Mostrando postagens com marcador Discrimination. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Discrimination. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Horkheimer, do antiautoritarismo ao filocolonialismo


por Domenico Losurdo

A incompreensão e a negação da questão colonial atingem o ápice numa corrente de pensamento à qual também devemos análises brilhantes e agudas dos problemas sociais, políticos e morais, próprios da sociedade capitalista. Refiro-me à Escola de Frankfurt. Ao publicar O Estado autoritário, em 1942, Horkheimer faz um balanço do capítulo de história iniciado com a Revolução de Outubro. O juízo de condenação é claro e sem meios-termos: na Rússia afirmou-se não o socialismo, mas o “capitalismo de Estado”. Claro, cabe reconhecer que “este fortalece a produção” de maneira extraordinária e isso é de grande vantagem para “os territórios atrasados da terra”, que em pouco tempo podem superar o atraso em relação aos países mais avançados[1]. Ao menos isso poderia ser considerado um resultado positivo? Na realidade, é certo que a Rússia governada com punho de ferro pelos bolcheviques obteve enorme sucesso no desenvolvimento industrial e econômico, a ponto de se tornar um modelo, mas quem se sensibiliza com isso?

Ao invés de se transformar numa democracia participativa e de conselhos, o grupo [o Partido Comunista] pode fixar-se como autoridade. Trabalho, disciplina e ordem podem salvar a república e liquidar a revolução. Apesar de ter afirmado que a supressão dos Estados fazia parte de seu programa, aquele partido transformou sua pátria industrialmente atrasada no modelo secreto daquelas potências industriais que sofriam com seu parlamentarismo e já não podiam viver sem o fascismo.[2]

Enquanto essas linhas eram escritas, o Exército nazista, tendo dominado boa parte da Europa, está às portas de Moscou e Leningrado, cujos habitantes estão ameaçados de morte por uma assustadora máquina de guerra ou por um assédio impiedoso e pela fome por ele infligida. Em tais circunstâncias, que sentido tem invocar a “democracia participativa e de conselhos” e até mesmo o ideal ou a utopia da extinção do Estado? É o momento em que aparece estar ao alcance das mãos a realização do projeto de Hitler, destinado explicitamente a escravizar os povos da Europa oriental de modo a edificar ali um grande império colonial de dimensão continental.

Se, apesar de submetida à colossal pressão exercida por um aparato militar gigantesco e de experimentada eficiência e brutalidade, a União Soviética consegue resistir, é graças ao desenvolvimento industrial a toque de caixa evidenciado pelo próprio Horkheimer. Porém, ele não dá nenhuma importância a tudo isso, considera irrelevante o fato de que o que está em jogo é o conflito entre colonialismo e escravismo, de um lado, e anticolonialismo e antiescravismo do outro. Aos olhos do prestigiado expoente da “teoria crítica”, é justamente o país nascido da Revolução de Outubro – e prestes a ser escravizado (depois que sua população foi dizimada) – que merece um juízo mais severo:

A espécie mais coerente de Estado autoritário que se libertou de toda dependência do capital privado é o estatismo integral ou socialismo de Estado [...]. No estatismo integral é decretada a socialização. Os capitalistas privados são abolidos [...]. O estatismo integral não significa uma diminuição, mas, ao contrário, uma potencialização das energias, pode viver sem ódio racial.[3]

E mais uma vez nos deparamos com a falta de criticidade da teoria crítica: parece irrelevante a diferença entre um país empenhado em impor um Estado racial, decidido a dizimar e a escravizar as “raças inferiores”, bem como a exterminar os grupos políticos e étnicos (bolcheviques e judeus) rotulados como instigadores da revolta das “raças inferiores”, e um país que sabe estar entre as vítimas predestinadas de tal Estado racial e do qual se defende desesperadamente.

Mesmo com o olhar voltado para o passado e para o plano da filosofia da história em geral, Horkheimer presta pouca ou nenhuma atenção à questão colonial (e racial): “A Revolução Francesa era tendencialmente totalitária”[4]. Assim, torna-se alvo a revolução que, no início da era contemporânea, em São Domingos, estimulava a grande sublevação dos escravos negros e, em Paris, forçava a Convenção jacobina a decretar a abolição da escravidão nas colônias. Imunes às suspeitas de totalitarismo ou autoritarismo restam as duas revoluções inglesas do século XVI e a revolução americana do século XVIII, que impulsionavam a instituição da escravidão e que, no caso da República norte-americana, comportavam a primeira aparição do Estado racial (não por acaso, nas suas primeiras décadas de vida, presidido quase sempre por proprietários de escravos).

A condenação da Revolução Francesa não conhece limites. “O ‘sans-cullote Jesus’ anuncia o Cristo nórdico”[5]. A figura evocada pelas correntes mais radicais da Revolução Francesa, com a finalidade de derrubar de uma vez por todas a barreira quase naturalista que no Antigo Regime separava as classe populares das elites, é equiparada à figura elaborada pela cultura reacionária que desemboca no nazismo e está empenhada em restabelecer a barreira natural entre povos e “raças”, a barreira que fora varrida pela épica rebelião dos jacobinos negros de São Domingos/Haiti e pela abolição da escravidão negra em Paris, sancionada por Robespierre.

Uma vez liquidadas a Revolução Francesa e a Revolução de Outubro, só resta se curvar ao liberalismo miticamente transfigurado e, portanto, identificado com a afirmação e a defesa da “autonomia do indivíduo”[6]. É uma transfiguração que envolve também a figura de Locke, lido como o defensor do princípio segundo o qual todos os homens seriam “livres, iguais e independentes”[7]. E, novamente, como por encanto, desaparecem a escravidão e a defesa da escravidão negra graças a um filósofo que é beneficiário de tal instituição no plano material, por ser acionista da Royal African Company, ou seja, da sociedade que gerenciava o tráfico de gado humano.

Dados esses pressupostos, não surpreendem a desatenção , a desconfiança ou a hostilidade com que Horkheimer observa a revolução anticolonial mundial em curso na sua época. Ele lê a história de seu tempo como o conflito entre “Estados civis” e “Estados totalitários”. Isso vale também para os anos da Guerra Fria: “Devo dizer que se os Estados civis também não gastassem somas enormes com armamentos, há muito já estaríamos sob o domínio dessas potências totalitárias. Se criticamos, temos também de saber que os criticados eventualmente não podem se comportar de outra maneira”[8]. Estamos em 1970: a guerra do Vietnã torna-se mais violenta que nunca, e o seu caráter colonial e as práticas genocidas nela utilizadas são públicos. Entretanto, o maior expoente da teoria crítica não tem dúvidas: o Ocidente “civil’ precisa se defender dos bárbaros do Oriente!

Nem a luta dos afro-americanos contra o persistente regime da white supremacy no Sul dos Estados Unidos põe em xeque as certezas de Horkheimer. Sem dúvida, ele alude à “atual situação difícil das race relations do outro lado do Atlântico”, mas acentua o “terrorismo dos ativistas negros em relação aos outros negros [...], que é muito mais forte do que se pensa”; “o negro médio tem mais medo dos negros”[9] do que dos brancos. No conjunto, a revolução anticolonialista mundial é, para dizer o mínimo, inútil: “a questão dos negros americanos” poderia ser rapidamente resolvida “se não existissem os contrastes entre o Oriente e o Ocidente” e os conflitos com “as partes atrasadas do mundo”[10]. As discriminações contra as quais os afro-americanos combatiam eram atribuídas à Guerra Fria e à própria revolução anticolonial, como se percebe pela referência crítica ao “terrorismo dos ativistas negros” nos Estados Unidos e ao papel do Terceiro Mundo.

Na verdade, aconteceu exatamente o contrário. Em dezembro de 1952, a Suprema Corte dos Estados Unidos declarou inconstitucional a segregação racial nas escolas públicas, somente depois de ter sido alertada pelo Ministro da Justiça: uma sentença diferente teria radicalizado as “raças de cor” e favorecido o movimento comunista no Terceiro Mundo, bem como nos Estados Unidos[11]. A passagem da desconfiança à hostilidade é rápida:

Nossa teoria crítica mais recente não lutou mais pela revolução porque, após a queda do nazismo nos países do Ocidente, a revolução conduziria a um novo terrorismo, a uma situação terrível. Trata-se, ao contrário, de preservar aquilo que tem um valor positivo, por exemplo, a autonomia, a importância do indivíduo, sua psicologia diferenciada, certos momentos da cultura, sem interromper o progresso.[12]

Essa declaração não parece distinguir Ocidente e Terceiro Mundo, de modo que também a revolução anticolonial então em curso no Vietnã (ou, alguns anos antes, aquela que obteve a vitória na Argélia) são comparadas ou equiparadas a um “novo terrorismo”.

De caráter mais geral é esta outra declaração:
 
A teoria crítica tem a função de expressar aquilo que, em geral, não é expresso. Deve, portanto, ressaltar os custos do progresso, o perigo de que, a partir dele, acabe por desaparecer até mesmo a ideia do sujeito autônomo, a ideia de alma, pois ela parece irrelevante em relação ao universo [...]. Agora queremos que o mundo seja unificado, queremos que o Terceiro Mundo não sofra mais com a fome, ou que não seja mais forçado a viver no limite da fome. Mas, para alcançarmos esse objetivo, teremos de pagar o preço de uma sociedade que se configura exatamente como um mundo administrado [...]. Aquilo que Marx imaginou ser o socialismo, na realidade, é o mundo administrado.[13]
 
Juntamente com o socialismo e com a revolução anticolonial propriamente dita, aqui se condena também o desenvolvimento econômico dos povos que se libertaram ou estão prestes a se libertar do jugo colonial. Somos colocados diante de uma alternativa terrível: conformar-se com a miséria de massa dominante fora do Ocidente ou mergulhar no horror do mundo administrado. E, ao menos para a teoria crítica, a segunda opção é bem pior que a primeira.

= = =
Notas:
[1] Max Horkheimer, “Lo Stato autoritario” [1942], em La società di transizione (org. Werner Brede, Turim, Einaudi, 1979), p. 4, 11 e 22.
[2] Ibidem, p. 8.
[3] Ibidem, p. 11.
[4] Ibidem, p. 9.
[5] Ibidem, p. 10.
[6] Max Horkheimer, “La teoria critica ieri e oggi” [1970], em La società di transizione, cit, p. 175.
[7] Idem, Iclissi della ragione. Critica della ragione strumentale [1967] (trad. E. Vaccari Spaganol, Turim, Einaudi, 1969), p. 30.
[8] Idem, “La teoria critica ieri e oggi” [1970], em La società di transizione, cit, p. 172.
[9] Ibidem, p. 138 e 178.
[10] Ibidem, p. 159.
[11] Ver, neste volume, cap. 6, § 2.
[12] Max Horkheimer, “Lo Stato autoritario”,cit., p. 168-9.
[13] Ibidem, p. 174-5.
= = =
LOSURDO, D. O marxismo ocidental: como nasceu, como morreu, como pode renascer. Tradução de Ana Maria Chiarini e Diego Silveira Coelho Ferreira. São Paulo: Boitempo, 2018, p. 89-93.
= = =

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Não há mais como negar o apartheid israelense



A Anistia Internacional, uma das maiores ONGs de direitos humanos do mundo, publicou no último dia 1º de fevereiro o relatório “O apartheid israelense contra a população palestina”.

O documento de 280 páginas analisa em detalhes o cruel sistema de opressão e dominação imposto pelo governo israelense contra a população árabe palestina, em benefício da população judaica da região.

Segundo o relatório, os principais componentes deste crime contra a humanidade são: a fragmentação territorial, segregação e controle, desapropriação de terras e propriedades e a negação de direitos econômicos e sociais.

Tudo isso feito sistematicamente, sob controle do Estado.

Para a Anistia Internacional, e para esta Federação Árabe Palestina do Brasil e todo o movimento global pela libertação da Palestina, está na hora de Israel desmantelar este sistema!

Está na hora de a comunidade internacional pressionar Israel pelo fim do apartheid!

Pilha de provas e denúncias

O relatório da Anistia Internacional soma-se a uma extensa lista de publicações, convenções e resoluções feitas nas últimas décadas sobre os crimes de apartheid e limpeza étnica cometidos por Israel.

“O relatório coroa o acúmulo de provas sobre o apartheid, comprovado e denunciado já há décadas por inúmeras organizações, estudos independentes de observadores internacionais e até mesmo entidades e intelectuais israelenses”, avalia o presidente da FEPAL, Ualid Rabah.

“Mesmo que não seja uma novidade, é de extrema relevância para a opinião pública em geral e para a comunidade internacional ver agora este pronunciamento oficial por parte da maior organização civil de direitos humanos do mundo”, completa.

Em julho do ano passado, a ONG Human Rights Watch, outra gigante global na defesa dos direitos humanos, denunciou os crimes de Israel num relatório de 213 páginas chamado “Um limite ultrapassado: autoridades israelenses e os crimes de apartheid e perseguição”.

Em 2020, a ONG israelense B’Tselem foi outra a admitir, após resistir por anos a esta classificação, que há “Um regime de supremacia judaica do Rio Jordão ao Mediterrâneo: o apartheid” em todo o território da Palestina histórica.

O texto original traduzido foi publicado neste site da FEPAL (leia).

Este são apenas exemplos recentes. Em 2004, a Corte Internacional de Justiça de Haia, na Holanda, declarou que o muro construído por Israel na Cisjordânia viola as leis internacionais e promove o apartheid, exortando a ONU a tomar medidas para interromper a construção.

A barreira de 760 km, que em alguns pontos chega a 8 metros de altura, está em constante expansão e é mundialmente conhecido como o “muro do apartheid”.

Richard Falk, professor emérito de direito internacional na Universidade de Princeton e ex-relator especial da ONU sobre a situação dos territórios palestinos ocupados, também classificou como apartheid, em 2014, a opressão sistemática do povo palestino por Israel.

Durante seis anos ele coordenou um relatório independente sobre o tema para o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, que posteriormente seria descartado pelo órgão por pressão de Israel e seus aliados.

Ainda antes, em 2008, Falk, um judeu estadunidense, comparou as ações das forças israelenses na Faixa de Gaza à dos nazistas na Europa durante a Segunda Guerra.

Até mesmo um escritor brasileiro, também judeu, já denunciara este crime.

No seu livro-reportagem “O apartheid de Israel” (Editora Alfa Omega, 2001), Nathaniel Braia remonta a violenta história da ocupação colonial da Palestina e da expulsão de sua população autóctone da região, reconhecida até mesmo pelos tribunais locais e cofinanciada pela maior potência militar e econômica do mundo, os EUA.

Braia, que hoje é redator para questões internacionais no jornal Hora do Povo, viveu em Israel e militou em grupos antissionistas. Ele foi preso seis vezes, todas por se recusar a servir ao exército israelense.
 
A reação previsível de Israel

Antes mesmo de o relatório ser publicado, Israel já havia o classificado como antissemita, numa estratégia cada vez mais batida de tentar desviar o foco das acusações.

Em comunicado à imprensa, o chefe da diplomacia israelense, Yair Lapid, pediu que a AI não publicasse o relatório, acusando a ONG de “não ser uma organização de direitos humanos, mas uma organização radical”.

De Jerusalém, a secretária-geral da ONG, Agnès Callamard, respondeu as acusações, mantendo a publicação do relatório.

“O relatório é resultado de quatro anos de trabalho, pesquisa e comprometimento com a base do movimento Anistia. Temos 70 seções no mundo representando 10 milhões de pessoas que apoiam este relatório e estão prontas para sua publicação”, afirmou.

Para o presidente da FEPAL, a banalização do “antissemitismo”, usado reiteradamente por Israel como um escudo para ocultar seus crimes, desmoraliza o termo e coloca em risco seu próprio significado.

“Esta alegação indiscriminada e indevida de ‘antissemitismo’ já soa quase como uma fake news quando é proferida pelas autoridades israelenses”, avalia Ualid.

“Essa banalização tem de ser combatida por todos, inclusive para preservar o seu valor simbólico, para que as pessoas de fé judaica jamais voltem a sofrer os crimes e perseguições que sofreram, e que hoje nós palestinos sofremos justamente nas mãos daqueles que instrumentalizam esse conceito”, conclui.

= = =
  • Baixe aqui o relatório completo: em espanhol | em inglês
  • E leia no site da Anistia Internacional (em espanhol) o excelente texto de lançamento da campanha contra o apartheid israelense
  • Assista o vídeo oficial de lançamento da campanha da Anistia Internacional, legendado e publicado pela FEPAL em suas redes
= = =

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Racismo sistêmico nos EUA e em Israel: analogias e diferenças


por Nahla Abdo
The Bullet

A analogia mais relevante entre os Estados Unidos e Israel reside na razão principal para a força do seu estabelecimento como estados coloniais. O imperialismo, que é a força motriz do projeto de ocupação colonial, é inerentemente racista e racializante. Com o estabelecimento do Estado, o capital racializado torna-se estrutural e institucional; torna-se sistêmico. As diferenças entre os dois regimes também estão aí, com base no fato de que cada caso é historicamente específico.

Sem entrar em detalhes, é fundamental destacar que o próprio estabelecimento do estado colonizador, sejam os Estados Unidos, o Canadá ou Israel, para citar apenas alguns, exige a eliminação dos povos indígenas. No caso dos Estados Unidos e do Canadá, a ocupação colonial começou com a remoção dos povos indígenas (com histórias bastante distintas entre os dois com o longo período de dependência com a Europa das Primeiras Nações no Norte e Oeste no Canadá) – um processo que envolveu genocídio/destruição e conquista de terras indígenas por colonos europeus brancos.

Neste processo, as vastas áreas roubadas de seus proprietários indígenas necessitaram de grande quantidade de força de trabalho e mão-de-obra barata para operá-la. Aqui reside a escravidão dos povos africanos e seu uso como trabalho escravo. Pois, enquanto a eliminação e o genocídio possibilitaram o estabelecimento do estado colonial, a escravidão era necessária para gerar, reproduzir e garantir o crescimento do imperialismo dos EUA. Os EUA trouxeram africanos como escravos e os acorrentaram como bens móveis. No processo, muitos foram mortos e o restante vendido como cativos. Sua racialização continuou por centenas de anos até os dias de hoje.

Ocupação colonial

Racializar afro-americanos e outras etnias é um processo contínuo, independentemente das mudanças em seu status legal. As leis de Jim Crow e a 13ª Emenda (1864) à Constituição dos Estados Unidos, apesar da sua abolição legal, deu continuidade à racialização colonial entre nós até hoje. A escravidão dos povos negros foi transferida da esfera pública para a da prisão. O complexo industrial da prisão é superpovoado por negros e não-brancos. Em outras palavras, o Estado pode mudar ou abolir as leis, mas as ramificações e o espírito deste último permanecem. A natureza sistêmica da divisão de raças e da racialização provavelmente não desaparecerá com as mudanças no sistema judicial. Outras leis, embora encoberto por uma lógica obscura, por exemplo, a Lei dos Três Strikes (1994) foi adicionada recentemente. Este termo, derivado do beisebol americano, é fundamentalmente racista em sua determinação. A racialização penetra profundamente na mentalidade da supremacia branca do colonizador. O colonizador pode querer se ver e ser visto pelos outros como ‘democrático’, ‘livre’, etc... Ainda assim, ele ignora que sua criação racializada estará sempre lá enquanto ele existir, ou seja, o sistema colonial permanecerá vivo. Racialização capitalista e ocupação colonial, como Achille Mbembe, um defensor dos direitos palestinos, diz “é como um vírus, ele sofre mutação e se espalha“.

Eu argumento que o sionismo é um desses vírus com sua própria história e mutações particulares. É diferente dos projetos de ocupação colonial europeus brancos, não porque não seja de origem branca ou europeia, nem porque não seja colonizador. A ocupação colonial sionista é diferente porque usa uma ideologia particular, a saber, a conversão do judaísmo e da etnicidade judaica em um étnico-nacionalismo judeu comum no final do século XIX, como justificativa política e escudo para seu projeto colonial.

Ninguém pode negar as calamidades do Holocausto perpetradas pelo regime nazista na Alemanha ou da longa história do antissemitismo europeu. No entanto, isso de forma alguma deve levar ao uso do Holocausto como uma justificativa para eliminar e fazer desaparecer o povo palestino; isso não deve justificar o uso sionista da força bruta para expulsar à força cerca de 80% do povo palestino de suas casas, terras e espaço histórico e cultural. O projeto colonial sionista, desde o início, teve como objetivo apagar os palestinos originários e substituí-los por judeus de todo o mundo. Este projeto visa tornar o judaísmo semelhante ao sionismo e semelhante à ‘necessidade de um Estado judeu na Palestina’, (e as reivindicações até hoje de Israel como um Estado judaico étnico-nacionalista). Este último constituiu a base para a Declaração de Balfour de 1917, onde o governo colonial britânico deu ao movimento sionista o direito de estabelecer um lar judeu na Palestina. Esse projeto se desenvolveu e se transformou em um Estado que, desde 1948, queria se ver um Estado judeu. Desde o seu estabelecimento, Israel pretendia eliminar os palestinos originários e se transformar em um Estado judeu, um ato que pelo menos legalmente, foi realizado recentemente com a decretação da Lei do Estado-nação judeu.

O projeto sionista usou todos os passos acima em sua tentativa de igualar o sionismo ao judaísmo. Confundir sionismo com judaísmo tem ramificações de longo alcance. Contribui para a legitimação do sionismo e de Israel como um estado étnico-nacionalista e, por sua vez, criminaliza o antissionismo e silencia as críticas à ocupação colonial de Israel.

Como mencionado anteriormente, o espírito das leis Jim Crow nos Estados Unidos, com sua realidade invertida de “separado, mas igual”, que significa separado e oprimido, não desapareceu com a abolição desta lei. Como Michelle Alexander nos lembra, ele permaneceu durante o ‘Complexo Industrial Prisional’, com acesso desigual ao voto e as desigualdades econômicas estruturais.

Israel implementou uma realidade invertida semelhante de políticas e práticas racializadas. Os pouquíssimos palestinos que permaneceram no país após a Nakba de 1948 foram colocados sob regime militar até 1966. Era proibido deixar sua vila ou cidade sem autorização do governador militar israelense. Esta população, referida pelos israelenses como o setor árabe, permanece principalmente excluída da economia dominante israelense. É uma população subdesenvolvida, subfinanciada, com altas taxas de pobreza, desemprego, más condições de saúde, acesso precário à educação e serviços sociais inadequados. Além disso, desde 1967, Israel emitiu 65 leis racistas discriminando cidadãos palestinos, e também palestinos nos Territórios Palestinos Ocupados. Desde então, centenas de milhares de palestinos foram detidos por motivos políticos. 

Encarceramento em massa

O encarceramento em massa de não-brancos e colonizados é um ponto essencial de comparação entre os dois estados. Em ambos os casos, o próprio encarceramento é um ato político a serviço da segurança do Estado. Precisamos lembrar que ambos os Estados aqui são Estados policiais e militarizados. Ambos podem invadir, bombardear países e matar pessoas, simplesmente porque podem, enquanto o mundo assiste. Embora externamente ambos os Estados tenham se tornado párias, internamente esses estados usaram sua polícia e militares contra populações racializadas e colonizadas.

Nos Estados Unidos, a privatização das prisões transformou o cárcere em uma fonte valiosa de mais-valia e lucro. A população encarcerada em massa, desproporcionalmente negra e não-branca, tem sido usada como trabalho prisional, reproduzindo e aumentando a acumulação de capital nos EUA. O encarceramento nas prisões do Canadá também é desproporcionalmente composto de indígenas e negros, embora o trabalho na prisão não seja tão extenso quanto nos Estados Unidos. Por outro lado, em Israel, o encarceramento é mais político do que econômico, servindo para eliminação/desaparecimento, um objetivo particular da ocupação colonial de Israel. Prisioneiros políticos palestinos são sequestrados dos Territórios ocupados e trazidos pelos militares israelenses para as prisões israelenses como mais um meio de opressão, controle e eliminação.

A desigualdade racial na morte de palestinos; a discrepância na pobreza; seu acesso a serviços sociais, educação e saúde em toda a Palestina-Israel são comparáveis, senão análogos, a disparidades características da divisão racial nos Estados Unidos e até mesmo nos regimes coloniais canadenses. Ainda assim, essa disparidade racial é sistêmica aos sistemas coloniais desses países.

O apartheid na África do Sul pode ter sido historicamente específico. Ainda assim, seu principal motor e contexto estrutural, ou seja, o regime colonial das metrópoles, reproduzem o apartheid de diferentes formas onde quer que esteja seu controle. O chamado sistema “separado e igual” nos Estados Unidos tinha sua própria forma de apartheid, em que os negros eram excluídos econômico, política, social e legalmente da América branca dominante, embora nunca formalizada em regime político geral como na África do Sul. O apartheid de Israel é uma outra forma de exclusão e opressão. No caso israelense, os princípios do apartheid não surgiram com o ‘Muro da Separação’, nem com a ocupação dos territórios palestinos em 1967. O apartheid, como mencionado anteriormente, começou com o próprio estabelecimento do estado colonial e se tornou mais pronunciado após 1967. A maioria de nós está consciente da extensão do estrangulamento dos palestinos nos territórios ocupados, especialmente na Faixa de Gaza sitiada por ar, terra e mar. Essa situação levou os especialistas em apartheid, notadamente Nelson Mandela e o arcebispo Desmond Tutu, a declarar o apartheid israelense como um tipo muito pior do que o da África do Sul. Pois, enquanto o apartheid da África do Sul seguia a lógica da inclusão e exploração, Israel, que sempre buscou o desaparecimento dos palestinos, utilizou a lógica da exclusão e opressão e empregou a lógica da inclusão/exploração apenas quando necessário. Um exemplo aqui são os movimentos consistentes de imigração/assentamento de Israel desde seu estabelecimento e as ondas constantes de colonos judeus (e não judeus) recrutados para ocupar a Palestina.

Desde o início do Estado israelense, os colonos judeus europeus brancos perceberam que não poderiam formar a nação, construir o exército, a economia e trabalhar a terra por conta própria. Eles também perceberam que não poderiam eliminar os palestinos sem substituí-los por imigrantes para colonizar a terra e fornecer força de trabalho barata. Consequentemente, as políticas de Israel nas décadas de 1950 e 1960 importaram centenas de milhares de judeus árabes-Mizrahi. Em Mulheres em Israel: raça, gênero e cidadania, destaco o tratamento duro e racista dispensado a essa comunidade e descrevo as terríveis condições de vida que enfrentaram nas primeiras décadas.

Uma análise mais abrangente do racismo israelense e da racialização de judeus afro-árabes/mizrahi, embora necessária, infelizmente não está dentro do escopo deste artigo. Judeus Mizrahi, é importante notar, embora constituíssem mais de 60 por cento da população israelense até o final dos anos 1980 e início de 1990, quando o estado importou cerca de um milhão de “judeus russos”. Basta dizer aqui que o sionismo empregou o racismo e a racialização contra a população judaica que afirmava proteger. O sionismo, em outras palavras, não era diferente de outras colonizações perpetradas por europeus brancos.

O sionismo e o Estado israelense estão sendo expostos hoje por sua natureza fundamentalmente racista e racializante. A crítica ao sionismo tornou-se muito clara com o surgimento de movimentos antissionistas e grupos como a “Voz Judaica dos EUA pela Paz” e a organização irmã canadense, “Vozes Judaicas Independentes”, o “Rally Contra o Racismo global”, “Not in My Name” e aí por diante. A solidariedade global com Black Lives Matter também está atualmente dando crédito à solidariedade palestina.

Palestinos na Palestina histórica (ocupados em 1948 e 1967), para enfatizar, foram colonizados, racializados e oprimidos. Eles vivem sob o domínio colonial israelense. Além disso, a desigualdade racial característica da sociedade israelense caracteriza as condições de vida dos judeus não-brancos. Portanto, não é surpresa que nem todos os judeus da diáspora (brancos) apoiem o sionismo, e assim aprofundando cada vez mais as fraturas do apoio ao estado israelense e suas políticas de colonização e separação.

Solidariedade global contra o racismo

Se é verdade que a ocupação colonial, a opressão, a racialização e o racismo são historicamente específicos, existem também traços universais que caracterizam o capitalismo racializado e o colonialismo das metrópoles. A especificidade histórica não significa singularidade; não deve obscurecer o potencial, a agência e a luta das pessoas. Estruturas de opressão, incluindo os poderes exploradores e opressores do Estado e do capital, trabalham em conjunto. Seu desmantelamento é possível e bem-sucedido quando combatido globalmente, e não apenas individualmente e localmente.

O sucesso da luta palestina pela igualdade e autodeterminação contra a ocupação dos colonos israelenses e contra o estado policial militar é possível quando travada como parte da luta global contra o racismo, a opressão e a ocupação colonial. A solidariedade entre os afro-americanos, na forma da Luta de Libertação Negra nos Estados Unidos (especificamente os Panteras Negras), e o movimento de libertação palestino nas décadas de 1960 e 1970, estão reverberando novamente hoje no levante global contra o racismo. É evidente na colaboração entre o Black Lives Matter, a solidariedade global com a campanha de ‘Boicote, Desinvestimento, Sanções’ (BDS) e seu reforço de alto escalão da África do Sul a Moçambique e ao Quênia, e também muitos movimentos sindicais e sociais no Canadá, para mencionar apenas alguns. O movimento histórico atual expresso na solidariedade global com Black Lives Matter representa uma chamada global real de resistência às forças globais de opressão existentes. Nós, palestinos, juntamos nossas vozes às dos povos indígenas e negros ao exigir justiça em todo mundo.

No Estado colonial militarizado de Israel, cada palestino vivo nos Territórios Palestinos Ocupados é um George Floyd em potencial. Como a morte de George Floyd despertou o mundo, esse despertar também deve ser expandido para incluir a necessidade de respirar dos palestinos.

= = =
[0] Traduzido por João Pedro Noronha Ritter, LavraPalavra.
= = =

sábado, 18 de julho de 2020

O sionismo e a tragédia do povo palestino


por Domenico Losurdo

Os “escravos enfurecidos” e o sermão da “complexidade”

Em Durban, por ocasião da Conferência internacional sobre racismo promovida pela ONU, três mil organizações não governamentais provenientes de todo o mundo condenaram com palavras candentes Israel por causa da opressão nacional e da discriminação infligidas aos palestinos, da ferocidade de uma repressão militar que não se detém nem mesmo diante de “atos de genocídio”. Mais timidamente agiram as delegações oficiais. A perseverante cumplicidade da União Europeia para com Israel privou o documento final de muito de sua força. E, contudo, talvez pela primeira vez na história, o Ocidente capitalista e imperialista foi obrigado de modo tão solene a sentar-se no banco dos acusados, foi posto com força diante de algumas páginas de sua história, constantemente recalcadas, que vão do tráfico dos escravos negros ao martírio do povo palestino. A fuga indecorosa das delegações norte-americana e israelense selou o ulterior isolamento daqueles que hoje são os responsáveis de crimes horríveis contra a humanidade e os piores inimigos dos direitos do homem. Trata-se de um resultado de importância extraordinária. E, contudo, até mesmo à esquerda não faltaram aqueles que torceram o nariz. Dando-se ares professorais em relação aos palestinos, convidaram-nos a moderar o tom: sim, a crítica a Israel pode ser justa, mas por que trazer à discussão o sionismo e por que acusá-lo até de racismo? Em seu tempo Fichte, troçando da leviandade de certos discursos relativos aos “excessos” da Revolução francesa, exprimiu o seu desprezo por aqueles que, estando em segurança e continuando a gozar de todas as comodidades da vida, pretendem pregar a moral aos “escravos enfurecidos” e decididos a tirar dos ombros a opressão. Não contentes com a lição de moral, os atuais professores do povo palestino pretendem também dar uma lição de epistemologia: pôr em acusação o sionismo enquanto tal – eles sentenciam – significa perder de vista a “complexidade” deste movimento político, caracterizado pela presença no seu interior de correntes muito diversas entre si, de direita, de esquerda e até mesmo de uma esquerda de orientação socialista e revolucionária. Na realidade, a se seguir de maneira coerente a metodologia aqui sugerida, não é somente com relação ao sionismo que seremos obrigados a calar. Em 1915, a intervenção da Itália no primeiro conflito mundial foi por alguns círculos reivindicada com palavras de ordem explicitamente expansionistas e imperialistas, por outros como uma contribuição à causa do triunfo da democracia e da paz a nível mundial. Mas, pelo menos para os comunistas, não deveria haver dúvidas sobre o fato de que se tratava de uma guerra imperialista em todos os sentidos, não obstante as boas intenções e a sinceridade democrática e até mesmo revolucionária dos seguidores do “intervencionismo democrático”.

Sirvamo-nos de outro exemplo. Não há dúvida de que o colonialismo em certos casos assumiu um caráter explicitamente exterminador (que se pense em particular no nazismo, mas também, anteriormente, aos que fizeram os aborígenes australianos e outros grupos étnicos desaparecer da face da terra), ao passo que outras vezes deteve-se no limiar do genocídio. No fim do século XIX a expansão colonial do Ocidente na África desenvolveu-se agitando a palavra de ordem da libertação dos escravos negros, enquanto alguns decênios mais tarde Hitler promove a colonização da Europa oriental com o objetivo declarado de obter a massa de escravos de que necessita a “raça dos senhores” arianos. Se o Terceiro Reich, no curso de sua marcha expansionista, enaltece as virtudes purificadoras e regeneradoras da guerra, o colonialismo, em certos momentos de sua história (por ocasião da sanguinária expedição conjunta das grandes potências para a repressão da revolta dos Boxers na China), não hesitou em se autocelebrar por sua contribuição decisiva para a causa da paz perpétua[1].

Seria errado ignorar aqui a “complexidade” do fenômeno histórico em exame e suas diferenças internas, as quais, contudo, não nos podem impedir de pronunciar um juízo sobre o colonialismo enquanto tal: mesmo no caráter múltiplo e matizado das suas manifestações, o colonialismo é sinônimo de pilhagem e de exploração, e implicou em guerra, em agressão e na imposição em larga escala de formas de trabalho forçado em dano das populações coloniais, mesmo quando se declarou movido pelo intento humanitário de promover a realização da paz perpétua e a abolição da escravidão, e mesmo quando alguns expoentes políticos ou alguns ideólogos das grandes potências do Ocidente acreditaram sinceramente em tais boas intenções!

Sionismo e colonialismo

Não escolhi por acaso o exemplo do colonialismo. Uma pergunta logo se impõe: existe alguma relação entre sionismo e colonialismo? Não há dúvida de que o sionismo, mesmo na multiplicidade dos seus componentes, se caracteriza por uma palavra de ordem inequívoca: “uma terra sem povo para um povo sem terra”! Estamos em presença da ideologia clássica da tradição colonial, que sempre considerou res nullius, terra de ninguém, os territórios conquistados ou cobiçados e sempre teve a tendência a reduzir a uma grandeza insignificante as populações indígenas. Ademais da ideologia, o sionismo toma de empréstimo da tradição colonial as práticas de discriminação e opressão. Bem antes da fundação do Estado de Israel, já no curso da Segunda Guerra mundial, quando se estabelecem na Palestina os sionistas programam a deportação dos árabes. “Deve ficar claro que não há lugar para todos os dois povos neste país”; faz-se necessário “transferir os árabes para os países confinantes, transferi-los todos”: inequívoco é o programa enunciado no final de 1940 por um dirigente de primeiro plano do movimento sionista. Sobre isso chama a atenção Edward W. Said[2]; e se o iminente intelectual palestino devesse resultar suspeito, tenha-se presente que, em outubro de 1945, Hannah Arendt condena com veemência os planos – que, no entanto, depois do fim da Segunda Guerra mundial, se tornaram muito concretos – de “transferência dos árabes da Palestina para o Iraque”[3]. Aqui, com um gracioso eufemismo, fala-se de “transferência” ao invés de deportação. Mas, três anos depois, Arendt descreve de modo preciso a violência terrorista desencadeada contra a população árabe. Eis a sorte reservada a Deir Yassin: 

Esta aldeia isolada e circundada de território hebraico não tinha participado da guerra e havia até mesmo proibido o acesso a bandos árabes que queriam utilizar a aldeia como ponto de apoio. No dia 9 de abril [1948], segundo o New York Times, bandos terroristas [sionistas] atacam a aldeia, que no decorrer dos combates não representava nenhum objetivo militar, e matam a maioria da sua população – 240 homens, mulheres e crianças; deixam uns poucos com vida para fazê-los desfilar como prisioneiros em Jerusalém.

Não obstante a indignação da grande maioria da população judaica, “os terroristas se orgulham do massacre, tratam de lhe dar ampla publicidade convidando todos os correspondentes estrangeiros presentes no país para verem os montes de cadáveres e a devastação generalizada em Deir Yassin”[4]. Não há dúvida: nem todos os componentes e os membros individuais do movimento sionista se comportam dessa maneira, e seja como for a promover a fundação do Estado de Israel estão também sionistas com uma longa história de esquerda às costas; mas nenhum comunista, bem como nenhum democrata, pensaria em justificar o comportamento da social-democracia alemã, por ocasião do início e no curso da primeira guerra mundial, com o argumento das grandes lutas populares conduzidas por esse partido no passado e do prestígio internacional por esse modo acumulado. De resto, olhemos mais de perto a esquerda sionista, fiando-nos ainda na análise e no testemunho de Arendt. Também ela faz referência ao “movimento nacional judaico social-revolucionário”, e eis como o caracteriza: trata-se de círculos certamente empenhados no prosseguimento de experiências coletivistas e de uma “rigorosa realização da justiça social no interior de seu pequeno círculo”, mas, quanto ao resto, prontos a apoiar os objetivos “chauvinistas”. No conjunto estamos em presença de um “conglomerado absolutamente paradoxal de tentativas radicais e reformas sociais revolucionárias em política interna, e de métodos antiquados e totalmente reacionários em política externa, ou seja, no campo das relações entre judeus e outros povos e nações”[5]. No decorrer de sua história, o movimento comunista sempre se recusou a considerar de esquerda esse “conglomerado”, taxando-o sempre com o nome de social-chauvinismo. Tão pouco de esquerda é esse entrelaçamento de expansionismo (em dano dos povos coloniais) e de espírito comunitário (chamado para cimentar o povo dominante empenhado numa difícil experiência de guerra), que uma grande personalidade judaica chega a ver nele até mesmo um dos motivos de semelhança entre sionismo e nazismo[6].

Sionismo e racismo

Chegamos, assim, ao ponto crucial. Aos hipócritas que se escandalizam com as acusações de racismo dirigidas ao sionismo, pode-se contrapor o exemplo de laicismo e de coragem intelectual de Victor Klemperer, acima citado. Quando obrigado a se esconder para escapar à perseguição e à “solução final” que o Terceiro Reich reservou aos judeus, ele não hesita em falar, a propósito dos escritos e da ideologia de Herzl, de “extraordinário parentesco com o hitlerismo”, de “profunda comunhão com o hitlerismo”. Pode-se talvez chegar a uma conclusão ainda mais radical: “A doutrina da raça de Herzl é a fonte dos nazistas; são estes que copiam o sionismo, não vice-versa”. Na associação entre nazismo e sionismo temos todavia um “enfático norte-americanismo” ou seja, o mito de um Far West a ser colonizado, de um território virgem que o Terceiro Reich procura na Europa oriental e o sionismo na Palestina. Não é o próprio Herzl que remete de maneira explícita ao modelo do Far West? O único esclarecimento é que os sionistas pretendem proceder a uma “tomada de posse da terra” que não deixe nada à improvisação[7]. A conclusões não muito diversas daquelas de Klemperer, chega Hannah Arendt. De estímulo para a chacina de Deir Yassin houve uma mistura explosiva de “ultranacionalismo”, “misticismo religioso” e pretensão de “superioridade racial”. Assumindo “a linguagem dos nacionalistas mais radicais”, o sionismo configura-se de maneira explícita como “pan-semitismo”[8]; mas por que razão o pan-semitismo deveria ser melhor do que o pan-germanismo? Herzl está obcecado pela preocupação de manter firme a identidade cultural e étnica do judaísmo: não declara ele mesmo que o sionismo deverá procurar os seus “aliados” e os seus “amigos mais devotos” entre os antissemitas, eles mesmos desejosos de evitar contaminações entre povos diversos na sua alma e na sua essência ? A partir disso Arendt chega a uma conclusão radical: o sionismo “não é mais que a aceitação acrítica do nacionalismo de inspiração alemã”. Ele assimila as nações a “organismos biológicos super-humanos”; mas também para Herzl “não existiam mais do que agregados sempre iguais de pessoas, vistas como organismos biológicos misteriosamente dotados de vida eterna”[10]. E, novamente, remetendo ao “nacionalismo de inspiração alemã”, cheio de motivos “biológicos”, somos reconduzidos ao nazismo ou, pelo menos, à ideologia sucessivamente herdada e radicalizada pelo Terceiro Reich.

Utilizei até agora os artigos e as intervenções de Arendt anteriores à sua virada anticomunista e antimarxista ocorrida com a eclosão da guerra fria. Mas é interessante notar que, ainda em 1963, a filosofa não perdeu nada de sua carga desmistificadora. Por ocasião do processo Eichmann, “o ministério público denunciou as infames leis de Nuremberg de 1935, que tinham proibido os matrimônios mistos e as relações sexuais de judeus com alemães”. Contudo, no próprio momento em que foi pronunciado esse requisitório, em Israel tinha vigência uma legislação análoga, de modo que “um judeu não pode casar com um não judeu”. E não é tudo. A “lei rabínica” comporta toda uma série de discriminações de base étnica: “Os filhos nascidos de matrimônios mistos são, por lei, bastardos (os filhos nascidos de pais judeus fora do vínculo matrimonial são legitimados), e se alguém tem por acaso uma mãe não-judia, não pode se casar e não tem direito ao funeral”. Sobretudo, Arendt chama a atenção sobre o entusiasmo suscitado, no seu tempo, no criminoso nazista pelas teses expressas por Herzl no seu livro O estado judeu: “Depois da leitura deste famoso clássico sionista, Eichmann aderiu prontamente e para sempre às ideias sionistas”[11]. Talvez, nesse caso, em Klemperer e na própria Arendt, mais que uma exasperação polêmica, há um real excesso de simplificação: é difícil atribuir ao sionismo as ambições de domínio planetário e de inversão radical em sentido reacionário do curso da história que desempenham um papel central na ideologia e no programa político de Hitler; além do mais não existe equivalência entre racismo e contra-racismo (ou seja, racismo de reação). Mais equilibrada, revela-se uma outra eminente personalidade judaica, o historiador George L. Mosse, o qual, aliás, também chama a atenção para o fato de que o sionismo pensa a “nação judaica” nos termos naturalistas propagados pelos turvos “ideais neogermânicos”, que se difundem a partir do fim do século XIX, desempenhando um papel não insignificante no processo de preparação ideológica do Terceiro Reich[12]. Sobre isso será preciso continuar a raciocinar e a discutir, mas os gritos escandalizados surgidos por ocasião da Conferência de Durban querem justamente impedir o raciocínio e a discussão. Contudo, pelo menos um ponto resulta agora suficientemente claro. Sobre a abertura concreta do sionismo, sobre as relações sociais e “raciais” vigentes atualmente em Israel, damos a palavra a judeus de orientação democrática, esclarecendo que não se trata de nenhum modo de extremistas, dado que publicam as suas intervenções no International Herald Tribune. Pois bem, aqui podemos ler que, ainda que uma democracia, Israel é uma “democracia de casta segundo o modelo da antiga Atenas” (que por fundamento tinha a escravidão dos bárbaros), ou seja, segundo o modelo do “Sul dos USA” nos anos da discriminação racial contra os negros. O quadro que Israel apresenta é claro: “A sua minoria de árabes israelenses vota, mas tem um estatuto de segunda classe sob muitos outros aspectos. Os árabes, sob seu governo na Cisjordânia ocupada, não votam e estão privados quase de todo direito”[13]. A prática da discriminação contra os palestinos caminha pari passo com a sua “desumanização”[14]. É um dado de fato: nos territórios de uma maneira ou de outra controlados por Israel, o acesso à terra, à educação, à água, a liberdade de movimento, o gozo dos direitos civis mais elementares, tudo depende do pertencimento étnico. Somente os palestinos correm o risco de ter a propriedade destruída, de serem deportados, de serem torturados (mesmo os que ainda são menores de idade), de serem entregues aos esquadrões da morte: e, tudo isso, não na base em uma sentença da magistratura, mas na base no arbítrio das autoridades policiais e militares, ou seja, sob a decisão soberana do Primeiro ministro. Sharon “fala ainda com orgulho da sua dura campanha contra os militantes palestinos em Gaza trinta anos atrás, quando destruía com tratores as casas e deportava os pais dos adolescentes envolvidos nos protestos”[15]. Assim, como no-lo informa a imprensa norte-americana, é possível ser deportado não somente com base em uma suspeita, mas também a partir de vínculos de parentesco com um jovem suspeito de ter lançado uma pedra contra um soldado israelense. E corre-se este risco sempre e somente sendo palestino. Não é racismo tudo isso? Por outro lado, enquanto rejeita com horror a reivindicação dos refugiados palestinos de retorno à terra da qual foram expulsos pela violência, Israel convida os judeus de todo o mundo a se estabelecerem no Estado judeu e encoraja a colonização dos territórios ocupados, dos quais os palestinos continuam a serem expulsos. O que é isso senão limpeza étnica?

As árvores e a floresta

Diante da terrível evidência da realidade, como parecem retrógrados os apelos que uma certa esquerda dirige aos palestinos e árabes para que não se ocupem de problemas muito “complexos” como o sionismo e o racismo de Israel, concentrando-se ao invés disso na crítica ou na condenação de Sharon! Mas, por parte da esquerda ocidental, esta condenação está pelo menos à altura da situação? No fim de 1948, por ocasião da visita de Begin aos EUA, Arendt apelava à mobilização contra o responsável pela chacina de Deir Yassin, fazendo notar que o partido por ele dirigido resultava “estreitamente aparentado com os partidos nacional-socialistas e fascistas”[16]. Por que a esquerda ocidental não ousa exprimir-se com a mesma clareza com relação ao responsável pelo massacre de Sabra e Chatila? Além do mais, ainda que a condenação de Sharon estivesse à altura dos crimes, nem por isso o assunto poder-se-ia considerar encerrado. Com a mesma lógica, com a qual uma certa esquerda convida a deixar de lado a questão do racismo de Israel e do papel do sionismo, poderíamos nos perguntar: por que não se limitar à denúncia do governo de Berlusconi (ou dos precedentes governos Amato e D’Alema) ao invés de criticar o capitalismo? E por que não centrar fogo sobre Bush filho (ou sobre Clinton ou sobre Bush pai) ao invés de trazer à discussão o imperialismo? É a lógica dos reformistas mais medíocres e mais miúdos: estão dispostos – bondade deles – a dar uma olhada nessa ou naquela árvore, mas ai de você se lhes acenar para a existência de uma floresta! Contudo, se não se olha para a floresta será impossível não só resolver positivamente a tragédia do povo palestino, como também analisá-la de modo adequado. Esta tragédia não teve início com Sharon, ou com Barak, e nem mesmo com os governos anteriores. De “injustiça perpetrada contra os árabes”, Arendt[17] fala já em 1946, e nessa mesma circunstância afirma que a fundação de Israel “tem pouco a ver com uma resposta aos antissemitas”. Com efeito, basta folhear ainda que rapidamente Herzl, para dar-se conta que para ele a contradição principal é a que contrapõe os “judeus fiéis à estirpe” aos judeus “assimilados”, acusados de fazer o jogo de quantos gostariam do “ocaso dos judeus mediante miscigenação” e de praticar matrimônios mistos (onde por matrimônios mistos estão compreendidos também aqueles entre judeus convertidos e judeus “fiéis à estirpe” e à religião[18]). A ferocidade do antissemitismo (que culmina no horror de Auschwitz) tem indubitavelmente alimentado de maneira poderosa o movimento sionista, mas os seus fundadores sempre declararam de maneira aberta que a opção sionista é independente do antissemitismo e continuaria a ser válida “ainda que o antissemitismo desaparecesse completamente do mundo”[19]. Para dizê-lo com as palavras de Arendt, o sionismo está empenhado em utilizar o antissemitismo como “o fator mais saudável da vida judaica”, como a “força motriz” primeiro da criação e depois do desenvolvimento do Estado judeu[20]. Particularmente instrutiva é a recente visita de Sharon a Moscou. Ele observou o desenvolvimento na Rússia da vida cultural e religiosa da comunidade judaica: é uma espécie de “época de ouro”. Tudo bem, portanto? Ao contrário, porque o primeiro ministro israelense assim prosseguiu: “Isso me preocupa, pelo fato de que nós temos necessidade de um outro milhão de judeus russos”[21]. Para angustiar Sharon não está o perigo do anti- semitismo, mas, pelo contrário, o da assimilação. Tornam-se agora evidentes os resulta- dos desastrosos a que conduz a tendência a lançar o olhar às árvores tomadas isoladamente, mas desinteressando-se da floresta no seu complexo. Critica-se a política de colonização dos territórios ocupados, mas cala-se sobre o convite aos judeus russos (ou norte-americanos ou alemães e de todo o mundo) para imigrar maciçamente a Israel: como se entre as duas coisas não houvesse nenhum nexo! Se, ao contrário, queremos captar tal nexo, devemos ousar olhar para a floresta. Esta floresta é o sionismo, o colonialismo sionista, com as práticas racistas que toda forma de colonialismo comporta. Refugiar-se na “complexidade” para evitar a obrigação intelectual e moral de exprimir um julgamento sobre o sionismo, significa assumir uma atitude similar à do revisionismo histórico, o qual também não se cansa de sublinhar a “complexidade”, no caso do fascismo, por exemplo. E não sem alguma razão, dado que, em seu tempo, foi o próprio Palmiro Togliatti que alertou contra as simplificações apressadas, chamando a atenção para o fato de que o fascismo é sim um movimento reacionário, mas um movimento reacionário que, pelo menos por um certo período de tempo, graças também à sua demagogia social, chegou a gozar de uma base de massa e até mesmo a atrair intelectuais que sucessivamente iriam amadurecer uma nítida opção pela esquerda. É uma lição de método que vai muito além da análise do fascismo. Remeter à complexidade é legítimo e fecundo quando estimula uma articulação mais rica e concreta do julgamento histórico, chamado a dar conta dos elementos de diferenciação e contradição que sempre irrompem no curso do processo de desenvolvimento de um fenômeno histórico complexo. Outras vezes, ao contrário, remeter à complexidade é uma fuga ao julgamento histórico, é um abandonar-se à mística da inefabilidade: é expressão de vontade mistificadora, ou seja, de assombro.

A causa antissionista dos palestinos e a causa dos judeus progressistas

Negar que o sionismo e a fundação do Estado de Israel sejam em primeiro lugar a resposta ao antissemitismo e afirmar que desde o início os palestinos sofreram uma injustiça, significa que se deva lutar pela destruição do Estado de Israel? Como fundamento dos EUA há um crime originário realizado contra os pele-vermelhas e os negros. E, todavia, ninguém pensa em fazer retornar os brancos à Europa, os negros à África e em despertar os que são de pele-vermelha do sono eterno. Desde os seus inícios, Israel tratou os palestinos em parte como se fossem pele-vermelhas (privando-os de suas terras e às vezes submetendo-os a dizimações), em parte como negros, discriminados, torturados, humilhados, na melhor das hipóteses constrangendo-os a ocupar os segmentos inferiores do mercado de trabalho. O reconhecimento desse crime originário é o primeiro pressuposto para que possa haver justiça e reconciliação. Mas uma crítica tão radical a Israel e ao próprio sionismo não corre o risco de realimentar o antissemitismo? Hannah Arendt fez troça do mito de um antissemitismo eterno. É um mito que afunda suas raízes no sionismo. Pelo menos os seus expoentes mais radicais, a partir de sua visão naturalista da nação, tendem a instituir uma contraposição natural e eterna “entre os judeus e os gentis”. Ou seja, o mito do antissemitismo eterno afunda suas raízes em uma visão ela mesma densa de humores racistas. Em todo caso, é evidente o componente chauvinista dessa visão. Não afirma Herzl que “uma nação é um grupo de pessoas mantidas juntas por um inimigo comum”? É a partir de tal “teoria absurda” – observa a corajosa pensadora de origem judaica – que os sionistas cultivam o mito do antissemitismo eterno[22]. São observações que remontam a 1945, mas que hoje são mais atuais do que nunca.

Ainda depois de sua virada em sentido anticomunista e antimarxista, em 1963, Arendt declara que o “antissemitismo, graças a Hitler, ficou desacreditado, talvez não para sempre, mas certamente pelo menos para a época atual”[23]. Por sua vez um conhecido cientista político norte-americano escreveu que, em nossos dias, “na Europa ocidental o antissemitismo para com os judeus foi em larga medida suplantado pelo antissemitismo para com os árabes”[24]. Na realidade, isso não vale somente para as metrópoles urbanas na Europa Ocidental, mas também e sobretudo para o Oriente Médio. A autenticidade do envolvimento contra o racismo mede-se não a partir da homenagem, ainda que devida, para com as vitimas do passado, mas, a partir em primeiro lugar, do apoio às vitimas atuais. Se não sabe tornar própria até o fundo a causa do povo palestino, a luta contra o racismo é somente uma frase vazia. É para ficar então atônito quando se lê em um “diário comunista” o convite para deixar “o antissemitismo – antissionismo de princípio – aos racistas”[25]. A autora dessa afirmação, ou melhor dessa assimilação, ao mesmo tempo em que se recusa a levar em consideração a acusação de colonialismo e de racismo dirigida ao sionismo, de fato não hesita em taxar de racistas, entre outros, Victor Klemperer e Hannah Arendt. Quando esta última, em 1963, publica Eichmann em Jerusalém, com as suas flechas contra o sionismo e contra a tentativa de Israel de instrumentalizar o processo em sentido antiárabe, torna-se alvo de acusação como antissemita. Na França, o semanário Nouvel Observateur, ao publicar trechos do livro (escolhidos com perfídia), pergunta-se sobre a autora: Est-elle nazie? É nazista?[26]. Essa campanha não cessou, ainda que agora tenha em mira alvos considerados mais cômodos. Das colunas do International Herald Times expoentes progressistas da comunidade judeus norte-americana lançaram um grito de alarme: objetos de “desumanização” não são somente os palestinos, mas também os judeus que exprimem um julgamento crítico complexo sobre Israel, chegando às vezes a colocar em discussão o sionismo enquanto tal. É uma atitude que lhes pode custar caro, porque, além dos insultos, eles recebem repetidas ameaças de morte[27]. Aceitando acriticamente a equiparação de antissionismo e antissemitismo propalada pelos dirigentes de Israel, uma certa esquerda trai não só a luta dos palestinos, mas também a dos judeus progressistas em Israel e no mundo, sob certos aspectos, não menos difícil e não menos corajosa.

= = = 
Notas:
[0] Publicado na revista italiana L’ernesto, 4/2001 de 01/07/2001. Tradução de Modesto Florenzano.
[1] Vladimir Lênin, Opere Complete, vol. XXXIX, Editori Riuniti, Roma, 1955, p. 654.
[2] Edward Said, La questione palestinese. La tragedia di essere vittima delle vittime, trad. Italiana Gamberetti, Roma, 1995, pp. 103-6
[3] Hannah Arendt, Ebraismo e modernitá, org. G. Bettini, Unicopoli, Milão, 1986, p. 83.
[4] Hannah Arendt, Essays & Kommentare, orgs. E. Geisel e K. Bittermann, Tiamat, Berlim, vol. II: Die Krise des Zionismus, 1989,.pp. 114-5.
[5] Hannah Arendt, Ebraismo... 1986, pp. 85-8 e 92.
[6] Victor Klemperer. Ich will Zeugnis ablegen bis zum letzten, vol. II: Tagebücher 1942-1945, org. W. Nowojski, Aufbau, Berlim, Quinta edição, 1996, p. 146.
[7] Theodor Herzl, “Der Judenstaat” (1896), in Theodor Herzl’s Zionitische Schrifen, org. L. Kellner, Jüdischer Verlag, Berlin-Charlottenburg, vol. I, 1920, pp. 117-8.
[8] Hannah Arendt, Ebraismo... 1986, pp. 101-2.
[9] Hannah Arendt, Ebraismo... 1986, p. 30, nota 11 e p. 98.
[10] Hannah Arendt, Ebraismo... 1986, pp. 107-8 e 131
[11] Hannah Arendt, Eichamann in Jerusalem. A Report on the Banality of Evil (1963), tradução italiana La Banalità del male. Eichmann a Gerusalemme (1964). Feltrinelli, Milano. V edição. 1993, pp. 15-6 e 48.
[12] George L. Mosse, The Crisis of German Ideology (1964), trad. Italiana Le origini culturali del Terzo Reich, Il Saggiatore, Milão, 1968, p. 270.
[13] Robert A. Levine, 2001. “The Jews of the Wide World Didn’t Elect Sharon”, in International Herald Tribune, 5 de junho de 2001, p. 8.
[14] Michael Lerner, “A Jew Gets Death Threats for Questioning Israel”, in International Herald Tribune, 23 de maio de 2001, p. 9.
[15] Lee Hockstader, “Palestinian Authority described as ‘Terrorist’”, in International Herald Tribune, 1 de março de 2001, p. 4.
[16] Hannah Arendt, Essays & Kommentare… 1989, p. 113.
[17] Hannah Arendt, Ebraismo... 1986, p. 133.
[18] Theodor Herzl, op. cit, pp. 52 e 49.
[19] Max Nordau, Der Zionismus. Neue, vom Verfasser vollständig umgearbeitete und bis zur Gegenwart fortgeführte Auflage, org. Wiener Zionistischen Vereinigung, Buchdruckerei Hélios, Viena, 1913, p. 5.
[20] Hannah Arendt, Ebraismo... 1986, p. 125.
[21] William Safire, “Sharon in Moscow, Sword in Hand”, International Herald Tribune, 8-9 de setembro de 2001, p. 4.
[22] Hannah Arendt, Ebraismo... 1986, pp. 90 e 97-8.
[23] Hannah Arendt, Eichmann…, 1993, pp. 18-19.
[24] Samuel P. Huntington, The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order, 1997, p. 293.
[25] Rina Gagliardi, “Discutendo di sionismo e sinistra”, in Liberazione, 29 de agosto de 2001, p. 8. [26] Amos Elon, “The Case of Hannah Arendt”, in The New York Review of Books, 6 de novembro de 1997, pp. 25 e 29.
[27] Lerner, op. cit.
= = = 
Resumo: O artigo discute a necessidade de a esquerda tomar uma posição em relação ao sionismo, rejeitando as análises que apontam para a “complexidade” desse movimento, esquivando-se de emitir um julgamento sobre ele. Seu autor entende que a esquerda deve denunciar o colonialismo sionista e suas práticas racistas, recusando a equiparação entre antissionismo e antissemitismo.

Palavras-chave: Sionismo; Antissemitismo.

The Sionism and the palestine people's tragedy

Abstract: The article argues about the Left's necessity in taking a position towards the Sionism. It rejects those analysis that, by alleging the
“complexity” of this movement, avoid to formulate a firm judgement about it. The author thinks that the Left must denounce sionist colonialism and its racist practices, refusing to compare anti- sionism with anti-semitism.

Keywords: Sionism; Anti-semitism.
= = =
LOSURDO, D. “O sionismo e a tragédia do povo palestino”. In: Crítica Marxista, São Paulo, Ed. Revan, v.1, n.24, 2007, p.63-72.
= = =

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Guerra Fria contra os LGBTs no Canadá


 por Gabriel Deslandes

No início dos anos 1970, a prática de bullying perturbava o então estudante canadense na Escola Secundária Victoria Park, em Toronto, Gary William Kinsman: seu armário aparecia diuturnamente rabiscado com o xingamento “commie pinko fag” (“bicha vermelha comunista”, em inglês). Ser chamado de “comunista” e “vermelho” parecia algo óbvio – ele era militante dos Jovens Socialistas e, mais tarde, do Grupo Marxista Revolucionário –, mas o jovem secundarista não entendia bem por que também era xingado de “bicha”, já que ainda não tinha certeza da própria sexualidade. Kinsman achou que essa ofensa tinha origem na recusa em rir das piadas homofóbicas dos colegas. À época, ele já havia se percebido excluído das interações heterossexuais “normais”.

Os anos se passaram, e Kinsman já tinha se assumido gay, enquanto se mantinha radicalmente à esquerda. Porém, a associação imediata entre ser “comunista” e “bicha”, feita por seus antigos assediadores, marcou profundamente sua militância política. Professor do Departamento de Sociologia da Universidade Laurentian, em Sudbury, Kinsman é hoje um dos maiores especialistas em estudos de gênero e história social do movimento LGBT no Canadá, e sua experiência pessoal na juventude o motivou a investigar um quadro político bem mais amplo e complicado – a repressão a gays e lésbicas pelo Estado canadense durante a Guerra Fria, sob o pretexto da “segurança nacional”. Naquele cenário, a vigilância sobre os homossexuais se mesclava com a paranoia anticomunista, tal qual nos EUA.

A pesquisa de Kinsman rendeu, entre outros estudos, um capítulo especial no livro Love, Hate, and Fear in Canada’s Cold War (Amor, ódio e medo no Canadá da Guerra Fria, em tradução livre)[1], em que o sociólogo resgata histórias de “caça às bruxas” à comunidade LGBT canadense e a construção da imagem das minorias sexuais como “ameaças à segurança nacional” junto aos comunistas. Para sua análise, Kinsman entrevistou 35 gays e lésbicas que sofreram com a perseguição política, sobretudo pela Real Polícia Montada do Canadá (RCMP).

Maior força de segurança do país, a RCMP é a única corporação do mundo responsável simultaneamente pelo policiamento federal, provincial e municipal, concentrando todo o poder policial em uma só organização. Sob os olhos da RCMP, mais de nove mil homossexuais tiveram suas vidas vigiadas e escrutinadas, entre “suspeitos”, “supostos” e “confirmados” nos anos de 1967 e 1968 – a homossexualidade seria apenas parcialmente descriminalizada no Canadá em 1969, com uma limitadíssima reforma do Código Criminal que, na prática, não reduziu a repressão nos anos seguintes.

Resistência queer, pela ótica dos oprimidos


Se a perseguição estatal era implacável, os perseguidos políticos não se acomodaram na condição de vítimas. Os homossexuais canadenses souberam criar e desenvolver redes de solidariedade para resistir à guerra de segurança nacional deflagrada contra eles, como denunciam os próprios documentos desclassificados da RCMP. Ao resistirem, aprenderam a usar a criatividade para burlar a vigilância do Estado e, em especial, identificar e isolar espiões dentro de seus círculos sociais.

Para Kinsman, essa resistência traz em si os pontos de vista sociais adotados pelos gays e lésbicas afetados pelas campanhas de segurança do Estado. A perspectiva dos oprimidos ajuda a compreender os temas da Guerra Fria para além dos limites do discurso ideológico dominante da “segurança nacional”. Essa postura, segundo o sociólogo, ajuda a descodificar a narrativa-mestra da história canadense da Guerra Fria e coloca as experiências sociais e as formas de resistência dos queers em primeiro plano – por “queer”, o autor entende gays e lésbicas, além de recuperar um termo histórico de abuso e estigmatização contra minorias sexuais.

Apesar de usar o termo, Kinsman não é adepto da chamada teoria queer, que, na sua visão, seria limitada por tender a contestar a heteronormatividade apenas em termos literários, discursivos e culturais. Para ele, a “teoria” da linguagem usada na teoria queer, extraída do pós-estruturalismo, não descreve com clareza como a linguagem e o discurso são práticas sociais, e isso poderia levar a um reducionismo, como se as complexidades dos processos sociais estivessem restritas ao campo do discurso.

Por isso, ele tenta relacionar as ideias da teoria social queer com o materialismo histórico de Marx. Assim, o materialismo histórico pode desvelar a aparências “naturais” e a-históricas da heteronormatividade e analisar como a dinâmica das relações sociais no capitalismo moldam a vida de pessoas queers na sociedade de classes. Nesse sentido, a Guerra Fria contra os queers – iniciada nos anos 1950 e indo até o começo dos anos 1990 – não se concentrou só na sua dimensão de homofobia institucionalizada. Os homossexuais vivem em um contexto de classe, gênero, raça, idade e outras relações sociais, e a perseguição contra eles teve aspectos classistas, antissocialistas e anti-imigrantes.

Dentro do marxismo, Kinsman é assumidamente influenciado pela “história vista de baixo” do inglês E. P. Thompson, corrente historiográfica que busca dar protagonismo ao ponto de vista das pessoas marginalizadas pela historiografia oficial, como mulheres e trabalhadores. Já da socióloga feminista marxista Dorothy Smith, Kinsman usa a noção de etnografia institucional para entender como as relações que governam toda a sociedade são construídas e organizadas – no caso, os operadores das campanhas de segurança no Canadá da Guerra Fria e a própria ideia de “segurança nacional” como código ideológico. Essa análise etnográfica também conecta as campanhas canadenses com relações sociais mais amplas, como as alianças internacionais de segurança com os EUA e a OTAN, da qual o Canadá faz parte.

Na lógica da guerra, a construção da imagem do “inimigo” está presente nos documentos de segurança nacional no Canadá. Esses textos da época da Guerra Fria revelam como as práticas e relações sociais dos queers foram “coisificadas” pelo discurso oficial do Estado para transformá-los em uma “terrível ameaça”.

Revelar as histórias por trás das campanhas de segurança nacional da RCMP serve não só para entender as raízes do “heterossexismo” na formação da ideologia da Guerra Fria, mas também para combater a organização social do esquecimento, que busca aniquilar as memórias sociais e históricas e fazer com que os trabalhadores e oprimidos em geral se esqueçam de suas próprias lutas e conquistas. Desse modo, o resgate da memória é uma forma de rebelião.

A Guerra Fria e a “caça aos anormais”

Historicamente, solidificou-se o consenso de que a Guerra Fria se limitou a uma disputa geopolítica entre os EUA e a União Soviética pelo domínio global. Porém, é preciso repensar a Guerra Fria como um fenômeno bem mais abrangente. Para além das defesas político-ideológicas do capitalismo e socialismo e dos conflitos do imperialismo norte-americano com o bloco soviético, a Guerra Fria abarcou a dura repressão a organizações da classe trabalhadora e os movimentos de descolonização do Terceiro Mundo – foi, portanto, uma guerra “quente” em múltiplos aspectos.

A dimensão política e geopolítica trouxe consigo também uma dimensão racial e sexual que reafirma uma certa “normalidade” de sexualidade e gênero. Desse modo, como pondera Kinsman, as mobilizações anti-queer das décadas de 1960 e 1970 tinham um caráter social profundamente arraigado e continham uma esfera política mais ampla. Essa criação dessa “normalidade” sexual, dotada de sua própria regulação moral, precisava necessariamente de um Outro, algo ou alguém “fora do normal”, que representasse um risco ao tecido social da “nação”. A heteronormatividade se consolaria, assim, no interesse nacional como sinônimo de “lealdade” e “segurança”. A heterossexualidade é a “sexualidade da nação”, e aquilo que destoa dessa norma é visto como “subversão” política, social, sexual e cultural.

Nesse campo, atividades ou ideias radicais com potencial de recrutar apoio popular podem ser rotuladas como “subversivas”. Mesmo quando tal atividade “subversiva” for legal, será negada proteção contra vigilância ou assédio estatal, por ela ser considerada ilegítima. Apontado como um “risco à segurança nacional”, o subversivo é colocado para fora do tecido social “normal” e “nacional” e pode ter seus direitos humanos e civis excluídos. No contexto canadense, entram nessa categoria os comunistas, socialistas, sindicalistas, pacifistas, estudantes, imigrantes, ativistas indígenas, militantes do movimento negro, soberanistas de Quebec e, é claro, os homossexuais. Todos esses são indivíduos ou grupos “desviantes” de uma imagem unitária do Canadá, baseada na supressão das diferenças nacionais, linguísticas, de classe, sexuais e culturais.

No ideário da “segurança nacional”, os queers eram vistos como “companheiros de viagem” dos comunistas por causa de sua violação das fronteiras políticas, classistas, sociais e sexuais. Um exemplo, citado por Kinsman, é o artigo The International Homosexual Conspiracy, de R. G. Waldeck, publicado em 1960, que dá uma amostra do discurso conservador dominante sobre o tema:
Oficiais homossexuais são um perigo para nós na presente luta entre o Ocidente e o Oriente: os membros de uma conspiração tendem a se juntar aos de outra […] Muitos homossexuais deixam de ser inimigos da sociedade em geral para se tornarem inimigos do capitalismo em particular. Sem serem necessariamente marxistas, eles servem aos fins da Internacional Comunista em nome de sua rebelião contra os preconceitos, padrões, ideais do mundo ‘burguês’. Outra razão para a aliança homossexual-comunista é a instabilidade e a paixão à ‘intriga pela intriga’, algo inerente à personalidade homossexual. Uma terceira razão é a promiscuidade social dentro da minoria homossexual e a fusão de seus efeitos entre as classes altas e a corrupção proletária.[2]
Em outro exemplo de discurso anti-queer, Kinsman demonstra como essa narrativa conspiracionista, que coloca o homossexual como ser “desviante” da sociedade, encontrava ecos no aparelho do Estado canadense. Em um memorando de 1959 do Painel de Segurança do Canadá, comitê interdepartamental que coordenava as campanhas de segurança nacional à época, há as seguintes considerações:
A natureza da homossexualidade parece se adaptar a esse tipo de exploração. Tomando precauções bastante simples, os homossexuais geralmente conseguem manter seus hábitos ocultos daqueles que não os procuram especificamente. Além disso, os homossexuais parecem acreditar que o código ético aceito que governa os relacionamentos humanos normais não se aplica a eles. Sua propensão é frequentemente acompanhada de outras fraquezas específicas, como beber em excesso, com suas consequentes instabilidades, uma atitude desafiadora em relação ao resto da sociedade e um desejo simultâneo de procurar a companhia de pessoas com características semelhantes, geralmente em mesas de bar de má reputação, clubes noturnos ou restaurantes […] O caso do homossexual é particularmente difícil por várias razões. Da pequena quantidade de informações que conseguimos obter sobre o comportamento homossexual em geral, certas características parecem se destacar – instabilidade, autoengano voluntário, provocação à sociedade, uma tendência a cercar-se de pessoas de propensões semelhantes, independentemente de outras considerações. Nenhuma delas inspira a confiança esperada em pessoas necessárias para preencher cargos de responsabilidade.[3] 
“Fraqueza moral” como subversão

Para garantir a heteronormatividade dentro de suas instituições, o Estado recorria à imposição de regulamentos de gênero, como no serviço público e nas Forças Armadas. As medidas incluíam códigos de vestimenta para mulheres e até concursos de beleza como forma de assegurar o desempenho da feminilidade heterossexual no serviço público. Nas Forças Armadas, qualquer experiência erótica com pessoas do mesmo sexo se tornou suspeita. Isso fez com que mesmo homens não-afeminados e mulheres não-masculinizadas dentro da “normalidade” de gênero pudessem também ser alvos de represália caso, aparentemente, se envolvessem em algum ato erótico com alguém do mesmo sexo. Para os militares canadenses, essas pessoas seriam mais vulneráveis ​​a chantagens de agentes soviéticos.

Essa política revela o quanto as campanhas de segurança nacional miravam em indivíduos supostamente com algum tipo de “fraqueza moral” ou de “caráter”. Para os agentes da repressão do Estado, se uma pessoa não se apresenta dentro da “normalidade”, era, portanto, mais suscetível a chantagens, porque tinha algo a esconder. Documentos oficiais da época faziam considerações sobre gays e lésbicas que “estavam no armário” e viviam uma “vida dupla”; porém, em momento algum, os agentes do Estado percebiam sua própria responsabilidade em ter ajudado a criar e manter essa situação de reclusão.

Nesse ponto, vale observar que essa “invisibilidade” dos homossexuais não consistia em algo “natural” de sua própria sexualidade, nem foi um fenômeno a-histórico na sociedade canadense – segundo Kinsman, havia mais liberdade para práticas eróticas homossexuais no início do século XX do que durante Guerra Fria. Em sua pesquisa, o sociólogo constatou, por exemplo, uma maior abertura a práticas queers em Vitória, na Colúmbia Britânica, antes das operações militares e da RCMP para investigação do assassinato de Aaron “Bud” Jenkins por seu namorado Leo Mantha. Também verificou que Ottawa era uma cidade mais aberta à diversidade sexual antes das campanhas contra os homossexuais no fim dos anos 1950.

A partir de então, começou a ser construído oficialmente o estereótipo relacionando gays e lésbicas a chantagens. Contudo, no ponto de vista dos próprios homossexuais, quem de fato fazia chantagem contra eles era a RCMP. Em inúmeros depoimentos, gays e lésbicas relatam que eram alvos de interrogatórios da polícia canadense, em que eram obrigados a delatarem nomes ou identidades de outros homossexuais. Era comum que os policiais cobrassem dos interrogados lealdade ao Estado e perguntassem “qual traição era maior – aos amigos ou ao país”.

Esses interrogatórios compuseram campanhas anti-queer que afetaram a vida de milhares de pessoas entre as décadas de 1950 e 1990. Investigações de segurança dentro do Departamento de Assuntos Externos e da Marinha em 1960 “descobriram”, por exemplo, 17 “supostos” homossexuais, 33 “suspeitos” e nove “confirmados” em Assuntos Externos, e 76 homossexuais “suspeitos” e 123 “confirmados” na Marinha.[4] A função dos interrogatórios era justamente “confirmar” os “suspeitos” ou “supostos” homossexuais por meio do depoimento de outros gays e lésbicas. No fim dos anos 1960, havia na Diretoria de Segurança e Inteligência da RCMP, inclusive, uma subdivisão para averiguação de “fraqueza de caráter”, e seus oficiais tinham a missão de andar com homens gays, tentando fazer amizade com eles para convertê-los em informantes. A partir dessa investigação, caso um servidor público qualquer tivesse sua homossexualidade “confirmada”, poderia ser expulso de seu cargo no serviço público ou nas Forças Armadas.

Todo esse processo de identificação e confirmação dependia da existência de informantes homossexuais “cooperativos” e “confiáveis”. Como a cooperação de gays e lésbicas informantes foi se tornando cada vez mais escassa, a RCMP começou a desenvolver um “meio científico objetivo” para determinar a orientação sexual alheia, com base na pesquisa de “especialistas nas disciplinas psicológica e psiquiátrica”. Esse programa – apelidado de “máquina de frutas” – foi desenvolvido pela RCMP, Forças Armadas, Painel de Segurança e o Departamento de Saúde e Bem-Estar Nacional e funcionou durante os anos 1950 e 1960. Em suma, um programa do Estado que atestaria quem era homossexual ou não.

Na “máquina de frutas”, havia um teste de resposta pupilar. Nesse procedimento, um indivíduo sentava em uma cadeira e, a ele, eram exibidas fotos de homens e mulheres nus. O nível de dilatação “involuntária” de suas pupilas confirmaria se a pessoa estava excitada com a foto exibida e, consequentemente, sua orientação sexual. A pesquisa também usava escalas de masculinidade e feminilidade e examinava a reação do indivíduo testado ao ouvir palavras consideradas “gays” no linguajar popular canadense, como “queen”, “drag”, “punk”, “fruit”, “swing” ou “top man”. A resistência a esse programa foi tamanha dentro até da própria RCMP que a pesquisa acabou sendo abandonada.

Solidariedade entre os iguais


À medida que recrudescia a repressão, aprimoravam-se também as formas de reação da população LGBT à violência e à vigilância do Estado, contando com o apoio também de pessoas heterossexuais aliadas. A organização e solidariedade mútua entre gays e lésbicas obrigou a RCMP a constatar oficialmente, em 1962 e 1963, que suas campanhas de segurança estavam sendo dificultadas pela não-colaboração por parte de outros homossexuais e pela falta de informantes dentro desses grupos.[5] Os próprios gays formaram redes de proteção por meio das quais identificavam e localizavam espiões e agentes policiais infiltrados, além de nunca delatarem os nomes de seus pares nos interrogatórios da RCMP.

Na pesquisa de Kinsman, uma das vítimas de perseguição entrevistadas pelo sociólogo, David, conta como aprendeu a reconhecer quando um investigador policial o estava vigiando em bares: “Você via alguém com um jornal erguido e, se olhasse de perto, poderia vê-lo segurando uma câmera por trás do jornal. E essas pessoas estavam fotografando todos no bar”.[6] David estava se referindo às suas experiências na taberna do porão do Lord Elgin Hotel por volta de 1964, que era então um dos principais pontos de encontro de homens gays em Ottawa. “Sempre que você via alguém com um jornal na frente do rosto, outra pessoa no bar tirava a carteira do bolso e fazia um gesto [imitando bater uma foto, para indicar que a pessoa com o jornal estava lhe fotografando]. E todo mundo sabia assim que era para tomar cuidado com aquele cara”, conta David, que chegou a ser interrogado e seguido pela RCMP e teve sua casa revistada, mas se recusou a cooperar com os policiais.

O relato de David demonstra que nessas redes de solidariedade e apoio, a comunidade LGBT sabia o que a RCMP estava tramando e, mais do que isso, sabia dar resposta coletiva aos policiais. A base para a formação desses laços estava nas próprias relações amorosas e de amizade entre eles.

Contudo, engana-se quem acredita que essas políticas de vigilância terminaram no fim dos anos 1960 ou início dos anos 1970. Elas prosseguiram no decorrer das décadas de 1970 e 1980, à medida que foram surgindo novas organizações feministas e LGBT, que permaneceram sob o escrutínio da RCMP como grupos subversivos. A polícia canadense desenvolveu novas classificações para “ativismo político gay” e “ativismo lésbico radical”, e o caráter de subversão era ainda mais enfatizado graças também ao envolvimento de muitos desses grupos com organizações trotskistas, como a Liga para Ação Socialista e os Jovens Socialistas.

O monitoramento policial das ações de grupos LGBT se fez notar em algumas das principais manifestações queers dos anos 1970 no Canadá. Quando um grupo de homossexuais realizou um protesto pioneiro na Colina do Parlamento, em Ottawa, em agosto de 1971, a RCMP estava presente vigiando. Na conferência de fundação da Aliança Gay pela Igualdade (GATE) em 1975, as forças policiais também estiveram acompanhando de perto. A vigilância se estendeu ao movimento feminista e levou a RCMP a monitorar o grupo Wages Due Lesbians, que fazia parte da campanha Salários para o Trabalho Doméstico, de Toronto. Em seu relatório, a RCMP descreveu as militantes como “fracassadas malnascidas”, bem como atacou a aparência física delas, alegando que tinham um “orgulho perverso de se desfeminilizarem, cultivando um aspecto sujo e desleixado”.[7]

O diferencial dos anos 1970 para as duas décadas anteriores é que as ativistas feministas homossexuais, em geral, não escondiam mais sua sexualidade. Ao “saírem do armário” para construir movimentos políticos, elas começaram a minar a noção de “fraqueza de caráter”, construída em cima da “vida dupla” e da necessidade de manter sigilo sobre sua orientação sexual. Essas novas organizações foram cruciais para enfraquecer o poder repressivo do Estado canadense.

A perseguição à comunidade LGBT somente se tornou passado no começo dos anos 1990, graças aos anos de luta dos ativistas queers. A própria RCMP perdeu sua função de serviço de inteligência civil para o Serviço Canadense de Segurança e Inteligência (CSIS), criado em 1984, após denúncias de envolvimento da RCMP nos chamados “truques sujos” contra os movimentos soberanistas e de esquerda em Quebec, como o incêndio criminoso de um galpão da Frente de Libertação do Quebec, em 1972.

Contudo, apesar de a Guerra Fria ter acabado, a lógica das campanhas de segurança nacional persiste na sociedade canadense. Se, entre as décadas de 1950 e 1970, os comunistas e os queers eram alvos preferenciais, canadenses árabes e muçulmanos passaram a ser assediados desde a Guerra do Golfo e, sobretudo, com a Guerra ao Terror. O Estado canadense também mobilizou seu aparato repressivo contra manifestantes contrários à Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), acordo internacional de comércio assinado com, entre outros governos, a ditadura de Suharto na Indonésia. Quando a cúpula da APEC se reuniu em Vancouver, em 1997, manifestantes da Universidade da Colúmbia Britânica foram presos e duramente atacados pela RCMP.

A mesma repressão policial recaiu sobre os protestos contra o acordo da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) durante a 3ª Cúpula das Américas em 1999, na cidade de Quebec. Os manifestantes antiglobalização foram tachados pelo CSIS e por grande parte da mídia canadense como “anarquistas”, instigando uma estigmatização semelhante à mobilizada contra os comunistas nos anos 1950 e 1960.

Para Kinsman, essa violência é a evidência concreta de que o discurso político típico da Guerra Fria pode ainda ser mobilizado contra quaisquer ameaças às relações sociais capitalistas, ainda que a URSS não exista mais. Afinal, a naturalização constante de tais relações hegemônicas de classe, gênero e etnia cria um ideal de Estado nacional livre de contradições, e, na dinâmica da guerra, quem não corresponde a essa “harmonia” deve ser posto para fora. Dessa maneira, a reafirmação da heteronormatividade foi parte essencial da construção da ideologia da Guerra Fria no Canadá, às custas do sofrimento de milhares de pessoas queers

= = =
Fontes:
[1] Kinsman, Gary. “The Canadian Cold War on Queers: Sexual Regulation and Resistance.” In Love, Hate, and Fear in Canada’s Cold War, ed. Richard Cavell (Toronto: University of Toronto Press, 2004), pp. 108-132.
[2] R.G. Waldeck, “The International Homosexual Conspiracy”, Human Events, 29 de setembro de 1960.
[3] D. F. Wall, Security Cases Involving Character Weaknesses, with Special Reference to the Problem of Homosexuality. Memorando ao Painel de Segurança, 12 de maio de 1959, pp. 12-13.
[4] J.M. Bella, ‘Appendix “A”: Homosexuality within the Federal Government Service – Statistics/ in Director of Security and Intelligence, Homosexuality within the Federal Government Service, 29 de abril de 1960.
[5] Directorate of Security and Intelligence, RCMP (1962-3), p. 19.
[6] Kinsman, Gary. “The Canadian Cold War on Queers: Sexual Regulation and Resistance.” In Love, Hate, and Fear in Canada’s Cold War, ed. Richard Cavell (Toronto: University of Toronto Press, 2004), p. 108.
[7] RCMP, “Assessment of the Gay Alliance towards Equality” (Vancouver 1973).
= = =