p. 29; 12, pág. 96; 18];

2) O desenvolvimento do princípio do determinismo e do método indireto baseado nele, do qual, segundo Vigotski, a psicologia moderna necessitava: “A tentativa de Freud é continuar as conexões e dependências significativas dos fenômenos mentais com o inconsciente, para sugerir que por trás dos fenômenos conscientes está o condicionamento inconsciente que pode ser reestabelecido analisando os rastros e interpretando suas manifestações” [12, p. 136];

3) A exploração teórica de novas áreas (o inconsciente, a atração pela morte), acompanhada de atenção às “anomalias”, isto é, os fatos que inicialmente colocaram a teoria sob ataque, mas que posteriormente levaram à sua renovação (por exemplo, os sonhos nas neuroses traumáticas) [11, p. 109; 12, pág. 92, 336; 14, pág. 59; 18].

4) O estudo das emoções em seu desenvolvimento [13, p. 428–429].

Porém, o fato mais eloquente dessa polêmica não é a crítica e o reconhecimento de mérito, mas o silêncio. Em nossa opinião, a omissão mais importante refere-se às tentativas de Freud de trabalhar na esfera semântica de seus sujeitos assistidos com ajuda da fala (a única menção de análise de ligações significativas se encontra na lista acima, no parágrafo 2). Vigotski sustenta que, do ponto de vista teórico, aqui reside o ponto fraco da psicanálise, cujos representantes tentam subordinar a palavra ao inconsciente, isto é, à área declarada em teoria como um conjunto de processos não acessíveis à verbalização [12, p.148]. Esta objeção não se revela: requer um comentário adicional que Vigotski não faz aqui. Por exemplo, que a fala na psicanálise é vista como um intermediário que permite ao inconsciente desencadear erupções (“descendência”) na consciência [29, p. 181–182], também cria uma zona de amortecimento do pré-consciente e, na verdade, é um meio de transformar a primeiro natureza na segunda. A psicologia moderna marca aqui o ponto de contato entre as abordagens, no entanto, Vigotski tem apenas uma indicação indireta desta circunstância: “Freud, como Piaget, sustenta corretamente que a fala desempenha um papel extremamente importante no ato da consciência” [8; pág. 244–245]. Talvez os silêncios se devem ao fato de que foi justamente pela mediação da fala que teve lugar o eixo principal da competição das abordagens. Em relação à natureza verbal da consciência, Vigotski tinha diferentes pressupostos que tomaram forma até 1932, e a partir desse momento aparece uma antítese decisiva na crítica de psicanálise.

A passagem da polêmica de Vigotski com Freud para a fase de confronto entre os programas científicos (1932–1934)

A partir de 1932, nas obras e palestras publicadas de Vigotski aparecem, no centro da polêmica, a hipótese do autismo primário da criança, a primazia ontogenética do princípio do prazer e sua oposição ao princípio da realidade [13, p. 36–37, 403, 442; 15, pág. 313–314], e teoria psicanalítica, além do epíteto anterior de “metafísica”, adquire um novo: “solipsista”. Vigotski ainda escapa do embate com Freud ao discutir com seu “deputado” Piaget que, de acordo com Vigotski, toma emprestado de Freud as hipóteses anteriores, o que piora significativamente sua posição teórica. No entanto, em alguns casos, seu próprio ponto de vista se opõe diretamente ao psicanalítico: a criança é vista como um ser originalmente social, em interação contínua com a realidade; no contexto da polêmica com a psicanálise esse ponto de vista é reforçado, em particular, pelo estudo da fala egocêntrica. Pela primeira vez, a hipótese “repressiva” da influência da sociedade e da cultura no desenvolvimento infantil recebe uma refutação aberta; a compreensão psicanalítica do meio em sua função de pressão e limitação [13, p.67] ele contrastou com a compreensão do desenvolvimento como cooperação da criança com o adulto. Sua própria experiência ao longo das linhas da crítica anterior (anti-geneticismo, naturalismo da teoria de Freud) é usada muito raramente, por exemplo, na discussão do problema das emoções superiores [13, p. 434–436], onde as posições de Vigotski não são fortes o suficiente como no caso de outros processos psíquicos. É curioso que ele continue a “luta de contatos” nos pontos quentes de sua própria investigação (isso também se aplica à psicologia do desenvolvimento: nos últimos anos de sua vida, Vigotski apenas passa a estudar sua determinação interna e introduz as categorias fundamentais de zona de desenvolvimento proximal e vivência [perejivanie]).

Em particular, Vigotski afirma que Freud ignora o papel do pensamento na formação da personalidade e aponta que o desenvolvimento de um afeto superior não pode ser explicado sem chamar a atenção para a análise dos vínculos afetivos interfuncionais com o pensamento, a imaginação e a fala [13, p.436, 446].

À medida que a crítica a Freud se dissipa gradualmente, a polêmica com ele, necessária para estimular seu próprio pensamento e refletida nos registros pessoais de Vigotski, apenas se intensifica. Estuda a continuação das recém-publicadas conferências de Freud sobre a introdução à psicanálise [31] (Fig. 2), conduz conferências internas dedicadas à teoria de Freud (1931, 1933) e, o mais importante, descobre os pontos de apoio nos quais baseia uma explicação concorrente, sem recorrer à anexação da psicanálise, mas estando na linha de contato com ela.Figura 2. Sinopse do livro de Freud “Nova série de conferências introduzindo a psicanálise” (1933), escrita por L.S. Vigotski. Fragmento (p. 3)

Por exemplo, nas teses sobre o primeiro relatório de Shmidt (o problema das emoções, 1931) Vigotski lista suas discordâncias com Freud: “1. Subdesenvolvimento = suspensão. 2. Desenvolvimento antissocial. 3. Formas patológicas da emoção. 4. […] Pensamento a serviço das emoções!!!” (ver o fragmento de “Pedologia da Adolescente” onde aponta que na neurose o intelecto e a vontade estão subordinados ao afeto [15, p. 168]) e também dá sua explicação chave — a partir do ponto de vista da psicanálise — do mecanismo do desenvolvimento: “Repressão: a emoção se desconecta da consciência. Sublimação: as emoções têm outro objetivo. Ver sistemas e sublimação, repressão: há uma parte de verdade na transferência para outros sistemas”. No entanto, o programa concreto aparece mais tarde, quando Vigotski esboça o esquema geral da teoria da consciência. Nas notas sobre o segundo relatório de Shmidt (“O problema do desenvolvimento da criança psiconeurótica”, 1933) oferece sua antítese às ideias freudianas sobre a natureza do inconsciente: “3. profundo — superficial — psicologia dos cumes. — O mundo externo é uma força hostil ou uma fonte de maior desenvolvimento (formas ideais). — Domínio das fases iniciais do desenvolvimento. — A luz emprestada do inconsciente — Desenvolvimento em Freud — implementação, modificação e combinação de ingredientes. Neoformação. […] 9. Princípios básicos da psicologia dos cumes (acmeísta) contra a Tiefenpsichologie [psicologia profunda] (às vezes implícitos nesta última, mas desenvolvido explícito por nós): relação do ego e do id, impedida nas psiconeuroses, é um produto do desenvolvimento (da consciência) do ego e sua relação com o mundo externo; contra Lust und Realitätsprinzip [princípios do prazer e da realidade]: sua unidade; contra o naturalismo e a metafísica — pró-historicismo (natureza humanizada); o inconsciente surge do desenvolvimento da consciência; consciência do afeto; imobilidade do pensamento autista; não a profundidade, mas as leis dos cumes determinam o destino da personalidade; contra a história do mais alto da sublimação; contra a consciência = a percepção” [ver: 12, pág. 166].

Que novas disposições da concepção de Vigotski dão origem a tais afirmações tão decisivas?

A principal inovação foi o princípio da estrutura semântica da consciência, introduzido em 1932; sobre esta base se desenvolveu a teoria da consciência, cuja ideia se reflete de forma fragmentária em suas obras publicadas (“Pensamento e fala”, “O problema da consciência” e outras), bem como nos cadernos. Ao reconstruir esta ideia, pode-se dizer que a consciência é considerada como uma forma de relação ativa com o ambiente e ao mesmo tempo como um formato especial da relação dos processos mentais. Vigotski preserva o princípio da mediação do signo como parte da nova teoria; ele argumenta que esse tipo de relação especificamente humana com o meio ambiente surge com o uso do signo, mas se antes estava interessado na estrutura externa da operação do signo, nos últimos anos de sua vida preocupou-se sobretudo com seu lado interno: o significado. Vigotski mostra que a compreensão do mundo é possível graças à união da fala com o pensamento, o que nos permite ver o mundo como um todo, onde cada evento é percebido em uma conexão lógica com outros eventos (a consciência é “conhecimento em comunicação” [12, p. 165]). A riqueza de nossas ideias sobre o mundo, sua ordem e correspondência com a realidade são determinadas pelo nível de desenvolvimento do significado das palavras: “Os passos da fala são os passos da abstração: os passos da consciência” (caderno “Minhas observações, rascunho de 1933 [ver também: 27, p. 116]). O mundo interno também é construído através da reorganização dos processos mentais naturais; se torna maior e mais extenso e diferenciado à medida em que a pessoa conhece o mundo externo e interage com outras pessoas [para mais detalhes ver: 20; 40]. No aparato conceitual de Vigotski também surge a noção de “campo semântico”, que se define como um plano semântico de generalização; ao explorá-lo geneticamente, Vigotski demonstra como ele desempenha em suas diferentes etapas de desenvolvimento sua principal função de mediação na relação do homem com o mundo e consigo mesmo [5; 26], em particular, permite realizar as funções de transformação da dinâmica fluida do pensamento na dinâmica da ação e é a base do comportamento volitivo [para mais detalhes ver: 23].

Ao expandir as possibilidades de sua teoria, Vigotski também recicla o método de Lewin da análise dinâmico-formal e de sua apresentação do desenvolvimento da personalidade. Em vários estudos, Vigotski e colaboradores oferecem descrições esquemáticas do estrutura da personalidade e a dinâmica do seu comportamento, com base nos métodos diagnósticos de Lewin modificados para suas próprias tarefas [1; 10; 27 e outros]. Nestes trabalhos foram selecionados alguns planos de análise: sistemas afetivos, campo semântico, atividade prática, e mostra-se que são determinados por leis gerais, tanto em aspectos estruturais como dinâmicos. Os processos dinâmicos relacionados a esses planos descrevem o modelo de ação livre e significativa que inclui três fases básicas: “1) transformação da dinâmica do campo psicológico, dinâmica da situação em dinâmica do pensamento; 2) desenvolvimento e implantação de processos dinâmicos do próprio pensamento, sua transformação inversa em dinâmicas de ação; 3) a atividade refletida através do prisma do pensamento se transforma em outra ação, significativa, consciente e, consequentemente, arbitrária e livre” [10, p.444].

Nesse modelo, o afeto atua como a base energética da ação livre, e a característica central da pessoa, sua diferença específica em relação aos outros animais, é sua própria capacidade de ser livre. Psicologicamente é entendida como a capacidade de “elevar-se acima do campo”, não só do campo externo, mas do campo semântico e do próprio afeto. Refletido em conceitos, o afeto se realiza, se transforma e se relaciona de modo secundário com outros processos mentais no novo sistema psicológico. Na verdade, esse é o processo subjacente à formação básica da personalidade, que se desenvolve na medida em que “se cortam” os processos naturais e têm a oportunidade de se construir como uma hierarquia de conexões terciárias de consciência. Assim, a liberdade de comportamento é introduzida na teoria como uma característica fundamental da existência humana. Esta posição, que beira a filosofia pura, determina a ontologia da pessoa na abordagem histórico-cultural: estabelece a noção de norma, que é o ponto de partida para a investigação do desenvolvimento anormal.

É a perda da liberdade de comportamento que caracteriza todos os desvios da norma, incluindo os transtornos neuróticos e psicóticos. As formas mais graves de perda dessa capacidade são inerentes à esquizofrenia, que é definida como “… uma mudança patológica na formação do significado (o sistema semântico de conexões e organização da consciência) e deterioração das conexões funcionais dentro da consciência” (caderno “O problema da psicologia da esquizofrenia”, não antes de 1932), causada pela desintegração do modo de comunicação do homem com o mundo e consigo mesmo. No último ano da vida de Vigotski, seu grupo científico teve êxito na realização de investigações de algumas formas nosológicas [1; 7; 27 e outros]; metodologicamente essas investigações também foram construídas a partir do ponto de vista da psicologia de cumes: peculiaridades dos sistemas afetivos, estrutura da personalidade dos pacientes, a natureza de sua interação prática com a realidade (tipos de estrutura, sua diferenciação, permeabilidade de limite, rigidez ou, inversamente, labilidade patológica de processos dinâmicos) foram estudados por sua especificidade, comparados entre si, mas a especificidade da doença foi revelada no contexto da norma [para mais dados ver: 24].

Obviamente, a introdução das categorias e métodos acima mencionados fortaleceu notadamente a posição de Vigotski na discussão com a psicanálise. Diferentemente da ontologia freudiana, que descreve a personalidade neurótica neste ou naquele modo de não liberdade, forçado a buscar um compromisso entre as exigências do meio e seus próprios impulsos Vigotski propôs um ponto de vista diferente do homem, a partir do qual todas as leis de seu desenvolvimento estão, de alguma forma, conectadas com sua capacidade de ser livre. Nesta ontologia, o “ideal do homem” freudiano pode ser visto como uma versão distorcida da norma, já que a fuga para a doença só é possível como fracasso das soluções livres. Parece que aqui há uma zona potencial de reinterpretação das posições de Freud a partir da abordagem histórico-cultural (como as posições do “caso especial” em relação às leis gerais), mas isso deve ser feito com o máximo de cautela, já que tais questões na ciência não são resolvidas no nível dos princípios superiores: devem colidir não com conceitos filosóficos, mas com hipóteses científicas (ver: I. Lakatos sobre a impossibilidade de uma refutação direta do núcleo duro dos programas científicos [25]). Além disso, a relação entre normal e patológico é uma das perguntas mais difíceis não resolvidas até hoje[6].

Notemos que para Vigotski responder à pergunta por que uma pessoa é livre e a outra não (parafraseando de forma psicanalítica: por que uma escolhe o caminho da sublimação e a outra da doença) não significa referir-se ao axioma da liberdade, mas considerar geneticamente o desenvolvimento da personalidade: “A liberdade não é dado, mas se estabelece. Ela… é conquistada em uma difícil luta interna. […]. Não é o princípio, mas sim o fim do caminho do homem” (nota “Rumo a Spinoza”, 1933). A postura sobre a liberdade se justifica a partir de outros princípios do núcleo duro das concepções de Vigotski, particularmente a posição de que uma pessoa se torna pessoa (sinônimo: torna-se livre) na medida em que aprende a falar e a pensar (mais precisamente, a pensar falando). A fala cria um marco para o ser humano; ao impregnar seu pensamento, a fala o leva à existência e lhe dá a oportunidade de se tornar realidade no pensamento e na ação. E aqui se descobre mais um campo potencial de diálogo com psicanálise (em particular com sua versão lacaniana).

Tem sido repetidamente apontado que a psicanálise é, de fato, uma terapia racional de consciência, mas em seus esquemas explicativos tanto o pensamento quanto a autoconsciência são tomadas entre parênteses como um valor constante: se usa, mas não se explica. Aqui está uma citação do caderno “Os relâmpagos do pensamento de Spinoza” (não antes de 1932), no qual Vigotski conecta sua posição com a filosofia de Spinoza: “Freud: tratamento da consciência, ligação com afetos e desejos. [Nas margens há uma marca com uma seta apontando para “Freud”]: Nossas investigações sobre os conceitos da linha espinosista. […]. O conceito de afeto é um estado ativo e é liberdade. Liberdade: afeto no conceito” [mais detalhes ver: 24, p. 91–93]. É essa camada de mediação da teoria freudiana que não foi introduzida, assim como a questão de por que a fala é capaz de fazer mudanças na mente do paciente.

Esta circunstância lembra, em particular, a caracterização de P. Riker que chamou a teoria psicanalítica “energia ingênua” e sua linguagem descritiva “linguagem da hidráulica mental”, bem como a afirmação de L. Binswanger, que considerou a psicanálise como conhecimento não consciente de seu logos. A opinião de Binswanger também foi compartilhado por Vigotski [12, p. 335]), que colocou a consciência e o pensamento verbal no centro de sua concepção e os investigou experimentalmente.

Ao considerar o desenvolvimento da psique superior através do prisma da dinâmica semântica, Vigotski estendeu o ponto de vista do “cume” e o problema do determinismo. Já em 1930 ele discutiu a importância progressista da teoria de Adler, que conseguiu mostrar que os objetivos podem ser mais importantes do que as causas [17, p.75] (ver a conhecida expressão de V. Frankl: “as razões são empurradas, os objetivos são atraídos”). O psicólogo deve compreender não apenas por que o neurótico se move em direção à doença, mas para que o faz, em particular para responder às perguntas relacionadas com o determinismo do desenvolvimento, que vai do passado ao presente, e ao futuro. Na abordagem de Vigotski, essa determinação ocorre por meio do conceito de ZDP e uma forma ideal de desenvolvimento.

Ao reconhecer o papel mediador central da palvra na formação do homem, Freud e Vigotski oferecem ideias diametralmente opostas sobre sua entrada na cultura: a psicanálise acentua seu lado traumático, associado à perda de seu objeto de desejo e à subsequente busca pelo perdido; a psicologia histórico-cultural acentua seu lado de apoio, abertura e transformação do ser humano em palavras e em cooperação com outras pessoas. O social, segundo Vigotski, é a principal fonte que gera os meios de desenvolvimento e seus padrões [2, p.122–123; 8, p.83–88]. A colaboração da criança com o adulto na ZDP não está isenta de problemas, é tão dramática quanto o próprio desenvolvimento já que nem os meios nem as mostras são emprestados automaticamente pela pessoa. A refração da influência do exterior só é possível através do interno, através da vivência, que aparece na abordagem de Vigotski como uma unidade de investigação da personalidade e da situação de desenvolvimento social. Acrescentamos que a personalidade determina eventos significativos, não redutíveis a traumas da criança ou traumas em geral, e que a formação da personalidade continua na idade adulta, onde, idealmente, tem lugar um ato baseado na livre escolha.

No entanto, mesmo com todas as inovações, é prematuro falar de uma discussão em larga escala com a psicanálise. A teoria da consciência como um sistema semântico dinâmico e a ideia de uma ação livre e significativa foram dadas a Vigotski como um esboço, sua reconstrução exigiu que juntássemos cuidadosamente “as peças” individuais disseminadas em publicações e notas pessoais. Podemos dizer que a versão mais recente da abordagem de Vigotski permaneceu no estágio inicial de sua elaboração. Carece de teorias do afeto explicitamente formuladas (ou seja, emoções e motivações) e da personalidade, sem a qual é impossível a polêmica com a psicanálise, bem como de hipóteses detalhadas sobre a natureza do inconsciente; em termos práticos, é impossível não mencionar o problema das aplicações psicoterapêuticas. Além disso, também é difícil comparar as abordagens, porque sua arquitetura não foi totalmente esclarecida. Idealmente, para colocar essas abordagens em contato, é necessário recriar seus postulados metapsicológicos, suas posições teóricas básicas, operar suas hipóteses de nível médio, técnicas e práticas de observação, mas isso parece difícil de alcançar. E, no entanto, podemos pelo menos nos perguntar o que poderia opor Vigotski ao modelo tópico, dinâmico e econômico da psique proposto por Freud. Poderíamos deduzir do trabalho de Vigotski outra explicação da natureza dos seus sintomas básicos (neurose, parapraxia e sonhos)? Seu ponto de vista é capaz de dar uma teoria das psicoses que tenha mais poder explicativo do que o conceito de narcisismo secundário? Essas perguntas estão além do escopo deste artigo, mas pretendemos analisá-las na continuação de nossa investigação.

Conclusão


A análise realizada neste trabalho mostra que a atitude de Vigotski em relação à teoria de Freud refletia uma coincidência entre seus interesses de investigação e suas aspirações de construir uma ciência baseada na análise genética do desenvolvimento de personalidade. Se levarmos em conta outros cruzamentos no que diz respeito à natureza social da personalidade e o papel da fala em seu desenvolvimento, fica claro por que Freud foi uma das principais figuras do círculo de oponentes de Vigotski. Mostramos que a dinâmica da relação de Vigotski com a psicanálise estava determinada pela lógica interna do desenvolvimento da psicologia histórico-cultural, e que essa atitude adquiriu características de confrontação de programas científicos em 1932–1934.

O espaço para a polêmica entre as abordagens surgiu devido à metáfora enérgica, que Vigotski utilizou como “ponte” metodológica: primeiro em “Psicologia da Arte” e posteriormente nos trabalhos que reinterpretam várias teses da teoria de Lewin. Não sabemos se Vigotski planejava manter essa metáfora como parte de seu programa científico ou aplicá-la como um meio ad hoc, porém seu papel progressista é evidente, pois facilitou o surgimento de um diálogo — na verdade, um polílogo — do qual participaram as três principais abordagens psicológicas da época. No entanto, deve-se notar que ele levanta uma série de problemas filosófico-metodológicos quanto à sua aplicabilidade na psicologia, assim como a metáfora do campo, que serviu de ponte entre as teorias de Vigotski e Lewin [20, p.123–126].

Acrescentamos que o diálogo de Vigotski com outros sistemas científicos desenvolvidos em acordo com o esquema proposto em seus primeiros trabalhos metodológicos, onde se negava a possibilidade de anexação direta de outros sistemas científicos: “Quem toma o lenço de um estranho, toma o perfume de outro; quem toma dos psicanalistas — o estudo dos complexos de Jung, a catarse de Freud, a instalação estratégica de Adler — toma boa parte do perfume daqueles sistemas, ou seja, do espírito filosófico dos autores [12, pág.329]. Por trás de cada fato e regularidade, segundo Vigotski, não está apenas uma técnica de observação ou uma hipótese empírica, mas uma teoria como um todo. Deste ponto de vista é razoável perguntar: quanto é necessário tomar da teoria construída sobre uma versão “repressiva” da cultura, na presença de seu próprio conceito, onde o papel da cultura se entende de modo fundamentalmente diferente? É a anexação, por exemplo, da história do pequeno Hans em quem postulados e interpretações inaceitáveis de ponto de vista histórico-cultural estão inextricavelmente entrelaçados? Como mostra a análise das obras de Vigotski, os casos de anexação aberta de áreas psicanalíticas neles são únicos (amnésia infantil, criatividade); remetem mais ao cinturão defensivo da teoria do oponente do que ao seu núcleo, ou estão limitados a princípios técnicos como o princípio de deslocamento ou regressão. Mas mesmo esses fatos e princípios, minimamente carregados ideologicamente, não são emprestados de modo inalterado, mas estão sujeitos a reconsideração e “retirada”, ou seja, recebem uma nova interpretação a partir do ponto de vista histórico-cultural.

Ressaltemos que a polêmica de Vigotski com Freud, Lewin e outros oponentes é um modelo de interação de abordagens, que praticamente não tem análogos na história da psicologia. Há tempos se observa que o desenvolvimento da psicologia se desvia significativamente dos esquemas propostos, por exemplo, por Popper ou Lakatos: os programas científicos não lutam por uma explicação melhor e não se excluem mutuamente. Em geral para a psicologia, a situação de cisma (F.E. Vasiliuk) é mais típica quando os contatos entre endereços individuais não são intensivos, e um experimento crítico é uma prática comum. Embora as anomalias desempenhem um papel importante no desenvolvimento dos programas científicos, não levam à eliminação da teoria, mesmo nos casos mais atrozes (ver a questão sobre a paradoxal “viabilidade” da psicanálise, que se desenvolve apesar de muitos anos de duras críticas [30, p. 436–438]). A este respeito chama atenção a estratégia científica de Vigotski, que não buscou suplantar as teorias seus oponentes, mas criar para eles um espaço de diálogo onde os fundamentos dessas teorias poderiam ser esclarecidos. Ele estava bem ciente da natureza do pensamento, que surge como uma descarga elétrica, na presença de uma diferença de potencial em dois polos; precisava de um interlocutor com uma visão diferente da natureza das coisas. Ele precisamente chamou Freud de uma das mentes mais intrépidas de nosso tempo. [18, pág. 3]: o estilo de pensamento do fundador da psicanálise determinava a capacidade de ver uma anomalia no caos do material factual e a capacidade de fazer perguntas que têm um potencial heurístico e a tenacidade na defesa de seus próprios pontos de vista. Os trabalhos de Freud, escreveu Vigotski, ensinam a buscar a verdade, que é muito mais importante do que a apresentação de verdades prontas [12, p.336]. Emprenhado em uma polêmica com interlocutores como Freud ou Lewin, Vigotski criou passo a passo a psicologia histórico-cultural, mas foi uma luta, não tanto por sua concepção, mas também pela psicologia na qual a “eliminação” de um ponto de vista do oponente não significava sua destruição, mas a inclusão em um contexto mais amplo, no limite, na teoria psicológica geral. Por isso a continuação dessa polêmica nos parece uma das tarefas da psicologia em seu presente e futuro.
 
= = =
Notas:
[0] Publicado em ZAVERSHNEVA, E. Yu. Vigotskiy vs Freyd: o pereosmyslenil psikhoanaliza s tochki zreniya kul’turno-istoricheskoy psikhologii, Cultural-Historical Psychology, v. 16, n. 4, 2016, pp. 14–25. Tradução por Marcela Rosa. Via Bruno Bianchi, Kátharsis.
[1] A partir de agora todas as seleções de fontes entre aspas pertencem aos autores das citações.
[2] Em particular, olhamos para a série de estudos de A. Wilson e L. Weinstein, onde se analisa a relação entre os conceitos de «transferência» e «zona de desenvolvimento proximal», a fala interna é considerada como um meio de comunicação entre analista e paciente, e as ideias de Vigotski sobre a natureza o pensamento verbal são usadas para expandir o modelo topográfico do inconsciente [37; 38; 39].
[3] O fato de Vigotski estar familiarizado com as obras de Voloshinov é evidenciado por uma citação dele em seu artigo “A psique, a consciência e o inconsciente” [9, p. 61].
[4] Logicamente, Vigotski descobriria mais tarde indícios de dualismo não apenas na versão “instrumental” do seu conceito, mas também na sua versão posterior [21; pág. 124, 129].
[5] No mesmo ano, 1931, teve lugar o primeiro dos informes “internos” que conhecemos, de V. F. Shmidt, dedicado à teoria psicanalítica das emoções, à qual Vigotski se opôs ativamente afirmando a estratégia errônea de Freud ao derivar diretamente as emoções superiores das pulsões (aderno “Desenvolvimento anormal da criança”, 1931).
[6] Em 1931 Vigotski, ao participar com um escrito do encontro “Sobre a relação entre a psicologia moderna e psicopatologia”, no qual discutiu o princípio da unidade das leis do desenvolvimento e a desintegração da mente (caderno “Desenvolvimento Anormal da Criança”), enfrentou uma crítica contundente do colégio de especialistas; incluindo os conhecidos psiquiatras S.V. Krayts, I.D. Sapir e B.D. Friedman, declararam todos que não há leis gerais para a norma e a patologia, e que a especificidade da doença não pode ser completamente eliminada da norma, e isso era verdade.

= = =
Referências bibliográficas

1. Birenbaum GV, Zeigarnik BV K dinamicheskomu analizu rasstroistv muishlienia [Para uma análise dinâmica dos distúrbios do pensamento]. Sovietskaya nevropatologia, psiquiatria i guiguiena [Neuropatologia soviética, psiquiatria e psico-higiene], 1935, v. 4, n.6, pág. 75–98.

2. Veresov N.N. Eksperimentalno-guenetícheski miétod i psijologuia soznania: v póiskaj utrachiénnovo (statiá vtoraya) [Método genético-experimental e psicologia da consciência: em busco do perdido (parte 2)]. Kulturno-istorícheskaya psijologuia [Psicologia histórico-cultural], 2015, vol. 11, no. 1, pp. 117–126. doi:10.17759/chp.2015110113

3. Voloshínov V.N. Po tu storonú sotsiálnovo: O freidizme [Mais além do social: sobre o freudismo]. Zviezdá [A estrela], 1925, no. 5, pp. 186–214.

4. Voloshínov V.N. Freidizm. Kritícheski ócherk [Freudismo: ensaio crítico]. Moskvá; Lieningrad: G.I.Z., 1927. 164 p.

5. Vygotski L.S. Igrá i yieyó rol v psijícheskom razvitii riebionka [A brincadeira e seu papel no desenvolvimento mental da criança]. En Psijologuia razvitia [Psicologia do desenvolvimento]. San Petersburgo: Píter, 2001, pp. 56–79.

6. Vygotski L.S. Konkriétnaya psijologuia chielovieka [Psicologia concreta do homem]. En Psijologuia razvitia chielovieka [Psicologia do desenvolvimento humano]. Moskvá: Eksmo, 2005, pp. 1020–1038.

7. Vygotski L.S. K probliemie psijológuii shizofriénii [Sobre o problema da psicologia da esquizofrenia]. Soviétskaya nevropatologuia, psijiatría i guiguiena [Neuropatologia, psiquiatria e psicohigiene soviéticas], 1932, vol. 1, no. 8, pp. 352–364.

8. Vygotski L.S. Liéktsii po piedológuii [Lições de pedologia]. Izhevsk: Publ. “Udmurtski univiersitiet”, 2001. 304 p.

9. Vygotski L.S. Psíjika, soznanie i bessoznátielnoie [Psique, consciência e o inconsciente]. En Kornílov K.N. (ed.) Eliemienty óbshchei psijológuii [ Elementos de psicologia geral]. Moskvá: Publ. B.Z.O. pri piedfakie 2-vo MGU, 1930, vol. 4, pp. 48–61.

10. Vygotski L.S. Probliema úmstviennoi otstálosti [O problema do retardo mental]. En Probliémui diefiektológuii [Problemas de defectologia]. Moskvá: Prosvieshchenie, 1995, pp. 426–450.

11. Vygotski L.S. Psijologuia iskusstva [Psicologia da arte]. Ivanov V.V. (ed.). 3-e izd. Moskvá: Iskusstvo, 1986. 573 p.

12. Vygotski L.S. Sobranie sochiniénii: v 6 t. T. 1. Voprosy teórii i istórii psijológuii [Obras escolhidas: Vol. 1. Problemas de teoria e história da psicologia]. Moskvá: Piedagóguika, 1982. 488 p.

13. Vygotski L.S. Sobranie sochiniénii: v 6 t. T. 2. Probleimui obshchei psijológuii [Obras escolhidas: Vol. 2. Problemas de psicologia geral]. Moskvá: Piedagóguika, 1982. 504 p.

14. Vygotski L.S. Sobranie sochiniénii: v 6 t. T. 3. Probliemui razvitia psíjiki [Obras escolhidas:. Vol. 3. Problemas do desenvolvimento do psiquismo]. Moskvá: Piedagóguika, 1983. 368 p.

15. Vygotski L.S. Sobranie sochiniénii: v 6 t. T. 4. Diétskaya psijologuia [Obras escolhidas: Vol. 4. Psicologia infantil]. Moskvá: Piedagóguika, 1984. 433 p.

16. Vygotski L.S. Sobranie sochiniénii: v 6 t. T. 5. Osnóvui diefiektológuii [Obras escolhidas: Vol. 5. Bases da defectologia]. Moskvá: Piedagóguika, 1983. 369 p.

17. Vygotski L.S. Son i snovidienia. En Kornílov (ed.) Eliemienty obshchei psijológuii [Elementos de psicologia geral]. Moskvá: Publ. B.Z.O. pri piedfakie 2-go MGU, 1930, pp. 62–75.

18. Vygotski L.S., Luria A.R. Predislovie [Prefácio]. En Freud Z. Po tu storonú printsipa udovolstvia [Mais além do princípio do prazer]. Moskvá: Sovriemiennie probliemui, 1925, pp. 3–16.

19. Gonzales A. “Freud v Vygótskom. Biessoznátielnoie i yazýk” [“Freud em Vygotski. Inconsciente y linguagem”]. Kulturno-istorícheskaya psijologuia [Psicologia histórico-cultural], 2007, no. 1, pp. 114–120.

20. Zaviershnieva Ye.Yu. Dvié línii razvitia katiegórii “smuisl” v rabótaj L.S. Vygótskovo [Duas linhas de desenvolvimento da categoria “sentido” nas obras de L.S. Vygotski]. Voprosy psijlóguii [Problemas de psicologia], 2015, no. 3, pp. 116–132.

21. Zaviershnieva Ye.Yu. Zapisnuie knizhki, zamietki, naúchnuie dnievniki L.S. Vygótskovo: rezultaty issledovania seméinovo arjiva [Notas, cadernos e revistas científicas de L.S. Vygotski: investigação dos arquivos familiares]. Voprosy psijológuii [Problemas de psicologia], 2008, no. 2, pp. 120–136.

22. Zaviershnieva Ye.Yu. “Kliuch k psijológuii chielovieka”: kommientárii k bloknotu L.S. Vygótskovo iz bolnitsy “Zajarino” (1926) [“A chave para a psicologia humana”: comentários sobre o caderno de L.S. Vygotski do hospital Zajarino (1926)]. Voprosy psijológuii [Problemas de psicologia], 2009, no 3, pp. 123–141.

23. Zaviershnieva Ye.Yu. Priedstavlenia o smyslovom polie v teórii dinamícheskij smuislovuij sistiem L.S. Vygótskovo [A noção de campo semântico na teoria de L.S. Vygotski do sistema semântico dinâmico]. Voprosy psijológuii [Problemas de psicologia], 2015, no. 4, pp. 119–135.

24. Zaviershnieva Ye.Yu. Probliema svobodui kak otlichítielnoi jarakterístiki chielovieka v rabótaj L.S. Vygótskovo [O problema da libertade como um traço distintivo o homem na obras de L.S. Vygotski]. Voprosy psijológuii [Problemas de psicologíia], 2015, no. 5, pp. 89–105.

25. Lakatos I. Falsifikatsia i mietodologuia nauchno-issliedovátielskij program [Falsificação e metodologia dos programas de investigação científica]. Moskvá: Medium, 1995. 236 p.

26. Luria A.R. Psijoanáliz kak sistiema monistícheskoi psijológuii [A psicanálise como sistema de psicologia monista]. En Kornílov K.N. (ed.) Psijologuia i marksizm [Psicologia e marxismo]. Lieningrad: G.I.Z., 1925, pp. 47–80.

27. Samujin N.V., Birenbaum G.V., Vygotski L.S. K voprosu o strukturie diemiéntsii pri boliezni Pika [O problema e a estrutura da demência na doença de Pick]. Soviétskaya nevropatologuia, psijiatría i psijoguiguiena [Neuropatologia, psiquiatria y psicohigiene soviéticas], 1934, vol. 3, no. 6, pp. 97–136.

28. Uluíbina E.V. Znákovoie oposriédovanie v kulturno-istorícheskoi teórii i psijoanálize [Mediação do signo na teoria histórico-cultural e a psicanálise]. Psijologuícheskii zhurnal [Revista psicológica], 2004, vol. 25, no. 6, pp. 64–72.

29. Freud Z. Bessoznátielnoie [O inconsciente]. En Osnovnuie psijologuícheskie teórii v psijoanálize. Ócherk istórii psijoanáliza [Principais teorias psicológicas da psicanálise. Ensaios da história da psicanálise]. San Petersburgo: Alieteiya, 1998, pp. 151–193.

30. Freud Z. Vviedienie v psijoanáliz. Liéktsii [Introdução à psicanálise]. Moskvá: Nauka, 1991. 456 p.

31. Freud S. Neue folge der vorlesungen zur einführung in die psychoanalyse [Novas lições introdutórias à psicanálise]. Wien: Internationaler Psychoanalitischer Verlag, 1933. 254 p.

32. Kozulin A. The concept of regression and vygotskian developmental theory. Developmental review, 1990. №10, pp. 218–238.

33. Pešić J., Baucal A. Vigotski and psychoanalysis: Toward dialogue. Journal of Russian and East European Psychology, 1996. Vol. 34, no. 1, pp. 33–39.

34. Van der Veer R. Tatyana on the couch: the vicissitudes of psychoanalysis in Russia. In S. Salvatore (eds.) Cultural psychology and psychoanalysis: pathway to synthesis. Charlotte, N.C.: Information Age Publishing, 2011, pp. 49–55.

35. Wertsch J.V. A meeting of paradigms: Vigotski and psychoanalysis. Contemporary Psychoanalysis, 1990. Vol. 26, no. 1, pp. 53–73.

36. Wilson A., Weinstein L. An investigation into some implications of a Vygotskian perspective on the origins of the mind: psychoanalysis and Vygotskian psychology, Part I. Journal of the American Psychoanalytic Association, 1992. №40, pp. 357–387.

37. Wilson A. Weinstein L. Language and the psychoanalytic process: Psychoanalysis and Vygotskian psychology, Part II. Journal of the American Psychoanalytic Association, 1992. №40, pp. 725–760.

38. Wilson A., Weinstein L. Language, thought, and interiorization: A Vygotskian and psychoanalytic perspective. Contemporary Psychoanalysis, 1990. Vol. 26, no. 1, pp. 24–41.

39. Wilson A., Weinstein L. The transference and the zone of proximal development. Journal of the American Psychoanalytic Association, 1996. Vol. 44, no. 1, pp. 167–199.

40. Zavershneva E. The problem of consciousness in Vigotski’s cultural-historical psychology. In Yasnitsky A. (eds.) The Cambridge handbook of cultural-historical psychology. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2014, pp. 63–100.

= = =

quarta-feira, 8 de maio de 2024

O elitismo de Adorno contra o jazz


por István Mészáros

Analisado superficialmente, o alinhamento da “teoria crítica” com a perspectiva weberiana foi muito mais surpreendente. No entanto, havia importantes pontos de contato entre essa perspectiva e o pensamento geral da Escola de Frankfurt, apesar das diferenças entre seus membros individuais.

É fato que esta escola corresponde a um conjunto muito heterogêneo de pensadores. Sua diversidade incluía desde as esperanças de Walter Benjamin de participação direta na práxis política de esquerda[1] até o ativismo político “voltado para os excluídos” de Marcuse; desde o não-envolvimento sociopolítico de Adorno até o extraordinário ecletismo teórico[2] e, apesar de seus protestos verbais, o oportunismo político tecnocrático de Jürgen Habermas. Há uma certa ironia na elevação desses intelectuais ao status de uma instituição cultural venerável, porque a constituição de uma “escola” sobre a grande diversidade de indivíduos que foram finalmente classificados sob o rótulo de “teoria crítica” tinha tanto a ver com as necessidades da “indústria cultural” e da “comunicação de massas manipuladora" — dois dos alvos mais frequentes das denúncias mordazes de Adorno — quanto com a coerência intelectual de suas ideias.

Entretanto, para além das diferenças significativas, a origem weberiana da crítica da “burocracia” e da “razão instrumental” — compartilhada por praticamente todos os membros da Escola de Frankfurt — é bastante óbvia. E, mais importante ainda, encontramos uma forte tendência elitista nos escritos teóricos de todos os “teóricos críticos”, qualquer que seja o ponto particular do espectro político em que estejam situados.

Em relação a Adorno, isto foi enfatizado em muitas ocasiões. Citando uma análise favorável:
O discurso de Adorno sobre a mediação entre a práxis intelectual e a práxis política permaneceu abstrato e vago, sem explicação do agente social que poderia servir como condutor desta mediação, uma vez que o papel do partido foi rejeitado. O agente da “mediação” de Adorno permaneceu tão misterioso quanto o mediador entre os espíritos e a matéria do mundo, e a crítica de Hanns Eisler possui um inegável ponto de validade: “Esta crença metafísica e cega no 'desenvolvimento da música'. Se Adorno compreendesse pelo menos uma vez  que a música é feita por pessoas e para pessoas —  e se ela também se desenvolve, este desenvolvimento não é abstrato, mas de alguma forma pode ser ligado aos relacionamentos sociais! —, ele não diria este absurdo abstrato”.[3] Havia realmente algo de metafísico na ênfase que Adorno confere à verdade, e também em sua visão da elite intelectual como formuladora daquela verdade.[4]
O problema era, na verdade, até mais complicado do que está indicado nesta passagem, uma vez que não faltava apenas o “agente ou veículo social” da “mediação” programática de Adorno, mas também seu terminus ad quem emancipatoriamente efetivo. Isso trazia a necessidade de uma auto-orientação e de um retraimente intelectual, articulando-se na perspectiva pessimista de uma “dialética negativa” deliberadamente oposta à adoção de um ponto de vista social, sem deixar de buscar uma solução misteriosa dos problemas identificados, como resultado da ação a partir do campo problemático desta autocontenção desesperada.

Talvez por causa do forte sentimento de desesperança prática decorrente desta negação sem afirmação, nascida de uma autocontenção intelectual imposta a Adorno pela lógica interior do “veículo” e do terminus ad quem ausentes, ele assumiu algumas posturas que pareciam estranhas até em seus próprios termos de referência. Assim, embora postulasse o papel de “mediação” abstrata de sua elite, Adorno também idealizava o ato de ficar imerso, em total silêncio, na leitura da partitura musical — obviamente limitada a poucos escolhidos — como a única maneira realmente adequada, “imediata” e “não-adulterada”, de usufruir a música.[5] Lamentavelmente, comparada a tal concepção da comunicação musical, a aristocrática afirmação de seu ídolo, Schönberg — segundo o qual o público só é necessário para melhorar a acústica da sala de concertos —, poderia soar como a manifestação do humanismo democrático orientado para as massas.
 
Também os ataques românticos de Adorno contra o jazz traíam seu extremo elitismo. Ele via e abominava no jazz “a atitude perene da cultura de massa”[6], ridicularizando seus “apaixonados devotos” por “mal serem capazes de descrever, em conceitos musicais precisos, técnicos, o que é que tanto os comove”.[7] Ao mesmo tempo que condenava a incapacidade de tais “primitivos” para articular as ideias sobre seu objeto de admiração, Adorno dava sua opinião sobre o que estava realmente envolvido na execução e na experiência do jazz, opinião que parecia terrivelmente profunda: “O objetivo do jazz é a reprodução mecânica de um momento regressivo, um simbolismo da castração”.[8] E isso não era tudo. Ele acrescentava outra visão profunda, relacionada ao “sujeito” do jazz, definido por ele nos seguintes termos:
 
O sujeito que se expressa, expressa precisamente isto: não sou nada, sou sujo, e mereço qualquer coisa que façam comigo. Potencialmente, este sujeito já se tornou um daqueles russos acusados de um crime e que, embora, inocente, desde o início colabora com seu perseguidor e é incapaz de encontrar um castigo severo o bastante.[9]

Como é tão frequente nos escritos de Adorno, suas afirmações arbitrárias só eram “substanciadas” por analogias igualmente arbitrárias. Evidentemente, os sujeitos privilegiados capazes de relatar suas experiências musicais (não corrompidas pela “indústria cultural”) em “conceitos musicais precisos, técnicos”, e que já estivessem perfeitamente sintonizados no comprimento da onda da “teoria crítica” e da negação universal abstrata (mas concretamente bem acomodados), não teriam dificuldade em aceitar as duas afirmações — sobre o “sujeito sujo do jazz” e sobre “aqueles russos” — sem questionamento, juntamente com sua esclarecedora contribuição à compreensão da natureza do jazz, que teria escapado aos simples mortais. Este procedimento é muito semelhante ao que se usa quando dois nomes são ligados com um “e” nos títulos de livros para estabelecer um elo “orgânico” entre dois campos que de outro modo nada teriam em comum. Mas, por mais problemático que seja tal procedimento, aqueles que compartilham do ponto de vista de Adorno não teriam qualquer objeção a fazer. Sem dúvida, teriam afirmado imediatamente que uma das acusações mais óbvias que se poderia levantar contra o jazz “primitivamente improvisado” e “monotonamente sincopado” era a de fazer muito pouco uso, se é que fazia algum, das partituras musicais.

Tudo isso, no entanto, não altera o fato de que, em todo o ataque ressentido e arrogante de Adorno ao jazz, não se encontra uma única linha de análise musical; nem em “conceitos musicais precisos, técnicos”, nem sob qualquer forma. Em vez disso, o verdadeiro significado do jazz era descrito por Adorno da seguinte forma:
 
“Desista da sua masculinidade, deixe-se castrar”, é o que proclama o som assexuado da banda de jazz, “e se você será recompensado, aceito em uma fraternidade que partilha com você o mistério da impotência, mistério revelado no momento do rito de iniciação”. Se esta interpretação do jazz — cujas implicações sexuais são mais bem compreendidas por seus oponentes chocados do que por seus apologistas — parece arbitrária e rebuscada, permanece o fato de que ela pode ser constatada em incontáveis detalhes tanto da música como das letras.[10]

Apesar da promessa de constatar em “incontáveis detalhes” aquilo que ele mesmo reconhecia estar sujeito à acusação de arbitrariedade e rebuscamento, nem uma obra de jazz foi sequer mencionada, e muito menos adequadamente analisada, nesse ensaio tão parcial. Nem mesmo os nomes de alguns músicos de jazz foram apresentados como exemplos ilustrativos, exceto dois — Mike Riley e Louis Armstrong. Mas mesmo estes foram tomados de segunda mão de duas obras críticas norte-americanas citadas por Adorno.

A referência de segunda mão a Louis Armstrong o comparava aos “grandes castrati do século XVIII”,[11] sem querer mencionar a contradição óbvia entre as afirmações genéricas da própria teoria de Adorno sobre a natureza do jazz, em uma “sociedade de massa totalmente integrada e reificada”, e o século XVIII; este último, nem um pouco perturbado pela “produção planejada”, a “cultura de massas”, a “reificação total” e a ubíqua “indústria cultural”, mas possuindo seus “grandes castrati” — que o eram não apenas simbolicamente — que, não obstante, são tomados como exemplos que esclarecem a desconcertante realidade do jazz e o suposto complexo de castração de todos aqueles que dele participam. Na estrutura aforística de declarações e declamações de Adorno, é suficiente apenas afirmar os preconceitos ideológicos do autor e suas negações genéricas da “sociedade em si”, sem qualquer esforço real para demonstrá-los, enquanto ao mesmo tempo desfia acusações igualmente genéricas contra a ideologia.

= = =
Notas:
[1] Benjamin era muito amigo de Bertolt Brecht e Karl Korsch.
[2]
“Alles was gut und teuer” (“tudo o que há de bom e valioso”, isto é, muito elogiado), como dizem em alemão, Ver uma excelente resenha crítica de Legitimation crisis, de Habermas, de autoria de James Miller, Telos, n. 25, outono de 1975, p. 210-20. O mesmo número da Telos contém um debate muito interessante entre Wolfgang Müller, Christel Neusüss, Jürgen Habermas e Claus Offe que é importante para se compreender a posição política de Habermas. Os artigos em questão são: W. Müller e C. Neusüss, “The illusion of state socialism and the contradiction between wage labour and capital”, p. 13-91; J. Habermas, “A reply to Mülller and Neusüss”, p. 91-8; Claus Offe, “Further comments on Müller and Neusüss”, p. 99-111.
[3] Hans Bunge, Fragen sie mehr über Brecht: Hanns Eisler in Gerspräch, Munique, Rogner and Bernhand, 1970, p. 30.
[4] Susan Buck-Morss, The origin of negative dialetics: Theodor W. Adorno, Walter Benjamin and the Frankfurt Institute, Hassocks, Haverster Press, 1977, p. 42. Uma análise séria de Adorno e Marcuse é a de Joseph McCarney,
“What makes critical theory 'critical'?”, Radical Philosophy, n. 42, inverno/primavera de 1986.
[5] Ele tentou persuadir Arnold Hauser — que era muito menos competente do que Adorno na leitura de partituras musicais, e por isso permaneceu completamente cético — da correção deste julgamento.
[6] Theodor W. Adorno, Prisms, Londres, Nevile Spearman, 1967 (ensaio
“Perennial fashion — jazz”, p. 119-32).
[7] Ibid., p. 127.
[8] Ibid., p. 129.
[9] Ibid., p. 132.
[10] Ibid., p. 129-30.
[11] Ibid., p. 130.
= = =
MÉSZÁROS, I. O poder da ideologia. Trad. Magda Lopes e Paulo Cezar Castanheira. São Paulo: Boitempo, 2012, p. 154-156.
= = =

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Marcuse e a contracultura tupiniquim


por Carlos Nelson Coutinho

A Escola de Frankfurt chegou ao Brasil no final dos anos de 1960. Ao lado de muitos livros de Marcuse, foram então publicados importantes ensaios de Benjamin, Adorno e Horkheimer; na mesma época, Roberto Schwarz empregava com brilho categorias frankfurtianas em suas análises literárias, e José Guilherme Merquior — então heideggeriano — publicava o primeiro estudo brasileiro de conjunto sobre os principais pensadores da Escola[2]. O processo se inseria numa saudável tendência à abertura do pensamento social brasileiro para as mais importantes correntes da cultura universal contemporânea; uma tendência que, apesar do golpe de 1964, manifestou-se com intensidade ao longo de toda a década de 1960. Para falarmos apenas no marxismo, foi este o período em que — quebrando um quase monopólio anterior dos manuais soviéticos — a bibliografia marxista brasileira se enriqueceu não só com os textos frankfurtianos citados, mas também com trabalhos de Lukács, Gramsci, Goldmann, Althusser, Baran e Sweezy, Adam Schaff e muitos outros.

Foi a peculiar situação brasileira dessa agitada segunda metade dos anos de 1960 que determinou, em grande parte, o modo como se deu essa primeira recepção da Escola entre nós. Por exemplo: dependeu dessa situação, e não da eventual superioridade intrínseca dos textos de Marcuse, o fato de que esse autor tenha desfrutado, na vida intelectual brasileira da época, de uma influência incomparavelmente superior à de seus companheiros de Escola. Já conhecido internacionalmente como uma das principais fontes ideológicas das rebeliões estudantis europeias e norte-americanas, Marcuse chegava ao Brasil no momento em que um amplo setor da intelectualidade de esquerda não julgava mais encontrar nas posições do Partido Comunista Brasileiro (e da cultura marxista que lhe era próxima) uma resposta adequada aos desafios da realidade. A “Grande Recusa” proposta por Marcuse parecia contribuir para o encontro de tal resposta, naquele clima de “impaciência revolucionária”[3] em que estava imersa boa parte da nossa intelectualidade. Assim, num primeiro momento, um Marcuse lido apressadamente tornou-se componente não secundário da sopa eclética que formou a bagagem teórica da pretensa “nova esquerda” brasileira: misturado com Mao Tsé-tung, Régis Debray e Louis Althusser, com os quais pouco ou nada tinha em comum, Marcuse parecia fornecer elementos para uma contestação radical que envolvia, ao mesmo tempo, a ditadura (identificada tout court com o capitalismo) e o establishment marxista encarnado pelo “velho” PCB (que, embora em alguns casos buscasse renovar seu patrimônio cultural com autores como Lukács e Gramsci, continuava essencialmente preso às tradições esclerosadas da Terceira Internacional). Se, no plano político, a tática da “acumulação de forças” proposta pelo PCB aparecia a esses intelectuais como reformismo oportunista, o racionalismo humanista de Lukács e o projeto nacional-popular de Gramsci eram vistos, no plano da cultura, como demasiadamente vinculados a propostas estético-ideológicas conservadoras e/ou populistas. Não é assim de surpreender (embora talvez seja de lamentar) que Marcuse, cujas edições se multiplicavam, tenha sido certamente bem mais lido na época do que Lukács ou Gramsci, que tinham suas traduções brasileiras vendidas em estantes de saldo a preço de banana.

Com o rápido fracasso da luta armada, à qual alguns desses intelectuais “impacientes” aderiram e com a qual muitos simpatizaram, o espírito da “Grande Recusa” sofreu uma alteração profunda. Por um lado, a vertente althusseriana — sob a cobertura de um falso revolucionarismo teórico que se reduzia a decretar “cortes epistemológicos” radicais — refluiu para uma escolástica acadêmica e estéril que, combinada e fundida com a do estruturalismo, passou a dominar uma parte substancial da produção universitária e editorial no campo das ciências humanas. Por outro lado, entre os que mantiveram o espírito da “Grande Recusa”, a “impaciência revolucionária” rapidamente assumiu uma nova feição: de oposição política (ainda que equivocada) a uma opressão concreta, ela se converteu numa rejeição tão global quanto abstrata à “cultura” em geral. O mal já não seria tanto a ditadura ou mesmo o capitalismo enquanto formação econômico-social, mas todo um legado cultural que, baseado na razão e na ciência, funcionaria essencialmente, segundo os defensores dessa corrente, como uma instância repressora da subjetividade humana. E foi então que a obra de Marcuse, lida apressadamente, serviu como ponto de partida para essa passagem do gauchisme [esquerdismo] ao irracionalismo aberto: de estímulo para a contestação armada à ditadura, Marcuse tornou-se fonte de inspiração para os movimentos da chamada contracultura, ou, mais precisamente, daquela versão tropicalista da Kulturkritk romântico-anticapitalista que floresceu e se desenvolveu aqui no início dos anos de 1970.

Não posso me deter na questão de saber até que ponto a obra de Marcuse foi lida corretamente pelos que a transformaram em base ideológica do irracionalismo “contracultural”. Diria apenas, brevemente, que — se tomarmos os ensaios marcusianos dos anos de 1930 (não casualmente inéditos, em sua esmagadora maioria, no Brasil da época) — essa leitura unilateralmente “contracultural” dificilmente se sustenta: apoiado numa interpretação hegeliana do marxismo, Marcuse fornece nesses ensaios importantes contribuições para uma crítica concreta das tendências totalitárias que vê florescer no “capitalismo organizado” da época, indicando com precisão as suas raízes culturais. Contudo, se analisarmos seus textos mais divulgados entre nós, Eros e civilização (1955) e O homem unidimensional (1964), as coisas se complicam: identificando desenvolvimento científico-tecnológico com dominação repressiva, valorizando Orfeu e Narciso contra Prometeu, desqualificando o trabalho produtivo (para ele, necessariamente alienado) em nome de um trabalho lúdico ou libidinal, pregando uma “sexualidade polimórfica” e uma “nova sensibilidade” como antídotos contra a repressora razão instrumental, esses trabalhos de Marcuse — malgrado os seus indiscutíveis pontos de interesse — deitam raízes numa concepção do mundo essencialmente romântica e irracionalista. Não foi assim casual que a contracultura brasileira dos anos de 1970 se tenha valido abertamente de Marcuse (basta pensar nos artigos de Luiz Carlos Maciel, publicados sobretudo em O Pasquim)[4]; e se, no final, essa contracultura terminou por se tornar cada vez mais “orientalista” e abertamente mística em suas formulações teóricas, a ponto de não mais se reconhecer na inegável sofisticação teórica “ocidental” de Marcuse, isso não anula o fato de que o autor de Eros e civilização desempenhou um papel importante no florescimento do irracionalismo brasileiro dos anos de 1970. Um irracionalismo com o qual, diga se de passagem, o dos anos de 1980 — malgrado todas as inovações “pós-modernas” — conserva uma marcante linha de continuidade. Deve ser creditada à lucidez de Marcuse a sua preocupação final, expressa sobretudo em Contrarrevolução e revolta (1972, edição brasileira de 1973), no sentido de denunciar os excessos antirracionalistas que ele agora enxergava nos movimentos contraculturais da outrora “nova esquerda” internacional. Mas, infelizmente, quando esse livro foi publicado no Brasil, a influência marcusiana já entrara aqui em franco declínio (a defesa da razão entre nós, na sombria primeira metade dos anos de 1970, foi em grande parte — embora, decerto, não exclusivamente — obra dos lukacsianos: escolhendo travar uma luta em duas frentes, contra a “miséria da razão” dos estruturalistas e contra o aberto irracionalismo da contracultura, os lukacsianos brasileiros, então ligados ao PCB, terminaram isolados e, nesse isolamento, não foram infrequentes da parte deles manifestações de sectarismo e de intolerância[5]). Por conseguinte. o primeiro momento de Frankfurt no Brasil — um momento ligado essencialmente ao nome de Marcuse — serviu sobretudo ao fortalecimento do irracionalismo. Um analista superficial jamais poderia prever que o seu segundo e atual momento, capitaneado essencialmente pelo brasileiro Sérgio Paulo Rouanet, viesse vinculado a uma radical defesa da razão; e a uma defesa que se manifesta, como veremos, no combate a tendências culturais que, em alguns casos, podem ser apontadas como sequelas da antiga influência marcusiana.

Introdução e parte II: Rouanet e a defesa da razão

= = =
Notas:
[1] Uma visão fortemente crítica da Escola de Frankfurt, apontada como manifestação de Kulturkritik romântica, pode ser encontrada em J. G. Merquior, Western marxism, Londres, Paladin, 1986, p. 111-138, 155-185. Embora concorde em muitos pontos com a análise de Merquior, não sou tão cético quanto ele sobre o valor analítico positivo de muitas formulações “crítico-culturais” da Escola de Frankfurt, como se verá em seguida.
[2] De Herbert Marcuse, foram publicados no Brasil, entre 1968 e 1973, os seguintes livros: O homem unidimensional, Eros e civilização, Ideias sobre uma teoria crítica da sociedade, Contrarrevolução e revolta (todos pela Zahar), O fim da utopia (Paz e Terra), O marxismo soviético e Razão e revolução (pela Saga, depois Paz e Terra). De Walter Benjamim, apareceram pelo menos três versões do ensaio:
“A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica” e, em 1975, uma coletânea, A modernidade e os modernos (Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro), que contém um importante estudo sobre Baudelaire. De Horkheimer e Adorno, foi publicado um capítulo da Dialektik der Aufklärung sobre “A indústria cultural”; e, do último, além de versões do ensaio “Moda sem tempo: sobre o Jazz” e de uma do texto “Ideias para uma sociologia da música”, apareceu em 1975 uma coletânea. Os ensaios de Roberto Schwarz estão em A sereia e o desconfiado, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1965; e o estudo de Merquior é Arte e sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamim, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1969. Essa bibliografia não pretende ser exaustiva.
[3] O termo foi cunhado pelo lukacsiano alemão Wolfgang Harich, Critica dell'impazienza rivoluzionaria, Milão, Feltrinelli, 1972.
[4] Os artigos de Luiz Carlos Maciel foram depois recolhidos em Nova consciência. Jornalismo contracultural 1970/1972, Rio de Janeiro, Eldorado, 1973. lendo-se essa coletânea pode-se facilmente perceber a
“evolução” da contracultura brasileira de Marcuse e Reich para Heidegger e o orientalismo.
[5] O grupo lukacsiano brasileiro era formado na época por Leandro Konder, Luiz Sérgio Henriques, José Paulo Netto, Gilvan P. Ribeiro e por mim. O leitor perceberá que, se a observação acima comporta um autoelogio, comporta também uma autocrítica.
= = =
COUTINHO, C. N. “Dois momentos brasileiros da Escola de Frankfurt” [1986]. In: Cultura e sociedade no Brasil: ensaios sobre ideias e formas. 4ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2011, p. 73-88.
= = =

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Críticas de Vigotski com relação a Freud: contra o ecletismo no estudo das emoções

 
por Achilles Delari Junior
artigo em PDF

A psicanálise mostra suas tendências
profundamente estáticas e não dinâmicas,
conservadoras, antidialéticas e anti-históricas.
(Vygotski, 1927/1991, p. 299)

Sobre a natureza desse trabalho

Este texto é uma versão ampliada de postagem que fiz no dia 2 de dezembro de 2009, na lista XMCA[1] do LCHC “Laboratory of Comparative Human Cognition”. Tal postagem referia-se a que, em tópico nomeado “sobre emoções” (about emotions), fora feita menção a Vigotski ser simpático a Freud, por sua abordagem “histórica” ao ser humano. O que talvez se pautasse em uma noção de “história” como percurso cíclico da vida mental individual, no qual o ser humano passa por diferentes fases psicossexuais e/ou as repete — na visão do psicanalista. Contudo, como disse naquele fórum, tenho algumas contestações iniciais quanto ao papel que Freud poderia ocupar numa “teoria das emoções” que atendesse aos rigorosos critérios críticos de Vigotski para a temática. Contestações que desejo partilhar com o leitor, solicitando sua réplica crítica para aprofundarmos a discussão.

Tais contestações são reflexo e refração da minha própria trajetória de estudo dos dois autores, um deles (Freud) bastante lido e ensinado no curso de graduação em psicologia, em várias disciplinas obrigatórias, e outro (Vigotski) apropriado sempre parcialmente num percurso autodidata à revelia das instituições de ensino. O que, certamente, evidencia meus limites pessoais e históricos na formulação do problema e dá espaço às correções necessárias por parte do leitor com maior domínio do projeto de Vigotski para a psicologia. Sendo assim, exporei primeiro os motivos de minha “desconfiança”, levantando indícios de profunda oposição teórica e metodológica de Vigotski frente a Freud (parte I). Num segundo momento, retomarei algumas áreas de contato entre os dois autores, as quais não mostram haver, mesmo assim, qualquer acordo metodológico central entre eles (parte II). Por último, retomarei posições de dois diferentes momentos históricos do próprio Vigotski quanto ao que ele mesmo pensava sobre ser ou não “histórica” a abordagem psicanalítica (parte III).

Não é impossível um diálogo póstumo entre estes autores que eles não tenham sugerido ou almejado em vida. Ligações inusitadas são possíveis e desejáveis, já que os significados sociais para o que disseram não podem estar todos sob seu próprio domínio. A réplica social para suas palavras repercute no “grande tempo” e em diálogo elas nunca morrem. Mas vale lembrar, em primeiro lugar, que diálogo não é algo que façamos apenas quando desejamos concordar ou receber aprovação. Vigotski, por exemplo, mostra-se sempre atento aos seus oponentes intelectuais, bem mais do que estes à sua obra, mas nisso, via de regra, procede por antítese e com ironia — seja “socrática”[2] ou não. Em segundo lugar, já vêm sendo propostos vários “diálogos dos mortos”[3], críticos ou ingênuos, entre Vigotski e outros autores, desde os mais “questionados” (como entre Vigotski e Piaget) aos mais “consensuais” (como entre Vigotski e Bakhtin) — não havendo o que opor a tal prática.

Seja como for, a questão aqui não é determinar, a qualquer custo, se a metafísica de Freud tem, objetivamente, algo a acrescentar à dialética de Vigotski ou não. Partamos do princípio de que se o desejo do pesquisador for criar convergências, nas condições históricas das ciências humanas hoje, sempre poderá realizá-lo, num quadro teórico “autossuficiente”. Todavia, não me proponho a dar contraprova da possibilidade ou legitimidade de fusões ecléticas, mas apenas a explorar algo do que o psicólogo bielorrusso pensava sobre elas. Desta maneira, sendo o próprio pensamento vigotskiano o objeto de nossa curiosidade, o leitor não encontrará aqui uma revisão às obras de Freud, a qual pode obter em abundantes fontes de autoria de seus seguidores e/ou admiradores — em sua grande maioria, totalmente alheios às contribuições de Vigotski e do materialismo dialético.

Como nos disse a psicóloga social Lucília Reboredo: “para haver diálogo é preciso que haja diferença”. Acentuar diferenças é o modo que encontro aqui para evitar certa tendência a omitirmos nosso posicionamento ético e político no debate entre posturas epistemológicas distintas, para não dizer antagônicas, já comum no eclético e conservador cenário dito pós-moderno — noite política e cultural, na qual todos os discursos são pardos.

I. Posições antagônicas centrais de Vigotski frente a Freud

1. Em 1931-33: “Teoria das emoções: um estudo histórico-psicológico”

A obra “Teoria das emoções” foi escrita e reescrita por Vigotski ao longo de vários anos, entre 1931 e 1933, contemplando a crítica de algumas das principais concepções sobre este tema em sua época. Entretanto, é interessante lembrar que em todo o texto, cuja edição hoje conhecida[4] contém vinte capítulos, Freud é citado em apenas duas ocasiões: (1.1) no capítulo 18, como um “discípulo involuntário de Descartes”; e (1.2) no capítulo 19, numa alusão alegórica a um chiste relatado pelo primeiro.

1.1. Freud como discípulo involuntário de Descartes

No capítulo 18, Vigotski lembra que para Descartes as “paixões da alma” são exclusivamente humanas, ausentes nos animais, desprovidos de alma. Em seguida, critica diferentes tendências que continuam vendo as emoções propriamente humanas como algo dissociado do corpo, dos processos fisiológicos[5]. Dentre elas estão o organicismo de James/Lange e as proposições metafísicas de Freud e Scheler/Lotze, todos considerados, cada qual ao seu modo, “discípulos involuntários de Descartes”[6] (Vygotski, 1931-33/ 2004, p. 211). Algo do dualismo de Freud residiria em seu entendimento de que não é necessário conhecer as vias nervosas para compreender, por exemplo, o que é o medo.

Encontra-se neste autor o reconhecimento de características orgânicas que proporcionam o tônus fundamental do afeto, mas não se deduz que sejam a “substância” do afeto. Portanto, deduz-se que a “psicologia profunda dos afetos”, representada por Freud, os definiria como da ordem de outra substância que não a matéria. Segundo Vigotski,
 
o intuito de preservar um exame puramente causal dos fatos psicológicos e, ao mesmo tempo, de não levar à ruína a psicologia considerada como uma ciência autônoma e de não por seus problemas nas mãos da fisiologia, obriga a psicologia profunda a reconhecer a absoluta independência substancial dos processos psíquicos e a autonomia da causalidade psíquica (Vygotski, 1931-33/2004, p. 215).

Em dado momento, a busca inicial de Freud por um determinismo orgânico teria sido substituída pela postulação de um determinismo psíquico, prescindindo de explicações neurofisiológicas, tornando-se para ele inclusive desnecessário debater com James e Lange (ver Vygotski, idem). Em suma, Freud é visto por Vigotski como tão metafísico quanto Scheler e Lotze. Contudo, se estes representam uma metafísica “teísta”, a do psicanalista seria “pandemoníaca”, valendo-se de “imagens do reino subterrâneo, do inferno e das profundidades extremas” (Vygotski, 1931-33/2004, p. 217). Sua psicologia buscaria “elucidar o enigma (...) nas profundidades metafísicas do espírito humano — na vontade[7] de Schopenhauer” (idem, p. 216). Temos a impressão de que aqui a teoria das emoções de Freud não está sendo elogiada, tampouco aceita. Muito mais crédito é dado, neste capítulo, ao anônimo Chabrier[8], por exemplo, com suas pistas sobre relações entre emoções e consciência, ideologia, cultura, história e personalidade (ver Vygotski, 1931-33/2004, p. 212, 213 e 218).

1.2 Freud como fonte de alegoria para criticar Dilthey

No capítulo 19, Freud é citado de modo puramente alegórico por Vigotski, quando este se refere ao caso de um chiste relatado pelo primeiro para dar seguimento a um argumento mais geral, criticando Dilthey por este autor misturar teses de conteúdo distinto.
 
Assim, a mescla de três afirmações distintas quanto ao seu conteúdo recorda de maneira surpreendente a lógica da história a que se refere Freud em seu estudo sobre o chiste. Uma mulher que a sua vizinha acusa de haver quebrado uma panela que lhe havia emprestado, expõe, para justificar-se e para ser mais convincente, três argumentos de uma vez: “em primeiro lugar — diz — não te pedi emprestado nenhuma panela; em segundo lugar, quando a levei já estava quebrada; em terceiro lugar, a devolvi perfeitamente intacta” (Vygotski, 1931-33/ 2004, p. 226-227 – trad. minha).

Nenhuma explicação e/ou contribuição teórica freudianas são assumidas, nesta passagem, para a compreensão do funcionamento psíquico do chiste, como tal. E as contribuições de Freud sobre as emoções sequer são postas em pauta, nesse momento. A menção é feita apenas de passagem, como recurso retórico, uma figura de analogia entre a inconsistência da lógica de pensamento da mulher acusada pela vizinha e a lógica do pensamento teórico de Dilthey, ao tratar da psicologia dos sentimentos.

Constata-se que em um trabalho de vinte capítulos sobre a teoria das emoções, Vigotski só menciona o pensamento do próprio Freud quando o coloca entre “discípulos involuntários de Descartes”. Ou seja, só o traz à baila como um dentre outros importantes exemplos da postura metodológica dualista que está criticando, ao longo de toda a obra, a partir de outras referências, sobretudo a do monismo de Espinosa. Não sabemos dizer exatamente quando, entre 1931 e 1933, os capítulos 18 e 19 foram escritos. Podemos apenas constatar que este seja um momento histórico já avançado no desenvolvimento do pensamento de Vigotski. Entretanto, desde antes ele já vinha definindo algumas bases epistemológicas para tal posicionamento crítico, como veremos a seguir.

2. Em 1927: “O significado histórico da crise da psicologia”

Na obra “O significado[9] histórico da crise da psicologia”, de 1927, Vigotski menciona Freud várias vezes. Contudo, podemos notar que, na maioria delas, ele o faz em função não tanto de criticá-lo diretamente, quanto no de rejeitar metodologicamente várias tentativas de fusão epistemológica entre marxismo e psicanálise — uma delas do próprio Luria, em artigo de 1925, publicado na coletânea “Psicologia e marxismo”, organizada por Konstantin Kornílov (ver LURIA, 1925/2002). A rejeição categórica a tais tentativas ocorre com base nos seguintes argumentos, dentre outros: (2.1) a inconsistência de se tratar a obra de Freud como “monista” e/ou “materialista”; (2.2) a presença de uma forte adesão de Freud a concepções metafísicas; e (2.3) a presença de um destacado reducionismo da psicanálise também no campo prático.

2.1 Sobre a fragilidade da defesa de um monismo em Freud

Para mostrar o caráter frágil dos argumentos a favor de um suposto “monismo” em Freud, Vigotski destaca que seu “materialismo médico” é bem distinto do “materialismo dialético” próprio da psicologia marxista. O primeiro pode conviver com concepções metafísicas, enquanto o segundo visa superá-las. Assim, rejeita abertamente a posição de Zalkind:
 
Mas vejamos o suposto monismo da psicanálise, com o qual Freud não haveria estado de acordo. Onde, em que palavras, com que motivo, se passou ao terreno do monismo filosófico a que se refere o artigo [de Zalkind]? Seria que toda a redução de um certo grupo de fatos à unidade empírica é monismo? Ao contrário, Freud reconhece sempre o psíquico, é dizer, o inconsciente como uma força especial, que não pode reduzir-se a nenhuma outra. Ademais, por que este monismo [seria] “materialista” no sentido filosófico? O materialismo médico (que reconhece a influência de órgãos isolados, etc., nas formações psíquicas) está ainda no terreno da filosofia idealista (Vygotski, 1927/1991, p. 229).

O fato de Freud, como médico, reconhecer o caráter material dos processos orgânicos elementares, não faz dele “materialista” nem “monista” no sentido filosófico, ontológico e epistemológico. Vigotski não cobra de Freud que este seja um pensador monista, já que ele não se propunha a isto, mas está colocando em xeque o argumento freudomarxista de que é possível incorporar Freud com base no preceito equivocado de seu suposto “monismo”. Vê-se que o dualismo de Freud enfatizado em “Teoria das emoções”, já era abertamente constatado aqui, em 1927.

2.2 Sobre as bases metafísicas de Freud

Quanto às bases metafísicas de Freud, no texto sobre a “Crise”, destacam-se principalmente as influências de Lipps[10] e de Schopenhauer[11]. Quando ao primeiro, Vigotski explicita que
 
todos os conceitos principais do sistema psicológico de Freud remontam a T. Lipps. Os conceitos de “inconsciente”, de “energia psíquica ligada a determinadas representações”, das pulsões como base da psique, da luta das pulsões e das transferências, da natureza afetiva da consciência, etc. Com outras palavras, as raízes psicológicas de Freud se adentram nas capas espiritualistas da psicologia de Lipps. Como cabe não ter isto em conta para nada falar da metodologia de Freud? (Vygotski, 1927/1991, p. 300).

Com relação a Schopenhauer a advertência epistemológica não é menos severa:
 
É um fato (não só não desmentido, senão que sequer analisado pelos autores da “coincidência”) que a doutrina de Freud sobre o papel primário das paixões cegas, papel que se reflete de forma inconsciente e desvirtuado na consciência, remonta diretamente à metafísica idealista da vontade e às representações de Schopenhauer. Em suas conclusões mais extremas, o próprio Freud assinala que se acha perto de Schopenhauer. Mas também em suas premissas fundamentais, assim como nas linhas determinantes de seu sistema, está ligado à filosofia do grande pessimista, como pode por de manifesto a análise mais simples. (Vygotski, 1927/1991, p. 299).

Vigotski, deste modo, busca mostrar tanto que várias ideias tomadas como inovações trazidas por Freud não são tão originais assim; quanto que tal autor, não faz questão de se opor à tradição metafísica à qual se filia, embora alguns marxistas russos o quisessem colocar em um lugar que ele mesmo não desejou assumir.

2.3 Questionamento quanto à aplicação prática da psicanálise

Por fim, Vigotski também questiona campos de aplicação “prática” da psicanálise, não tanto quanto às suas técnicas terapêuticas, quanto à aplicação das especulações geradas para tentar dar conta delas, quando transpostas indiscriminadamente aos mais diferentes campos da cultura e da vida social. Dessa maneira:

também em seus trabalhos “práticos”, a psicanálise mostra suas tendências profundamente estáticas e não dinâmicas[12], conservadoras, antidialéticas e anti-históricas. Reduz os processos psíquicos superiores — individuais e coletivos — diretamente a raízes que evoluíram pouco, primitivas, em essência pré-históricas, pré-humanas, sem deixar espaço à história. A obra de F. M. Dostoiévski se analisa do mesmo modo que os totens e tabus das tribos primitivas; a igreja cristã, o comunismo, a horda primitiva, tudo isso procede, em psicanálise, da mesma fonte. Que tais tendências se encontram na psicanálise o testemunham todos os trabalhos desta escola que tratam dos problemas da cultura, da sociologia, da história. Comprovamos, portanto, que não segue, senão nega, a metodologia do marxismo. Mas sobre isto, nem mais uma palavra (Vygotski, 1927/1991, p. 299-300).

Como veremos a seguir, essa profunda rejeição de Vigotski ao reducionismo freudiano já era anunciada, dois anos antes em seu livro “A psicologia da arte”, de 1925.

Concluindo nossas considerações sobre esta obra de 1927, cabe relembrar que ela pode, grosso modo, ser situada num período intermediário no desenvolvimento do pensamento de Vigotski. Entretanto, nota-se que aqui algumas diretrizes epistemológicas importantes já são indicadas. E o lugar dado então para a teoria de Freud na psicologia marxista, na visão de Vigotski, é o de um franco oponente no campo epistemológico. Embora uma ou outra questão levantada por ele possa ser bem recebida por Vigotski, as respostas dadas a elas, dentro do sistema filosófico geral da psicanálise, sua visão de mundo, não são acolhidas com o mesmo entusiasmo. O que será retomado com mais detalhes na “parte II”.

3. Em 1925, na “Psicologia da arte”

Voltando um pouco mais no tempo, notaremos que Freud foi citado bem mais em “Psicologia da arte” do que em “Teoria das emoções”. O primeiro também foi um trabalho de muitos anos, concluído em 1925, num período em que, segundo alguns autores, o referencial principal de Vigotski em psicologia ainda era “reflexológico”[13] (ver Veresov, 1999). Ademais, mesmo que se situe este livro num momento pouco amadurecido da produção teórica de Vigotski, já encontramos nele críticas severas a Freud, em torno de questões teóricas importantes. Vigotski recusa de modo enfático alguns princípios fundamentais para o quadro referencial freudiano, como, por exemplo: (3.1) o pansexualismo; (3.2) o infantilismo; e (3.3) a interpretação energética.

3.1 A ideologia “pansexualista” de Freud

“Pansexualismo” é a tendência a conceber qualquer aspecto do funcionamento psíquico como manifestação de uma só “energia” dita “sexual”[14]. Alguns leitores de Freud alegam, em sua defesa, que para tal autor “não é tudo sexual”, no sentido de “genital” — o que é óbvio, pois nem mesmo ele chegaria a tal ponto. Mas é uma saída ingênua, pois a crítica não é a um “pangenitalismo”, mas sim à visão de que mesmo experiências vitais bem diferentes das genitais sejam entendidas como de natureza igualmente “sexual” — pela “energização” de “zonas erógenas” distintas, por exemplo. Desse modo, todo o psiquismo humano poderia ser concebido em termos da dinâmica de uma energia “sexual”, sua repressão e sua canalização, saudável ou patológica, para as mais diferentes ou mesmo opostas atividades. Nesse tipo de generalização teria incorrido Freud também em sua análise de obras de arte. Segundo Vigotski,
 
surge então uma impressionante lacuna na teoria psicológica (...). Como pode ela interpretar a música, a pintura decorativa, a arquitetura, tudo em que é impossível fazer a tradução erótica simples e direta da linguagem da forma para a linguagem da sexualidade? (Vigotski, 1925/1999, p. 96).

Mais tarde, Vigotski dirá que um erro no desenvolvimento dos conceitos psicológicos reside justamente neste processo pelo qual uma explicação válida para situações particulares, como alguns casos clínicos de Freud, generaliza-se para as mais diversas realidades[15] (arte, religião, política, quiçá a pedagogia...) como se fosse lei universal, tornando-se uma “ideologia” (Vygotski, 1927/1991 – 271 e 272).

3.2 O reducionismo do “infantilismo” em Freud

“Infantilismo” é a tendência a reduzir a explicação dos atos humanos a estruturas mentais definidas na infância, sobretudo pela estruturação do dito “complexo de Édipo”[16] — conceito de Freud no qual o mito grego é lido de acordo com sua visão e interesses. Vigotski entende que “no estudo sobre Leonardo da Vinci, Freud tenta deduzir todo o destino e toda a obra deste artista das emoções [perejivaniia] básicas da infância” (Vigotski, 1925/1999, p. 94). Sugerindo que para tal autor
 
cada indivíduo está preso ao seu complexo de Édipo e que, nas formas mais complexas e elevadas de nossa atividade somos forçados a vivenciar mais e mais o nosso infantilismo e, assim, a mais elevada criação fica fixada em passado remoto. É como se o homem fosse escravo da sua infância, como se passasse toda a vida resolvendo aqueles conflitos que se criaram nos seus primeiros meses de vida (idem, p. 94-95).

Tal contestação se intensifica quando a relação entre criação artística e trajetória biográfica de Dostoiévski é comentada. Pois para alguns psicanalistas
 
em Dostoiévski viveu e criou um eterno Édipo. Acontece, porém, que se considera como lei fundamental da psicanálise a afirmação de que Édipo vive em exatamente cada indivíduo. Significa isto que, mencionando Édipo, nós resolvemos o enigma de Dostoiévski? Por que devemos admitir que os conflitos da sexualidade infantil, os choques da criança com o pai foram mais influentes na vida de Dostoiévski do que todos os traumas e emoções [perejivaniia] mais tardios? Por que não podemos admitir, por exemplo, que emoções [perejivaniia] como a espera da execução, os trabalhos forçados, etc. não puderam servir de fonte para novas, complexas e angustiantes emoções [perejivaniia]? (Vigotski, 1925/1999, p. 95).

Tanto pansexualismo quanto infantilismo psicanalíticos, impedem-nos de ver e ressaltar que é próprio da criação artística singular de Dostoiévski ou da Vinci, nivelando-as com quaisquer produções comuns.

3.3 O reducionismo da “interpretação energética” em Freud

A “interpretação energética” diz respeito à tendência metateórica freudiana, ligada ao pansexualismo, em tratar questões relativas ao funcionamento do psiquismo humano como redutíveis ao seu aspecto energético inespecífico, universal, mesmo que não sempre se tenha claro de que natureza seria tal “energia”, em sua materialidade[17]. Entretanto, sendo tudo no psiquismo humano questão de “energia”, os processos semânticos dos mais distintos seriam todos diferentes manifestações de uma só realidade. Vigotski, nesse momento histórico não deixa de concordar, por exemplo, com haver uma contribuição de Freud com relação a determinadas vivências [perejivaniia], com a qual atinaria seu próprio entendimento quanto ao papel da catarse na reação estética (o que retomarei na parte II). Entretanto, uma correção fundamental deveria ser feita a Freud: “abandonar sua interpretação energética”.
 
São bem mais interessantes os resultados do chiste, do humor e da comicidade obtidos por Freud. Achamos um tanto arbitrária a sua interpretação energética de todas as três modalidades de emoções [perejivaniia], que acaba por reduzi-las a certa economia, à perda de energia, mas se abandonarmos essa interpretação energética não poderemos deixar de concordar com a grandiosa precisão da análise de Freud (Vigotski, 1925/1999, p. 295).

A despeito da hipérbole da “grandiosa precisão”, nota-se que mesmo que determinado resultado da investigação de Freud aqui seja aceito como útil, seu modo mais geral de compreender tal resultado deve ser “abandonado” para que se possa fazer um bom proveito dele. Resta perguntar: se entender a psicanálise como sistema “monista”, que não pretende ser, constitui-se em erro metodológico, não seria também um equívoco tentar concebê-la sem a “interpretação energética”? Sem isto ela não deixaria de ser “psicanálise”, nos termos em que Freud a concebia?

Cabe destacar que “Psicologia da arte” é o resultado de uma investigação pautada no método “objetivo-analítico” e visa tratar da objetividade das relações contraditórias entre conteúdo-forma organizadas pelo autor na estrutura da própria obra literária (ver Vigotski, 1925/1999), com base numa dada tradição estética, social e historicamente constituída. Portanto, tal método recusa o psicologismo, que veria as explicações para a obra no psiquismo individual do autor ou de quem frui o seu trabalho. Psicologismo que, por sua vez, se constitui no principal modo de interpretação pelo qual a psicanálise vê a arte: uma forma de “sublimação” de tendências individuais reprimidas, que precisam se realizar de algum modo “socialmente aceito”.

Mesmo que, como veremos em seguida, Vigotski se aproxime de algumas ideias de Freud quanto à função da catarse na reação estética, entendo que as raízes desse ponto em comum podem ser buscadas em fontes anteriores, partilhadas por ambos. Pois não constituem, em absoluto, um achado original de Freud, nem precisam ser abordadas de acordo com sua visão de mundo e de homem, radicalmente opostas às de Vigotski.

II. Algumas periféricas posições favoráveis de Vigotski frente a Freud

Chamarei tais posições favoráveis de “periféricas”, não por que não sejam válidas ou aproveitáveis, mas apenas porque não mostram alterar o núcleo teórico e epistemológico da contribuição de Vigotski. São periféricas com relação ao antagonismo nuclear e de princípios entre este autor e a psicanálise, cujas pistas expusemos na parte I. Como os leitores de Vigotski já têm conhecimento, há um elogio feito por ele a Freud com relação à sua intuição quanto à importância da morte na definição da própria vida humana — o que ele responde com a noção, bastante metafísica, de “pulsão de morte”. Já destaquei tal elogio em outros lugares (Delari Jr., 2001; 2009b). Contudo, cabe não vê-lo de modo ingênuo, como uma concessão ao ecletismo típico do freudomarxismo. Aquilo que se coloca como elogio no mesmo momento se constitui como crítica, numa ironia sutil: “a ciência também tem necessidade desses livros: livros que não descubram a verdade, mas que ensinem a buscar a verdade, ainda que não a tenham encontrado” (Vygotski, 1927/1991, p. 303).

Claramente, Vigotski só assume que Freud faz uma boa pergunta, não que apresente resposta satisfatória. Portanto, o interesse não está, de modo algum, na concepção psicanalítica como tal, mas no objeto com relação ao qual ela está tateando cegamente. Tal elogio à pergunta de Freud sobre a importância da morte para a vida aparece tanto no texto da “Crise da psicologia”, quanto em publicação anterior assinada com Luria – um “Prefácio à edição russa de ‘Para além do princípio do prazer’”[18] (Vygotsky & Luria, 1925/1994). Cabe destacar ainda que, em 1927, importância dada à intuição de Freud, está aliada ao resgate da afirmação dialética de Marx e Engels de que “viver é morrer” (apud Vygotski 1927/1991, p. 303). Mas, ao menos nas obras aqui apresentadas, ainda não vimos Vigotski qualificar a abordagem freudiana exatamente como “dialética”.

Outra aparente aproximação entre estes autores também ocorre na “Psicologia da arte”. Trata-se da menção à noção assumida por Vigotski, também aceita parcialmente por Freud, de que as emoções são processos conscientes para o ser humano. Contudo, duas considerações talvez devessem ser feitas frente a isso. A primeira é a de que o próprio modo pelo qual Vigotski concebe as emoções, sejam todos os seus aspectos conscientes ou não, é bastante diferente do de Freud, como vemos em seu capítulo 18 de “Teoria das emoções” (comentado na parte I).

A segunda é a de que as relações entre consciência e afetos, no que diz respeito, por exemplo, ao “caráter afetivo da consciência”, não é algo originalmente proposto por Freud, senão antes também por Lipps (ver Vygotski, 1927/1991). Portanto, mais uma vez, isto não viria a ser uma semelhança profunda, nem critério de aproximação efetiva entre as abordagens específicas dos dois autores. Algo assim também ocorre no que diz respeito ao tema da “catarse”, tratado por Vigotski no capítulo nove de sua “Psicologia da Arte” (Vigotski, 1925/1999). Contudo, antes de se dizer algo de categórico sobre tal assunto, caberia lembrar que esse conceito remete também à tradição ancestral da dramaturgia grega, sobretudo sistematizada por Aristóteles. Nesta tradição, a catarse já é vista como processo de purificação promovido pela fruição da obra de arte, notadamente a tragédia[19], cujas estruturas formais são descritas no livro “Arte poética”, escrito há mais de 300 anos antes da nossa era (Aristóteles, 1979).

Cabe lembrar ainda que no capítulo 9 de “Psicologia da arte” dedicado à “Arte como catarse”, Vigotski também dialoga com vários outros autores além de Freud[20], muitos deles citados de forma elogiosa, não havendo, a rigor, qualquer destaque especial para o psicanalista. Mas ali há algo de contraditório no próprio argumento de Vigotski ao tentar ver a catarse como “descarga energética”, o que não condiz com o que dirá no capítulo 10, negando a “interpretação energética” de Freud sobre o chiste. Vigotski avança mais quando busca o que há de especificamente humano na arte. A busca pelo “que há de humano no homem”[21] será a vocação de todo seu projeto posterior em psicologia e seu principal legado às gerações futuras.

Mesmo que a “purificação” promovida pela catarse pudesse ser, em parte, uma descarga de energia nervosa (que não diz ser “sexual”), continuaria sendo fundamental compreender a especificidade/singularidade das relações forma-conteúdo que podem conduzir a tal transformação social dos sentimentos do leitor. Seja no entendimento do que diferencia a fábula, o conto e a tragédia; seja na distinção entre uma tragédia de Sófocles e uma de Shakespeare. De modo que, novamente, a suposta semelhança entre Freud e Vigotski demonstra apresentar-se por via secundária, não por identidade epistemológica radical. Há um tema, um objeto de estudo, em comum, mas não exatamente o mesmo modo geral de situá-lo e tratá-lo teoricamente.

Por fim, cabe destacar que existe, é verdade, uma série de alusões elogiosas a Freud na “Psicologia pedagógica” (Vigotski, 1924/2003; 1924/2004). Valsiner e Van der Veer (1991/1996) já levantaram um questionamento sobre isso dever-se ou não ao fato de o livro ser apenas um manual didático para estudantes de ensino médio, devendo, portanto, mais apresentar a lógica interna de cada teoria do que discuti-las criticamente. Apesar de esta não ser a única hipótese, soa como a mais plausível, já que no mesmo livro também Pavlov é bastante citado e de modo tão elogioso quanto Freud. Nem por isso se toma hoje a adesão de Vigotski a Pavlov como tão importante a ponto de necessitarmos resgatá-lo para melhor desenvolver a perspectiva histórico-cultural em geral, ou sua teoria das emoções em particular.

Não assumirei a mesma postura que Kozulin (1990) quanto a este livro, uma vez que tal autor demonstra “desconfiar” com mais desdém da necessidade de Vigotski aderir às ideias de Trotski, naquele momento, do que da ausência de crítica com relação a Pavlov e Freud. De todo modo, concordo com aquele estudioso na avaliação de que seja uma obra sui generis na trajetória intelectual de Vigotski. É um livro que tem insights interessantes para a prática pedagógica ainda hoje, como no tema do “desenvolvimento moral” e da “educação estética”, e um valor histórico para a compreensão do pensamento reflexológico de Vigotski na época. Mas não é bem uma obra na qual se encontre profunda aliança teórica entre ele e Freud em psicologia geral, tampouco em teoria das emoções.

III. Posição explícita de Vigotski quanto ao pensamento a-histórico de Freud

O que expus nas duas partes anteriores constitui o corpo das principais referências de Vigotski a Freud com as quais pude me deparar ao longo dos últimos anos. Citar outros textos importantes de Vigotski em que Freud sequer é mencionado, não é o meu objetivo aqui. Para avaliar a abrangência da bibliografia citada o leitor deverá pesar a dificuldade de adquirirmos várias obras essenciais de Vigotski no Brasil — o que nunca ocorreu com as de Freud, amplamente traduzidas, publicadas e, sobretudo, vendidas, em todo país, mesmo em tempos de ditadura. Além de tais referências, apenas duas outras menções eu poderia fazer, a título de lembrança. Uma quanto à referência eventual de Vigotski à ideia de que o inconsciente pode ser visto não só como processo “apartado da consciência”, mas também como uma “grandeza derivada do desenvolvimento e da diferenciação da consciência” (Vigotski, 1934/2001, p. 288).

Também nada que se diga estar em profunda aliança com a psicanálise. E, por último, a discussão epistemológica feita por Vigotski sobre o problema do inconsciente relativo à definição do objeto da própria psicologia. Algo que aparece no texto “A psique, a consciência e o inconsciente” (Vygotski, 1930/1991), mas não está também em função de uma adesão direta às contribuições de Freud, senão de uma análise do problema em diferentes autores, inclusive no próprio Lipps, cuja posição metafísica é destacada em “A crise da psicologia”. Ademais, como se sabe, o objeto da psicologia por excelência, para Vigotski, até o final de sua vida, permanecerá sendo a “consciência” — o que há de especificamente humano em nosso psiquismo, o macrocosmo da palavra significativa.

Deste modo, até constatar o contrário, mantenho minhas dúvidas quanto a haver qualquer papel especial para Freud na teoria das emoções de Vigotski, quanto a isso ser de fato relevante ou necessário para a formulação do seu projeto de investigação neste campo. Pelo contrário, o próprio Vigotski é quem contesta a possibilidade de ter a psicanálise uma visão compatível com o projeto geral da psicologia marxista, indicando que a noção ventilada de que a simpatia vigotskiana pela psicanálise residiria no caráter histórico da mesma, carece de fundamento documental, quando não de fundamento lógico. Mesmo que saibamos que o modo de pensar de Vigotski se transforma ao longo dos anos, e isso é fato, não constatamos mudança radical quanto ao cerne da posição deste autor sobre a psicanálise no período de 1927 a 1934. Em 1927, no livro já citado sobre a crise da psicologia, ele já afirmava que “a psicanálise mostra suas tendências profundamente estáticas e não dinâmicas, conservadoras, antidialéticas e anti-históricas” (Vygotski, 1927/1991, p. 299). Em dezembro de 1932, por ocasião de seminários internos e avaliação de trabalhos de seu grupo, Vigotski volta a dizer, de modo abreviado:

a psicologia profunda[22] afirma que as coisas são o que eram. O inconsciente não evolui — esta é uma descoberta extraordinária. Os sonhos resplandecem com luz reflexa, à semelhança da Lua. Isto se desprende de como interpretamos a evolução. Como transformação do que há sido desde um princípio?[23] Como nova formação? Então o mais importante será o último (Vygotski, 1932/1991, p. 130).

Difícil entender que “descoberta extraordinária” não seja uma ironia, nem tão “socrática”, aliás. Já que toda a base metodológica de Vigotski consiste em estudar os processos em sua gênese, seu desenvolvimento, sua transformação, sua história. Como seria “descoberta extraordinária” uma visão de que algo em nós continua sempre sendo o que já era antes, em sua natureza mais profunda e universal? Naquelas discussões de seu grupo, Vigotski falava da “psicologia dos cumes (não determina a “profundidade”, mas o “cume” da personalidade)” (1932/1991, p. 130). Nesse sentido criticava tanto a “psicologia superficial” (fenomenológica) quanto a “psicologia profunda” (psicanalítica), que quer explicar o homem por suas profundezas, sua natureza subterrânea.

Já a psicologia dos “cumes”, “elevações”, visa a compreender o ser humano a partir dele mesmo. Como em Marx: “ser radical é tomar as coisas pela raiz, mas a raiz para o homem é o próprio homem” (apud Chasin, 1999,  p. 9). Define-se o “próprio homem” como ser social, simbólico e histórico, por excelência — o que a psicologia profunda não demonstra priorizar. Como disse Jerome Bruner (2005), confrontando Freud e Vigotski, temos naquele uma hermenêutica focada no passado, e neste uma concepção de desenvolvimento voltada ao futuro, às formações mais avançadas que emergem/constituem-se mediante a linguagem nas relações sociais. Apenas resta perguntar: retroceder ao paradigma freudiano contribuirá para desenvolver uma teoria que deseja situar as emoções em suas relações constitutivas com a consciência, a história, a ideologia, a cultura e toda a gênese social da personalidade humana?

= = =
Notas:
[0] Este é um material de 2009 que passou por revisão textual e de diagramação. Seu título anterior “Freud na teoria das emoções de Vigotski? Algumas dúvidas quanto a tal possibilidade” foi aprimorado para retratar melhor o caráter incisivo de seu conteúdo e facilitar buscas de quem demanda tal atitude. O teor teórico do texto e seu caráter ensaístico, problematizador, foram preservados. Versão atual concluída em Umuarama-PR, em 12 de janeiro de 2020. Última revisão em 28 de março de 2020. Disponível em: www.estmir.net/delari_2009_crt-lsv-frd.pdf
[1] Sigla para “eXtended Mind, Culture and Activity”. Trata-se de lista de discussão por e-mail, da qual participam pesquisadores de diferentes países, sobretudo alguns ligados à assim chamada CHAT (Cultural Historical Activity Theory), entre outros participantes. O site para acesso à lista está disponível em: http://lchc.ucsd.edu/MCA/index.html
[2] Wertsch (1985) relata que Vigotski teve por tutor Solomon Markovitch Ashpiz, versado na dialética (arte do diálogo) socrática. Esta, por sua vez, é composta de “maiêutica” e “ironia”. Na “maiêutica”, Sócrates trabalha como “parteiro”, auxilia o interlocutor a chegar a novas conclusões “por si mesmo”. Na “ironia” apresenta erros lógicos em sua própria fala, levando o interlocutor a perceber que, pensando assim, incorrerá em erro. Nem sempre as ironias de Vigotski são tão generosas. Às vezes, são recurso retórico ácido, ao estilo de Marx, Engels ou Lênin. Por exemplo: “Essa falha revelada com clareza no estudo de Dostoiévski, desenvolvido por Neufeld: ‘Tanto a vida quanto a obra de Dostoiévski são enigmas... Mas a chave mágica da psicanálise elucida todas as contradições e enigmas: o eterno complexo de Édipo viveu nesse homem e criou essas obras.’ (76, p. 12) Efetivamente genial! Não é chave mágica, mas certa chave falsa da psicanálise com que se pode descobrir decididamente mistérios e enigmas da obra” (Vigotski, 1925/1999, p. 95). Claro que “genial” não pode ser elogio, se a “chave mágica” é “chave falsa”. Noutros lugares a ironia é mais sutil
— ver p. 19 deste texto.
[3] “Diálogos dos mortos” são obras de gênero literário próprio da cosmovisão carnavalesca, cuja gênese histórica é estudada por Bakhtin em “Problemas da poética de Dostoiévski” (Bakhtin, 1929/1997). Nestas obras, os autores põem para conversar: pessoas que não o fizeram em vida; que viveram em épocas bem diferentes; e mesmo figuras históricas com personagens mítico-literários. Um clássico desse gênero é “Diálogo dos mortos” de Luciano (1998), uma sátira menipéia, do século II da nossa era.
[4] Quando este material foi redigido em 2009, havia notícias na comunidade acadêmica internacional de que uma primeira publicação da versão completa de tal obra estava prevista para o “volume 12” da nova edição russa das Obras de Vigotski em 15 volumes. Contudo, o volume 1 só foi publicado em 2015, dedicado exclusivamente a textos sobre questões estéticas. E até a finalização desta revisão, há apenas rumores quanto à publicação do segundo volume, nenhuma confirmação. Para visualizar o anúncio das obras em 15 volumes ou mais, favor acessar: http://www.estmir.net/plano-para-as-obras-completas-de-vigotski-em-15-tomos.html
[5] Como diz Rubinstein “o princípio da unidade psicofísica é o princípio mais importante da psicologia soviética” (1940/1967, p. 34). O que também se pode deduzir da posição monista de Vigotski ao afirmar que “a psique não aparece isolada do mundo ou dos processos do organismo nem por um milésimo de segundo” (1926/1991, p. 150). Dediquei uma seção a este princípio, ao discutir alguns “princípios de psicologia geral numa abordagem histórico-cultural” (Delari Jr. 2009b, p. 12-13).
[6] Detalhei essa discussão de Vigotski em um trabalho à parte, produzido como material didático para o nosso grupo de estudos em Umuarama (ver Delari Jr., 2009a).
[7] Segundo Rubens Rodrigues Torres Filho, tradutor brasileiro de obras de Schopenhauer, no sistema deste pensador: “a vontade é a raiz metafísica do mundo e da conduta humana; ao mesmo tempo, é a fonte de todos os sofrimentos. Sua filosofia é, assim, profundamente pessimista, pois a vontade é concebida em seu sistema como algo sem qualquer meta ou finalidade, um querer irracional e inconsciente. Sendo um mal inerente à existência do homem, ela gera a dor, necessária e inevitavelmente, aquilo que se conhece como felicidade seria apenas a interrupção temporária de um processo de infelicidade e somente a lembrança de um sofrimento passado criaria a ilusão de um bem presente. Para Schopenhauer, o prazer é momento fugaz de ausência de dor e não existe satisfação durável” (Torres Filho, 1980 – p. XII). Para quem já leu Freud, não haverá dificuldade em reconhecer semelhanças quanto a este modo trágico de retratar existência humana, em seu perpétuo “mal estar”
— ver também a nota “11”, na p. 10 deste trabalho.
[8] Provavelmente, Joseph François Chabrier (? – ?), autor de “Les émotions et les états organiques”, obra publicada em Paris, pela Alcan em 1911. Não sei dizer o que aconteceu a este estudioso, por qual motivo é tão pouco conhecido. Não se encontram registros biográficos sobre ele, nem mesmo títulos de outras obras suas. Este livro de 1911 encontra registro no site “Google books”, indicando que se trata de um volume de 157 páginas
— contudo não está disponível para venda ou consulta. As principais apreciações positivas de Vigotski com relação a este autor no capítulo 18 de “Teoria das emoções” foram compiladas num texto meu de cunho didático (Delari Jr., 2009a). Em alguns momentos não se sabe até que ponto as palavras são de Vigotski ou paráfrases de Chabrier.
[9] Em russo a palavra é “смысл” [smisl] que é mais comumente traduzida como “sentido”, entre os conceitos vigotskianos. Como no capítulo 7 de “Pensamento e linguagem”, em que Vigotski (1934/2001) diferencia “sentido” de “significado”
— respectivamente “смысл” [smisl] e “значение” [znatchenie].
[10] Isto não só é apontado por Vigotski, como tem sido reconhecido e até mesmo elogiado por estudiosos contemporâneos de Freud, como o professor Zeljko Loparic (ver Loparic, 2001).
[11] Nas palavras do próprio Freud, em “História do movimento psicanalítico”: “Otto Rank (1911a) nos mostrou um trecho da obra de Schopenhauer World as Will and Idea na qual o filósofo procura dar uma explicação da loucura. O que ele diz sobre a luta contra a aceitação da parte dolorosa da realidade coincide tão exatamente com o meu conceito de repressão que, mais uma vez, devo a chance de fazer uma descoberta ao fato de não ser uma pessoa muito lida” (FREUD, 1914/1978 – p. 45). De modo jocoso, o autor sugere que por ignorar o caráter social de suas próprias ideias, pode imaginar tê-las “descoberto”.
[12] Quanto ao caráter “não dinâmico” da psicanálise, Vigotski recua em “As emoções e seu desenvolvimento na idade infantil”, com a hipérbole de que “Freud mostra a extraordinária dinâmica da vida emocional” (Vigotski, 1932/1998, p. 96). Diz que ele a “mostra”, mas em seguida já acrescenta que “uma conclusão puramente formal de suas pesquisas é, a meu ver, correta, apesar da falsidade, em essência, da afirmação fundamental de Freud”. A ambivalência das emoções nas primeiras etapas de desenvolvimento é a constatação que Vigotski aceita “apesar do caráter equivocado da explicação que [Freud] fornece sobre a emoção ambivalente” (idem). Como no tema da relação “vida e morte” (ver página 19, deste trabalho), acolhe o problema concreto, mas rejeita a explicação metafísica
— falsa “em essência”. Já quanto ao “anti-histórico”, manterá sua posição — ver página 15, deste trabalho.
[13] Como dissemos noutro lugar (Delari Jr. e Bobrova Passos, 2009)
— não aderimos totalmente às periodizações correntes da obra de Vigotski. Cabe notar distinções qualitativas entre obras como “Psicologia da arte” (Vigotski, 1925/1999) e “Psicologia pedagógica” (Vigotski, 1924/2003; 1924/2004), ambas de um “mesmo período”. Mas é importante admitir que em 1925 Vigotski ainda não concebia a psicologia mediante a “teoria histórico-cultural”, cujos contornos mais nítidos teriam sido definidos só em 1928 (ver Valsiner e van der Veer, 1991/1996; Veresov, 1999). Pode-se até ver algo de reflexológico na “Psicologia da arte”, quando sentimentos proporcionados pela obra são vistos como “reações estéticas” e sua culminância catártica como “descarga de energia nervosa”. Contudo, Vigotski também busca o que diferencia as relações forma/conteúdo de cada obra e não apenas um mecanismo genérico que iguale a todas — o que critica no pansexualismo, infantilismo e interpretação energética dos psicanalistas.
[14] No final de sua vida, Freud sugerirá que a “pulsão de morte” não é da mesma natureza que a libido
— em algum momento, concebida como “sexual”. Neste período o próprio conceito de energia psíquica se torna mais abstrato e misterioso: “Presumimos (...) que na vida mental esteja em ação alguma espécie de energia, mas não temos nada em que nos basear que nos capacite a aproximarmo-nos de um conhecimento dela através de analogias com outras formas de energia” (Freud, 1938/1978, p. 212). Esta declaração é de 1938. Freud morreu em 1939. Não se pode dizer que fosse um “desvio metafísico da juventude”.
[15] Vários exemplos desse reducionismo poderiam ser dados, um dos mais notórios está em “O futuro de uma ilusão”, de 1927, no qual a religião é tratada não como realidade antropológica com suas especificidades simbólicas para cada sociedade em diferentes realidades geográficas e tempos históricos, mas tão somente como uma “neurose obsessiva universal da humanidade”. Nas palavras do próprio autor: “Assim, a religião seria a neurose obsessiva universal da humanidade; tal como a neurose obsessiva das crianças, ela surgiu do complexo de Édipo, do relacionamento com o pai” (FREUD, 1927/1978, p. 117). Freud já tinha 71 anos quando escreveu isso
— o que sugere não ser também nenhum “descuido juvenil”, embora o erro seja aqui mais grave que o da nota anterior.
[16] Mitólogos como Junito Brandão (1992) mostram que a leitura que Freud faz do Édipo é contestável. Pois Édipo, na lógica da tragédia, não mata o pai por desejo de estar (tampouco “permanecer”) com a mãe, mas para se tornar rei. A rainha é só um prêmio secundário que vem com o trono, posto que a cultura grega antiga dava muito pouco valor à mulher. Freud, por sua vez, tenta fazer do seu Édipo um princípio arcaico e válido para qualquer tempo histórico, sem considerar características culturais e políticas do povo que criou a obra literária. Tomou sua própria ideologia e a “projetou”, para usar seus próprios termos, sobre o passado distorcendo o caráter original do mito, lendo-o como convinha a seus interesses teóricos. Sua versão particular tornou-se tão difundida e de senso comum a ponto de posar hoje como algo “universal”, estruturante da personalidade de todo ser humano, em qualquer tempo e espaço.
[17] Ver nota “14”
— na página 14, deste trabalho.
[18] Um texto de 1925, bastante curioso, no qual os autores relatam que “uma nova e original tendência de psicanalistas está começando a se formar na Rússia, a qual, com ajuda da teoria dos reflexos condicionados, tenta sintetizar a psicologia freudiana e o marxismo e desenvolver um sistema de psicologia reflexológica freudiana no espírito do materialismo dialético.” (Vygotsky e Luria, 1925/1994, p. 11). Contudo, estas mesmas tentativas de fusão entre psicanálise e marxismo serão criticadas em 1927, como vimos, inclusive a do próprio Luria. Assim também a ideia vaga de que “Para além do princípio do prazer” tinha “enorme potencial para uma compreensão monista do mundo” (idem, p. 17), não foi suficiente para evitar que Vigotski em 1927 viesse a argumentar contra tal suposto “monismo”. Possivelmente, o prefácio de um livro por publicar-se na URSS bolchevique, que almejasse sucesso editorial, não poderia taxá-lo abertamente de “metafísico” ou “dualista”. Contudo, além da dúvida sobre as condições editoriais da produção do texto, fica também difícil saber de que modo interveio cada autor em sua redação, o que coube a cada um deles.
[19] Augusto Boal, em sua análise crítica da dramaturgia clássica grega, aponta para o caráter ideológico doutrinário desse processo de “purificação”... Pois as emoções a serem transformadas em uma “mais pura”, “superior”, eram justamente aquelas que contradiziam os padrões morais dominantes, próprios das castas aristocráticas da polis grega (ver BOAL, 1975/1988). O que não destoaria da avaliação de Bakhtin quanto aos chamados “gêneros sérios” como a lírica e a tragédia, porta-vozes de uma cosmovisão aristocrática, sisuda, que tende mais ao monológico que ao polifônico, cuja raiz está mais nos gêneros sério-cômicos próprios da cosmovisão carnavalesca de origem popular (Bakhtin 1929/1997). Algo para o que Vigotski não atenta. Outra distinção quanto às preferências literárias de Vigotski e Bakhtin, sobretudo quanto ao papel do cômico e da caricatura, pode ser ventilada, mas não é o momento.
[20] Pude contar 40 nomes, além de Freud, cujas contribuições são citadas: Aristóteles; Avenarius; Christiansen; Darwin; Dessoir; Diderot; Fischer; Goethe; Gross; Hamann; Hennequin; Herder; Iakubinski; James; Kornílov; Kulikóvski; Leman; Lessing; Lipps; Maier; Meinong; Meumann; Müller; Müller-Freienfels; Münstenberg; Orchanski; Ovsiániko-Kulikovski; Pietrajitski; Platão; Potiebniá; Ribot; Shiller; Sócrates; Spencer; Titchener; Viessielovski; Witasek; Wundt; Zeller; e Zienkovski. Num capítulo de 24 páginas, o nome de Freud aparece apenas nas páginas 251, 252 e 256. Caberia estudar a especificidade destas “outras vozes”, resgatando a pluralidade de contribuições sobre “catarse” neste capítulo, que se apaga pelo destaque desproporcional a Freud.
[21] Para Andrei Puzirei, esta busca diz respeito às “finalidades e os valores fundamentais presentes em todo o pensamento de Vigotski” (PUZIREI, 1989, p. 16 – grifos na fonte). Entende-se que há na sua obra uma forte “orientação ao ‘supremo’ no homem ou, para dizê-lo com palavras de Dostoiévski, ao ‘homem no homem’, à sua organização psíquica e espiritual, desde o ponto de vista do que pode ser, em geral, o homem e dos caminhos que existem para este estado possível, dos caminhos que abre, em particular, a arte e a psicologia da arte.” (idem). Evidentemente, Vigotski jamais poderia definir tudo que compõe o sentimento de ler Shakespeare, Dostoiévski, Bunin, num genérico e mudo conceito de “descarga de energia nervosa”, nem teria sido esse o objetivo principal de sua “Psicologia da arte”.
[22] Como se pode ver no capítulo 18 de “Teoria das emoções”, “psicologia profunda” é um termo usado por Vigotski para se referir à psicanálise freudiana (ver Vygotski, 1931-33/2004, p. 215).
[23] Veja-se a questão do infantilismo, já discutida na parte II
— na página 9 deste trabalho. E também a nota 15, na página 8, sobre o tratamento dado por esse autor ao tema da religião.
= = =
Referências
 
ARISTÓTELES (1979) “Poética”. In:______. Aristóteles. (Os Pensadores) São Paulo: Abril Cultural.
BAKHTIN, M. M. (1929/1997) Problemas da poética de Dostoiévski. 3. ed. revista. Rio de Janeiro: Forense Universitária.
BOAL, A. (1975/1988) Teatro do oprimido: e outras poéticas políticas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
BRANDÃO, J. (1992) Teatro grego: origem e evolução. São Paulo: Ars Poética.
BRUNER, J. S. (2005) Concepções da infância: Freud, Piaget, Vigotski. Trad.: Achilles Delari Junior. Piracicaba-SP.
CHASIN, J. (1999) “Ad hominem: rota e prospectiva de um projeto marxista”. In: Ensaios Ad Hominem. N. 1. Tomo I – Marxismo. São Paulo: Estudos e Edições Ad Hominem.
DELARI JR., A. (2001) “O problema da subjetivação numa abordagem histórico-cultural: anotações iniciais para um trabalho de revisão crítica. Piracicaba-SP
______. (2009a) “Discípulos involuntários de Descartes: críticas de Vigotski a teorias dualistas das emoções”. Mimeo. Umuarama-PR. 7 p.
______. (2009b) “Vigotski e a prática do psicólogo: em percurso da psicologia geral à aplicada”. Umuarama-PR. 40 p.
DELARI JR., A.; BOBROVA PASSOS, Iu. V. (2009) “Alguns sentidos da palavra ‘perejivanie’ em L. S. Vigotski: notas para estudo futuro junto à psicologia russa”. Umuarama-PR. 40 p.
FREUD, S. (1914/1978) “A história do movimento psicanalítico”. In: ______. Freud. (Os Pensadores). São Paulo: Abril Cultural.
______. (1927/1978) “O futuro de uma ilusão”. In:______. Freud. (Os Pensadores). São Paulo: Abril Cultural.
______. (1938/1978) “Esboço de psicanálise”. In:______. Freud. (Os Pensadores). São Paulo: Abril Cultural.
KOZULIN, A. (1990) Vygotsky’s psychology: a biography of ideas. Cambridge: Harvard University Press.
LOPARIC, Z. (2001) “Theodor Lipps: uma fonte esquecida do paradigma freudiano”. In: Natureza Humana 3 (2): 315-331, jul.- dez. 2001.
LUCIANO (1998) Diálogo dos mortos. Brasília: Editora Universi- dade de Brasília.
LURIA, A. R. (1925/2002) “Psychoanalysis as a system of monistic psychology”. In: Journal of Russian and East European Psychology, vol. 40, no. 1, January-February, 2002, pp. 26–53.
PUZIREI, A. A. (1989) “Prefacio”. In: LEONTIEV, A. N.; LURIA, A. R.; VIGOTSKI, L. S. El proceso de formación de la psicología marxista. Moscú: Editorial Progreso.
RUBINSHTEIN, S. L. (1940/1967) Principios de psicología general. México: Grijalbo.
TORRES FILHO, R. R. (1980) “Schopenhauer: vida e obra”. In: SCHOPENHAUER, A. Schopenhauer. (Os Pensadores) São Paulo: Abril Cultural.
VALSINER, J.; VAN DER VEER, R. (1991/1996) Vygotsky: uma síntese. São Paulo: Loyola: Unimarco.
VERESOV, N. (1999) Undiscovered Vygotsky: etudes on the pre- history of cultural-historical psychology. Frankfurt am Main, Berlin, Bern, Bruxelles, New York, Wien: Peter Lang.
VIGODSKAIA, G. L.; LIFANOVA, T. M. (1996) Lev Semionovitch Vigotski. Jizn, deiatel’nost’, shtrikhi k portretu. Moskva: Smisl.
VIGOTSKI, L. S. (1924/2003) Psicologia pedagógica. Porto Alegre: Artmed.
______. (1924/2004) Psicologia pedagógica. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes.
______. (1925/1999) Psicologia da arte. São Paulo: Mar- tins Fontes.
______. (1932/1998) “As emoções e seu desenvolvimento na infância”. In:______. O desenvolvimento psicológico na infância. São Paulo: Martins Fontes.
______. (1934/2001) A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes.
______. (2017) Zapisnie knijki L. S. Vigotskogo. Izbrannoe. Pod. obsh. red. Ekaterina Zavershnevoi i Rene van der Veera. Moskva: Kanon.
______. (1926/1991) “Prólogo a la versión rusa del libro de E. Thorndike ‘Principios enseñanza basados a la psicología’”. In:______. Obras escogidas. Tomo I. Madrid: Visor y Ministerio de Educación y Ciencia.
______. (1927/1991) “El significado historico de la crisis de la psicología: una investigación metodológica”. In:______. Obras escogidas - Tomo I. Madrid: Visor y Minis- terio de Educación y Ciencia.
______. (1930/1991) “La psique, la conciencia, el inconsciente”. In:______. Obras escogidas - Tomo I. Madrid: Visor y Ministerio de Educación y Ciencia.
______. (1932*/1991) “El problema de la conciencia”. In:______. Obras escogidas - Tomo I. Madrid: Visor y Ministerio de Educación y Ciencia. *A datação é imprecisa, em Vigodskaia e Lifanova (1996) aparece como em apresentação em dezembro de 1933, em Zavershneva e van der Veer (ver Vigotski, 2017) aparece como tendo sido em dezembro de 1932.
______. (1931-33/2004) Teoría de las emociones: estudio histórico-psicológico. Madrid: Akal Universitaria.
VYGOTSKY, L. S.; LURIA, A. R. (1925/1994) “Introduction to the Russian translation of ‘Freud's Beyond the pleasure principle’”. In: VYGOTSKY, L. S. (1994) The Vygotsky Reader. Edited by Rene van der Veer and Jaan Valsiner. Oxford; Cam- bridge: Blackwell.
WERTSCH, J. V. (1985) Vygotsky and the Social Formation of Mind. Cambridge, Massachusetts and London, England: Harvard University Press.
= = =
DELARI JR., A. “Críticas de Vigotski com relação a Freud: contra o ecletismo no estudo das emoções”. [2009]. In: Estação MIR, 2020.
= = =