sábado, 8 de setembro de 2018

Artigo: Por que os marxistas se opõem ao terrorismo individual?



por Leon Trotsky

MIA
 
Nossos inimigos de classe têm o costume de queixar-se de nosso terrorismo. Eles gostariam de por o rótulo de terrorismo a todas as ações do proletariado dirigidas contra os interesses do inimigo de classe. Para eles, o método principal de terrorismo é a greve. A ameaça de uma greve, a organização de piquetes de greve, o boicote econômico a um patrão super explorador, o boicote moral a um traidor de nossas próprias filas: tudo isso e muito mais é qualificado de terrorismo. Se por terrorismo se entende qualquer coisa que atemorize o prejudique o inimigo, então a luta de classes não é outra coisa senão terrorismo. E o único que resta considerar é se os políticos burgueses têm o direito de proclamar sua indignação moral acerca do terrorismo proletário, quando todo seu aparato estatal, com suas leis, polícia e exército não é senão um instrumento do terror capitalista.

No entanto, devemos assinalar que quando nos jogam na cara o terrorismo, tratam, ainda que nem sempre de forma consciente, de dar-lhe a esta palavra uma sentido mais estrito, menos indireto. Por exemplo, a destruição das máquinas por parte dos trabalhadores é terrorismo neste sentido estrito do termo. A morte de um patrão, a ameaça de incendiar uma fábrica ou matar o seu dono, o atentado a mão armada contra um ministro: todos estes são atos terroristas no sentido estrito do termo. Não obstante, qualquer um que conheça a verdadeira natureza da social-democracia internacional deve saber que ela tem se colocado em oposição da maneira mais irreconciliável a esta classe de terrorismo.

Por que? O "terror" mediante a ameaça ou a ação grevista é patrimônio dos operários industriais ou agrícolas. O significado social de uma greve depende, em primeiro lugar, do tamanho da empresa ou ramo da indústria afetada; em segundo lugar, do grau de organização, disciplina e disposição para a ação dos operários que participam. Isto é certo tanto em uma greve econômica ou política. Segue sendo o método de luta que surge diretamente do lugar que na sociedade moderna ocupa o proletariado no processo de produção.

Para desenvolver-se, o sistema capitalista requer uma superestrutura parlamentar. Porém ao não poder confinar o proletariado em um gueto político, deve permitir cedo ou tarde, sua participação no parlamento. Nas eleições se expressa o caráter de massa do proletariado e seu nível de desenvolvimento político, qualidades determinadas por seu papel social, sobretudo por seu papel na produção.

Do mesmo modo que numa greve, nas eleições o método, objetivos e resultado da luta dependem do papel social e da força do proletariado como classe. Somente os operários podem fazer greve. Os artesãos arruinados pela fábrica, os camponeses cuja água envenena a fábrica, os lumpen-proletários em busca de um bom botim, podem destruir as máquinas, incendiar a fábrica ou assassinar o dono.

Somente a classe operária consciente e organizada pode enviar uma forte representação ao parlamento para cuidar dos interesses proletários. No entanto, para assassinar a um funcionário do governo não é necessário contar com as massas organizadas. A receita para fabricar explosivos é acessível a todo o mundo, e qualquer um pode conseguir uma pistola.

No primeiro caso, há uma luta social, cujos métodos e vias se desprendem da natureza da ordem social imperante; no segundo, uma reação puramente mecânica que é idêntica em todo o mundo, desde a China até a França: assassinatos, explosões, etc., porém totalmente inócua em relação ao sistema social.

Uma greve, inclusive uma modesta, tem conseqüências sociais: fortalecimento da auto-confiança dos operários, crescimento do sindicato, e, com não pouca freqüência, uma melhora na tecnologia produtiva. O assassinato do dono da fábrica provoca apenas efeitos policiais, ou uma troca de proprietário desprovida de toda significação social.

Para que um atentado terrorista, mesmo um que obtenha "êxito", crie confusão na classe dominante, depende da situação política concreta. Seja como for, a confusão terá vida curta; o estado capitalista não se baseia em ministros de estado e não é eliminado com o desaparecimento deles. As classes a que servem sempre encontrarão pessoas para substituí-los; o mecanismo permanece intacto e em funcionamento.

Todavia, a desordem que produz um atentado terrorista nas filas da classe operária é muito mais profunda. Se para alcançar os objetivos basta armar-se com uma pistola, para que serve esforçar-se na luta de classes? Se um pouco de pólvora e um pedaço de chumbo bastam para perfurar a cabeça de um inimigo, que necessidade há de organizar a classe? Se tem sentido aterrorizar os altos funcionários com o ruído das explosões, que necessidade há de um partido? Para que fazer passeatas, agitação de massas, eleições, se é tão fácil alvejar um ministro desde a galeria do parlamento?

Para nós o terror individual é inadmissível precisamente porque apequena o papel das massas em sua própria consciência, as faz aceitar sua impotência e volta seus olhos e esperanças para o grande vingador e libertador que algum dia virá cumprir sua missão.

Os profetas anarquistas da "propaganda pelos fatos" podem falar até pelos cotovelos sobre a influência estimulante que exercem os atos terroristas sobre as massas. As considerações teóricas e a experiência política demonstram o contrário. Quanto mais "efetivos" forem os atos terroristas, quanto maior for seu impacto, quanto mais se concentra a atenção das massas sobre eles, mais se reduz o interesse das massas por eles , mais se reduz o interesse das massas em organizar-se e educar-se.

Porém a fumaça da explosão se dissipa, o pânico desaparece, um sucessor ocupa o lugar do ministro assassinado, a vida volta à sua velha rotina, a roda da exploração capitalista gira como antes: só a repressão policial se torna mais selvagem e aberta. O resultado é que o lugar das esperanças renovadas e da excitação artificialmente provocada vem a ser ocupado pela desilusão e a apatia.

Os esforços da reação para por fim às greves e ao movimento operário de massas tem culminado, geralmente, sempre e em todas as partes, no fracasso. A sociedade capitalista necessita um proletariado ativo, móvel e inteligente; não pode, portanto, ter o proletariado com os pés e mão atados por muito tempo. Por outro lado, a "propaganda pelos fatos" dos anarquistas tem demonstrado cada vez mais que o estado é muito mais rico em meios de destruição física e repressão mecânica que todos os grupos terroristas juntos.

Se assim é, o que acontece com a revolução? Fica negada ou impossibilitada? De maneira nenhuma. A revolução não é uma simples soma de meios mecânicos. A revolução somente pode surgir da intensificação da luta de classes, sua vitória e garantida somente pela função social do proletariado. A greve política de massas, a insurreição armada, a conquista do poder estatal; tudo está determinado pelo grau de desenvolvimento da produção, a alienação das forças de classe, o peso social do proletariado e, por último, pela composição social do exército, posto que são as forças armadas o fator que decide o problema do poder no momento da revolução.

A social-democracia é bastante realista para não desconhecer a revolução que está surgindo das circunstâncias históricas atuais; pelo contrário, vai ao encontro da revolução com os olhos bem abertos. Porém, diferentemente dos anarquistas e em luta aberta com eles, a social-democracia rechaça todos os métodos e meios cujo objetivo seja forçar o desenvolvimento da sociedade artificialmente e substituir a insuficiente força revolucionária do proletariado com preparações químicas.

Antes de elevar-se à categoria de método para a luta política, o terrorismo faz sua aparição sob a forma de ato individual de vingança. Assim foi na Rússia, pátria do terrorismo. O açoitamento dos presos políticos levaram Vera Zasulich a expressar o sentimento de indignação geral com um atentado contra o general Trepov. Seu exemplo repercutiu entre a intelectualidade revolucionária, desprovidas do apoio das massas. O que começou como um ato de vingança perpetrado em forma inconsciente foi elevado a todo um sistema em 1879-1881. As ondas de atentados anarquistas na Europa Ocidental e América do Norte sempre se produzem depois de alguma atrocidade cometida pelo governo: fuzilamentos de grevistas ou execuções de opositores políticos. A fonte psicológica mais importante do terrorismo é sempre o sentimento de vingança que busca uma válvula de escape.

Não há necessidade de insistir que a social-democracia nada tem a ver com esses moralistas a soldo, que, em resposta a qualquer ato terrorista, falam somente do "valor absoluto" da vida humana. São os mesmos que em outras ocasiões, em nome de outros valores absolutos, por exemplo, a honra nacional ou o prestígio do monarca estão dispostos a levar milhões de pessoas ao inferno da guerra. Hoje, seu herói nacional é o ministro que dá a ordem de abrir fogo contra os operários desarmados, em nome do sagrado direito à propriedade privada; amanhã, quando a mão desesperada do operário desempregado cerre o punho ou se apodere de uma arma, falarão sandices sobre o inadmissível que é a violência em qualquer de suas formas.

Digam o que digam os eunucos e fariseus morais, o sentimento de vingança tem seus direitos. Fala muito bem a favor da moral da classe operária a não contemplação indiferente do que ocorre neste, o melhor dos mundos possíveis. Não extinguir o insatisfeito desejo proletário de vingança, mas, pelo contrário, avivá-lo uma e outra vez, aprofundá-lo, dirigi-lo contra a verdadeira causa da injustiça e a baixeza humanas: essa é a tarefa da social-democracia.

Nos opomos aos atentados terroristas porque a vingança individual não nos satisfaz. A conta que nos deve pagar o sistema capitalista é demasiado elevada para ser apresentada a um funcionário chamado ministro. Aprender a considerar os crimes contra a humanidade, todas as humilhações a que se vêem submetidos o corpo e o espírito humanos como excrescências e expressões do sistema social imperante, para empenhar todas nossas energias em uma luta coletiva contra este sistema: essa é a causa na qual o ardente desejo de vingança pode encontrar sua maior satisfação moral.
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domingo, 26 de agosto de 2018

Dissertação: A teoria crítica de Herbert Marcuse e o engajamento

 
Resumo: A presente pesquisa tem o objetivo de analisar a perspectiva específica de engajamento que nasce da teoria crítica de Herbert Marcuse. O filósofo desenvolve uma concepção de dialética e de revolução, partindo de um viés marxista, com desdobramentos teóricos importantes sobre os caminhos emancipatórios para a transformação social. A emancipação, em sua imbricada relação com o conhecimento, foi configurada por Marx de uma maneira superadora em relação ao programa moderno do iluminismo, originando um sentido particular de crítica pautada na noção de práxis. Esta perspectiva é fulcral para a elaboração deste trabalho na medida em que nos orienta para uma nova compreensão de teoria que se vincula ao engajamento. Dentro deste trilho, o pensamento de Marcuse tem sua contribuição justificada ao pautar o estreito laço entre filosofia e política, teoria e prática, auxiliando-nos na difícil compreensão da dialética presente na categoria de práxis. Dessa forma, o exame da questão do engajamento em Marcuse nos permite avaliar dois aspectos principais. Primeiramente, sua interpretação específica de Marx, permitindo-nos melhor situar seu pensamento tanto na tradição marxista, como na história da filosofia. O outro aspecto é que o percurso de análise aqui traçado - ao caracterizar traços fundamentais sobre a relação entre engajamento e história por um ponto de vista marxista -, abre espaço para um enfoque particular acerca da teoria crítica de Marcuse, permitindo um balanço crítico de sua teoria no que tange aos desdobramentos práticos que surgem de sua reflexão crítica específica.

Palavras-chave: Herbert Marcuse. Engajamento. Karl Marx. Práxis. Teoria Crítica.

Abstract: This current research aims to analyze the specific perspective of engagement born from the critical theory of Herbert Marcuse. The philosopher develops a conception of dialectic and revolution, from a Marxist view, with important theoretical developments on the emancipation paths towards social transformation. The emancipation, in their intertwined relationship with knowledge, was configured by Marx which a surpassing way compared to modern program of the Enlightenment, giving a particular sense of criticism guided by the notion of praxis. This perspective is central to the development of this work in that it guides us to a new understanding of theory that links to the engagement. Within this track, the thinking of Marcuse has its contribution justified to abide the close link between philosophy and politics, theory and practice, helping us in the difficult understanding of dialectic present in the category of praxis. Thus, examining the issue of engagement in Marcuse allows us to evaluate two main aspects. First, your particular interpretation of Marx, allowing us to better situate your thinking as in the Marxist tradition as in the history of philosophy. The other aspect is that the route of analysis outlined here - to characterize key features of the relationship between engagement and history for a Marxist point of view - makes room for a particular focus approach about Marcuse's critical theory, allowing a critical assessment of your theory regarding the practical consequences that arise from your specific critical reflection.

Keywords:
Herbert Marcuse. Engagement. Karl Marx. Praxis. CriticalTheory.


Arquivo em PDF

GOMBI, Vivian Batista. A teoria crítica de Herbert Marcuse e o engajamento: os percalços na articulação teórica e prática. Orientador: Robespierre de Oliveira. Dissertação de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Filosofia, UEM, Maringá, 2014, 179 f.
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domingo, 19 de agosto de 2018

Artigo: Edmund Burke e a gênese do conservadorismo


Resumo: O artigo procura recuperar o conteúdo das ideias políticas e das análises de Burke sobre o processo revolucionário na França. Através de uma revisão bibliográfica, destaca as principais posições do fundador do conservadorismo. O objetivo consiste em reconstruir a estrutura originária do conservadorismo como uma das ideologias conservadoras surgidas no período moderno.

Palavras-chave: Conservadorismo. Edmund Burke. Revolução.

Abstract: In the article it is sought to recover the content of Burke’s political ideas and analyses about the French revolutionary process. By means of a bibliography review, it highlights the main positions of the founder of the conservatism. The aim is to rebuild the original structure of the conservatism as a conservative ideology which emerged in the modern period.

Keywords:
Conservatism. Edmund Burke. Revolution.


Artigo em PDF

SOUZA, Jamerson Murillo Anunciação de. Edmund Burke a gênese do conservadorismo. In: Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 126, p. 360-377, maio/ago. 2016.
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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Trecho: Dogmáticos, relativistas e agnósticos girando de forma binário-metafísica



por György Lukács

O método dialético formula essa questão da maneira seguinte: como a relatividade do conhecimento - das leis, teoremas etc. - pode constituir um elemento necessário, inelutável, do absoluto? Como ocorre que a relatividade do conhecimento não destrói a objetividade das leis e dos teoremas, assim como a objetividade e a permeabilidade ao conhecimento do mundo exterior?

Somente a dialética pode fornecer-nos a resposta a essa questão. Para todo pensamento mecanicista, metafísico ou atolado na lógica formal, a verdade não pode ser senão absoluta ou relativa. Não há transição: é preciso escolher entre os dois. O materialismo não-dialético não escapa também a essa alternativa. Ora, o relativismo e, com ele, o agnosticismo terminaram necessariamente por impor-se ao pensamento antidialético moderno porque a evolução das ciências e a evolução da própria vida impõe-nos a todo momento novas provas da relatividade dos fenômenos, assim como o conhecimento que temos deles.

A questão que Lenin põe, em presença da crise da física moderna e da falência do materialismo não-dialético, tem portanto um sentido bem mais profundo e mais geral que a ocasião que lhe serve de pretexto, Comentando a crise da física moderna, Lenin não se limita a fazer o processo do materialismo não-dialético, mas sublinha que o idealismo atual é incapaz de assimilar os fatos novos trazidos à luz da evolução da ciência. Só a forma de sua falência é particular, porque resulta numa ideologia relativista, que aliás se afirmará ao longo da e evolução do pensamento moderno. A título de exemplo, bastará evocar o papel da probabilidade no existencialismo francês.


À questão assim posta por Lenin, Hegel tinha já dado uma resposta dialética, declarando que o relativo era um componente, mas somente uma componente, da dialética. Em relação à totalidade, não se chega à negação da verdade objetiva, mas à definição histórica e gnosiológica da aproximação da verdade. Eis como Lenin expõe esse princípio:


Para o materialismo moderno, isto é, para o marxismo, somente os limites da aproximação da verdade objetiva são historicamente determinados, enquanto que a existência dessa verdade mesma é absoluta, tanto quanto nosso progresso em direção a ela... O que é historicamente determinado é a data e as circunstâncias da conclusão de nosso conhecimento da essência das coisas... mas o fato de que toda descoberta de tal natureza é um progresso do "conhecimento absolutamente objetivo", é ele mesmo absoluto. Em suma, toda ideologia é historicamente determinada, mas é absoluto que toda ideologia científica corresponde uma verdade objetiva, isto é, um elemento da natureza absoluta. Objetar-me sem dúvida que essa distinção entre verdade relativa e verdade absoluta é bem vaga. Responderei a essa objeção dizendo que minha distinção é suficientemente vaga para impedir a transformação da ciência em dogma no sentido pejorativo da palavra, isto é, em uma coisa morta, rígida, petrificada, mas que é ao mesmo tempo suficientemente nítida para traçar, nítida e irrevogavelmente, a fronteira entre o fideísmo e o agnosticismo de um lafo, o idealismo filosófico e os sofismas dos discípulos de Kant e de Hume, de outro.

 
(LUKÁCS, G. Existencialismo ou marxismo? Trad. José Carlos Bruni. São Paulo: Ciências Humanas, 1979, p. 223-225).
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terça-feira, 7 de agosto de 2018

Trecho: O ateísmo religioso dos niilistas secularizados



por Ranieri Carli

Não haveria em um burguês laico como Schopenhauer a defesa da mística religiosa. Em seu tempo, Schopenhauer nunca pretendeu defender a mística do cristianismo feudal como fizera Schelling; o seu ponto de vista é de uma burguesia secularizada. Isso explica porque a crise da religião não levou Schopenhauer a defendê-la, mas senão encontrar para ela um substituto. Lukács argumenta que o filósofo irracionalista constata a falência dos mitos tradicionais ligados à religião; entretanto, para não abstrair desse movimento uma concessão ao materialismo, apresenta o “Nada” como substituto para a religiosidade, para aqueles que não mais se apegam às crenças tradicionais e procuram uma “nova religião”. Em face da crise das religiões, cria-se um suplente: o “nada” absoluto, uma espécie de Cosmos. Eliminando a noção de Deus de uma “maneira descente”, isto é, anti-materialista, Schopenhauer cria a religiosidade sem Deus.

Trata-se do que Lukács chama de ateísmo religioso. Suprime-se a religião elevando o “nada” absoluto à condição de novo objeto de adoração. A abordagem aqui dada ao colapso religioso não é outra coisa além de uma saída irracionalista para um problema objetivo.

Desse ateísmo religioso procede a admiração de Schopenhauer não pelo catolicismo de seu tempo e sim pelas religiões orientais e pelo cristianismo primitivo, cujos preceitos visavam atingir uma “piedade cósmica”. [...].

Ao levarmos uma vida ascética, como demanda a moral hindu, não encontramos no fim o Nirvana hinduísta; o que nos espera em seu lugar é o nada, é o precipitar-se do alto do Himalaia. Para os resignados, “para aqueles que se converteram e aboliram a Vontade, [o que resta] é o nosso mundo atual, este mundo tão real com seus sóis e todo as as suas vias lácteas, que é o nada” (Schopenhauer). Assim termina o texto de O mundo como vontade e representação, pondo o “nada” no pedestal antes ocupado por Deus.

 
(CARLI, R. György Lukács e as raízes históricas da sociologia de Max Weber. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2013, p. 17-18).
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domingo, 5 de agosto de 2018

Artigo: Tendências do marxismo - “ontologia do ser social” e anti-engelsismo



Resumo: Este texto objetiva discutir a persistência de uma postura anti-Engels no seio do próprio marxismo, de início apenas procurando indicar essa postura ao longo do tempo para, em seguida, priorizar a análise do que aqui se considera uma tendência do marxismo, a saber, a chamada “ontologia do ser social”. Busca-se não fazer uma crítica em bloco dessa tendência do marxismo e, sim, indicar tensões existentes em seu interior e refletir sobre o modo específico como essa tendência contribui para alimentar uma postura de secundarização da obra de Engels e, por consequência, alimentar também possíveis leituras essencialistas do real a partir do próprio marxismo, de alguma maneira promovendo uma debilitação da concepção materialista dialética da história, cujos fundamentos resultam da obra conjunta de Marx e Engels em seu processo de análise do modo de produção capitalista.

Palavras-chave: Marxismo. Ontologia do ser social. Friedrich Engels.

Abstract: This paper discusses the persistence of an anti-Engels position within Marxism itself, at first just looking at this position over time to then prioritize analysis of what here is considered to be a tendency in Marxism, namely "the ontology of social being." This is not intended as a block criticism of this tendency in Marxism but, rather, an indication of the tensions within it and a reflection on the specific way in which this tendency helps push Engels' work into the background and, so, also fuels possibly essentialist readings of Marxism itself, in some way undermining the dialectical materialist conception of history, the foundations of which are the result of the work done together by Marx and Engels in their analysis of the capitalist mode of production.

Keywords: Marxism; Ontology of social being; Friedrich Engels.


SILVA, Romeu Adriano da. Tendências do marxismo:“ontologia do ser social” e anti-engelsismo. In: Revista HISTEDBR On-line, Campinas, nº 69, p. 311-335, set. 2016.
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domingo, 29 de julho de 2018

Tese: Contribuições para uma crítica ao pensamento político de Hannah Arendt.


Resumo: O objetivo central deste trabalho foi investigar as antinomias em que Hannah Arendt incorreu ao longo do seu complexo percurso teórico no campo do pensamento político. Dentre essas antinomias, destacamos suas críticas ao nazismo, que se nutrem de algumas fontes filosóficas similares às deste movimento; sua defesa da razão, que recusa em aspectos decisivos a racionalidade da história; sua apologia da revolução, que contém uma concepção aristocrática da participação política; e, por fim, numa pensadora tida como inclassificável, como suas ideias se enquadram, em essência, nos cânones do liberalismo político. Na análise deste percurso, que vai desde seus primeiros escritos até as vésperas d A vida do espírito, buscou-se aflorar, especialmente, o papel destacado que a obra de Karl Marx ocupa como objeto de crítica e de desenvolvimento das próprias posições de Hannah Arendt, em particular o caráter controverso e mesmo incorreto das análises que a autora efetua desta obra. Enfim, tentamos demonstrar que o conservadorismo de Hannah Arendt se adensou ao longo de suas formulações críticas em relação a Marx e, ao mesmo tempo, com o distanciamento da II Guerra mundial e o recrudescimento da Guerra fria.

Palavras-chave: Teoria política, Estado, Totalitarismo, Revolução

Abstract: The main scope of this study was to investigate the antinomies incurred by Hannah Arendt in her complex theoretical path in the field of political thought. Among these antinomies, we point out her criticism of Nazism, nourished by some philosophical sources similar to that movement; her defense of reason, which refuses, in some decisive aspects, the rationality of history; her apology of revolution, characterized by an aristocratic concept of political participation; at last, Being Hannah Arendt a thinker considered difficult to be classified, this study shows that, in essence, her ideas are connected to the canons of political liberalism. By analyzing her early writings until the eve of The life of the mind we tried to approach mainly the prominent role of Karl Marx s works as object of criticism. These critiques compelled her to develop her own positions, particularly the controversial and even incorrect analysis about Marx s works. Finally, we tried to evidence that the conservatism of Hannah Arendt was strengthened by her criticism of Marx and at the same time, by the fact that World War Second became a distant event, while there was an intensification of Cold War.

Keywords: Political theory, State, Totalitarianism, Revolution



GASPAR, Ronaldo F. S. Contribuições para uma crítica ao pensamento político de Hannah Arendt. Orientação: Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida. Tese de Doutorado em Ciências Sociais. PUC-SP, 2011.
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