sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

FAR-LEFT: O morenismo à deriva diante da vitória de Bolsonaro



por Thiago Rodrigues
Esquerda Diário/ 03/12/2018

Com diferentes nuances, todo o morenismo serviu de quinta roda para o avanço do autoritarismo judiciário. Com o apoio ao impeachment ou à Operação Lava Jato, se posicionaram ao lado das forças mais reacionárias, que com o apoio do imperialismo buscavam avançar num ataque sem precedentes às condições de vida das massas, num nível muito mais profundo e acelerado do que o próprio governo petista já se propunha.

O golpe institucional de 2016 e sua continuidade com a prisão arbitrária de Lula e a manipulação eleitoral que favoreceu a vitória de Jair Bolsonaro, foi um divisor de águas na esquerda brasileira. As organizações morenistas, que reivindicam a tradição do dirigente trotskista argentino Nahuel Moreno (PSTU além de MES, CST e Resistência, que fazem parte do PSOL, essa última vinda de uma ruptura recente com o PSTU e com uma evolução política distinta) perderam qualquer critério de classe para sua orientação e navegam os agitados mares da política nacional sem nenhuma bússola.

O que marca a política atual do morenismo brasileiro é o criminoso apoio ao golpe institucional (para uma visão mais completa da política do morenismo frente ao golpe institucional, ler aqui).

Com diferentes nuances, todo o morenismo serviu de quinta roda para o avanço do autoritarismo judiciário. Com o apoio ao impeachment ou à Operação Lava Jato, se posicionaram ao lado das forças mais reacionárias, que com o apoio do imperialismo buscavam avançar num ataque sem precedentes às condições de vida das massas, num nível muito mais profundo e acelerado do que o próprio governo petista já se propunha.

Uma capitulação aberta à opinião pública burguesa e à campanha permanente contra a corrupção petista, como se essa fosse quase monopólio do PT. O que estava de fundo nessa cruzada anti-petista da opinião pública burguesa nunca foi o combate à corrupção, mas deslegitimar não o que o PT tem de burguês, mas deslegitimá-lo como representação política (ainda que distorcida, nós sabemos), da classe trabalhadora. Assim o PSTU (e também a CST) levantou o "Fora Todos" que começaria pelo "Fora Dilma", mas nunca prosseguiu para nenhum outro. O MES se transformou no campeão da Lava Jato até o final e até adotou como lema nas eleições municipais de 2016 em Porto Alegre o “candidata de mãos-limpas” para Luciana Genro, uma referência explícita à operação italiana na qual se inspira Sérgio Moro.

Sua política pretendia o absurdo de que o debilitamento do PT, mesmo que fosse pelas mãos da direita, faria avançar o processo de experiência de massas com o PT e abriria espaço para a esquerda revolucionária. A realidade não demorou para desmentir essas ilusões. O autoritarismo judiciário, ao tirar Dilma, ao prender Lula, ao perseguir o PT, teve efeito contrário. Por um lado ajudou a que amplos setores da classe trabalhadora tirassem conclusões pela direita, e não pela esquerda, da sua experiência com o PT. Por outro lado, fortaleceu na visão de milhões de trabalhadores a ideia do PT como o principal partido de esquerda. O golpe institucional ao invés de debilitar o PT nesses setores, apenas o fortaleceu.

Frente a esse descalabro, cada setor morenista seguiu seu caminho em meio à confusão generalizada. O PSTU se dividiu em dois, e a maioria segue a mesma política de quinta roda do golpismo, sem tirar nenhuma conclusão do processo.

O MES avança por um caminho ultra pragmático. Já em 2016 reviu a posição de apoio ao impeachment na última hora passando a caracterizá-lo como golpe parlamentar. Uma definição que deixa de fora justamente o pilar da ofensiva autoritária que é o judiciário, que expressa sua recusa em reconhecer o caráter reacionário da Lava Jato e a posição pró-imperialista do juiz Sérgio Moro. Vão tentando abandonar suas posições golpistas e se colar na base petista, mas sem rever seu apoio ao judiciário, com definições como a de que a entrada de Moro no governo Bolsonaro "daria lugar a um processo de experiência com esse juiz", que seria menos pior do que “alguns dos marginais políticos que acompanham Bolsonaro”. Talvez sirva ao menos para que a direção do MES faça sua experiência com um juiz que está a serviço da entrega do Pré-Sal e de outros interesses imperialistas.


Resistência: rompendo com o golpismo para aderir ao petismo?

A Resistência se recusou a romper com a política golpista do PSTU antes ou durante o golpe institucional, ou mesmo vir a público com as suas posições, abandonando o combate público contra a opinião pública burguesa e a luta por uma orientação correta para a vanguarda num momento crucial da história do país.

A Resistência, que rompeu com o PSTU a partir do questionamento correto à política golpista do PSTU, não fez nenhum balanço profundo das posições morenistas que levaram ao descalabro de apoiar o golpe institucional, e deu um giro de 180 graus na sua política, passando do PSTU ao seguidismo ao PT.

Uma forma diferente de cometer o mesmo erro: apostar em setores de classe alheios aos trabalhadores para resolver as tarefas que seriam dos próprios trabalhadores. Ao invés de fazer seguidismo aos golpistas para debilitar o PT, agora fazem seguidismo ao PT para debilitar o golpismo.

É um avanço, sem dúvida, reconhecer a existência do golpe institucional e o caráter reacionário da Operação Lava Jato. Porém, um giro que não vai até o final no balanço teórico e estratégico do morenismo os leva a repetir um erro que é o oposto simétrico ao do PSTU, se diluindo na maioria do PSOL e numa política quase acrítica ao petismo.


A diluição de todos os morenistas na frente ampla petista

No seu ecletismo as organizações morenistas combinam o seguidismo ao golpismo da direita, mesmo que de forma mais aberta, como o PSTU e CST, ou de forma cada vez mais envergonhada como o MES. O que emparenta essas três organizações é que, de uma forma ou de outra, frente à vitória de Bolsonaro, aprofundam a adaptação ao petismo.

MES e Resistência estão participando mais uma vez acriticamente da Frente Democrática ou Frente Ampla do PT contra Bolsonaro. As figuras parlamentares do MES participaram dos atos petistas no segundo turno e dos dois atos #elenão em setembro (apoiados inclusive por setores burgueses), e buscam agora conformar um bloco parlamentar com o PT. Não se trata de um pouco mais de crítica ou um pouco menos de crítica ao PT. Uma política independente do petismo deveria mostrar a impotência estratégica da Frente Democrática e apontar a luta de classes e a frente única da classe trabalhadora como único caminho para enfrentar os ataques de Bolsonaro e seu governo, mas mesmo isso não basta. É preciso também uma orientação correta para os sindicatos petistas, que ajude a base desses sindicatos a pressionar suas direções a tomar medidas efetivas de luta e organização e que ajude a acelerar sua experiência com essas direções, disputando a política do conjunto do movimento.

Depois de ter apoiado o impeachment da direita mais reacionária, colocado a tarefa de "superação do PT" nas mãos da pró-imperialista Lava Jato e Sérgio Moro, e calado qualquer delimitação com as burocracias sindicais petistas, o PSTU conclui que o "Fora Todos" foi um sentimento que ajudou a eleger Bolsonaro.

Ainda que envergonhada, trata-se da confissão de que sua política desde 2015 ajudou a jogar água no moinho de Bolsonaro, do golpismo e da direita, pois os dois "Fora Todos" conviveram bem nas paredes da FIESP. Agora, frente à necessidade de enfrentar Bolsonaro, aplaude acriticamente as manobras da burocracia sindical da CUT e demais centrais, que não apenas freiam qualquer plano de luta, mas propõem uma "reforma da previdência alternativa", um verdadeiro escândalo.

Por um lado nega a demanda de liberdade para Lula, a principal referência política do PT, o que é na pratica uma negação de uma frente única real (na luta de classes, para objetivos práticos de ação, a verdadeira acepção da frente única na concepção marxista) com setores da base petista. A posição do PSTU se torna ainda mais absurda, na medida em que não se diferencia da política das direções sindicais petistas para combater a reforma da previdência – lembrando que o elemento fundante da tática de frente única deveria ser a superação, na experiência concreta, das direções reformistas. Na prática acaba embelezando as direções petistas e, pela via da Conlutas, aderindo ao chamado capitulador e divisionista das centrais sindicais de fazer uma campanha por uma reforma da previdência distinta da que o governo Temer propôs e que Bolsonaro pretende aprofundar.

Um dos argumentos dos morenistas do MES, PSTU e CST, que buscam retroceder das suas posições anteriores sem nenhum balanço, é a importância do combate à corrupção e de que a esquerda não deixe essa bandeira nas mãos da direita. Para isso, de uma forma ou de outra terminam exigindo da própria justiça golpista que leve a luta contra a corrupção até o final, e ao fazer isso entregam a bandeira da corrupção e também sua independência programática para a direita contra a qual supostamente estariam disputando.

O combate à corrupção de uma perspectiva de classe e revolucionária tem que apontar não só contra a casta política, mas também judicial e militar. Com um programa que combine o fim de todos os privilégios de casta, o fim da justiça militar, o julgamento por júri popular de todos os crimes de corrupção e, nas conjunturas que antecederam a vitória eleitoral de Bolsonaro, a luta por uma assembleia constituinte para enfrentar o conjunto da casta política podre.

É preciso que essas organizações revejam criticamente sua estratégia desde o golpe institucional. De todos os zigue-zagues que o MES tenta para abrir diálogo com a base petista o que não muda é seu amor pelo judiciário. Muito menos o chamado a uma unidade acrítica com as centrais sindicais, mantendo todas as posições golpistas, como faz o PSTU, oferece uma política independente da Frente Democrática. Também um giro de 180 graus como fez a Resistência, sem rever as bases teóricas e estratégicas dos erros do PSTU, pode só conduzir a uma política de diluição no petismo.
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terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Vídeo: Existe consumo ético sob o capitalismo?



por Kenny Alves

A bandeira do "consumo ético" - do "consumidor com responsabilidade social" - é agitada por alguns anticapitalistas românticos. Há boas intenções e ativismo ambiental nessa pauta, porém, temos que olhar a totalidade e se perguntar: existe consumo ético dentro do contexto do mundo burguês?
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Sobre política, distração e destruição



por Silvio Almeida

O atual governo tem três núcleos:

1. O ideológico-diversionista. Serve apenas para manter a moral da “tropa” em alta, dando representatividade e acomodação psicológica a quem realmente acredita que o Brasil é socialista, que existe ideologia de gênero ou que a terra é plana. Serve também para causar indignação e tristeza nos “progressistas” e, assim, desviar a atenção das questões centrais manejadas pelos núcleos 2 e, especialmente, pelo 3. Pode também ser utilizado para criar bodes expiatórios: se algo der errado em qualquer setor dir-se-á que foi porque não houve “pulso” para combater a ameaça vermelha, os defensores dos direitos humanos ou os apologistas da ideologia de gênero. Basta trocar por outro mais moderado ou ainda mais alucinado, a depender das circunstâncias. Por mais que haja oportunismo, é importante que os recrutas desse núcleo acreditem nas coisas que dizem. É o exército de Brancaleone, mas causará muitos estragos.

2. O policial-jurídico-militar. Aqui não tem brincadeira e nem folclore. Acabou o circo. Gente profissional, que sabe operar a máquina repressiva. Vai garantir a materialidade das loucuras do núcleo 1 eliminando os críticos e dando corpo aos “inimigos da pátria”, provavelmente por meio do processo penal. Mas também irá este núcleo abrir espaço para a concretização das medidas no núcleo 3. Aqui não tem arminha com o dedo. É arma de verdade. É cadeia. É destruição física e moral.

3. Por fim, o núcleo econômico. Aqui está o nervo. Aqui a terra é redonda; não tem fala contra a globalização; ninguém acredita que exista socialismo no horizonte. Aqui a turma estuda, tem PHD e já leu Marx. Aqui “dinheiro não fede”, podendo vir dos EUA, da China ou da Rússia. Os direitos trabalhistas, a previdência, a assistência social, a saúde e a educação irão para o vinagre a partir daqui e não pelas mãos da turma do “menino veste azul e menina veste rosa” (que baita distração, hein?). Daqui vem a ordem para por agrotóxico na comida, retirar terra de índio e quilombola, afrouxar licenciamento ambiental e garantir o sequestro dos bens públicos e do orçamento. Para esta turma, o resto é tudo lateral. Depois de feito o trabalho, será até possível o núcleo 2 pegar mais leve. Até essa coisa de direitos humanos pode voltar. E assim o núcleo 1 se torna dispensável. Depois que tudo for (des)feito, pode vir uma pessoa “sensata”, um liberal, uma versão made in Brazil do francês Macron para reestabelecer a “racionalidade”, a “democracia” e o “estado de direito”.

P.S. Edit para evitar incompreensões: toda ideologia é “distração; é próprio da ideologia distrair. E são essas distrações que matam pessoas e destroem vidas. Nesse sentido, o racismo é a “distração” necessária do colonialismo e da desigualdade; a bobagem dita sobre a “ideologia de gênero” é a distração do patriarcado e do domínio masculino, que só o feminismo pode quebrar. O sem sentido do combate ao “marxismo cultural” e o “escola sem partido” são a distrações para desmoralizar a crítica e a apresentação de alternativas políticas. Para dominar a economia é fundamental que se exerça poder sobre os corpos, sobre as identidades, sobre o gênero e a sexualidade. É necessário que alguém diga o que você é para a economia funcionar. Isso implica que a ideologia mata e deve ser capaz de matar, e para tanto existe o núcleo 2. Esse texto, portanto, é simplesmente para chamar a atenção sobre o que NÃO está sendo dito e não sobre o que está sendo vocalizado.

*Professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Presidente do Instituto Luís Gama
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segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Artigo: Comentário sobre o conceito de "populismo" de Ernesto Laclau



Sobre a teoria do populismo

por Lívia Cotrim

Comentário sobre o artigo “Populismo radical e processo bolivariano: o conceito de populismo de Ernesto Laclau e as análises da Venezuela contemporânea”, de Vicente N. S. Ribeiro

Constatando a presença do conceito de populismo ou neopopulismo para caracterizar governos latino-americanos recentes, Vicente N. S. Ribeiro se propõe uma dupla tarefa: analisar a teoria do populismo desenvolvida por Ernesto Laclau e a utilização dela na abordagem da história venezuelana recente. Não resta dúvida quanto à importância do esforço por compreender o processo venezuelano; empenhado nele, o autor toca em diversas questões que mereceriam uma discussão detalhada. Dadas as limitações de espaço, entretanto, as observações que se seguem se concentrarão no debate sobre a teoria do populismo 1.

Buscando identificar as eventuais contribuições da abordagem de Ernesto Laclau, Ribeiro destaca inicialmente as diferenças entre esta e as presentes tanto nos “grandes meios de comunicação”, como nas “análises acadêmicas mais reconhecidas no Brasil” a respeito do populismo, como sejam as de Francisco Weffort e Octávio Ianni, objeto da crítica recente de Jorge Ferreira e Daniel Aarão Reis Filho. Entretanto, estudos anteriores e bastante abrangentes da teoria do populismo possibilitam problematizar aquela distinção, trazendo à luz elementos compartilhados por aquelas análises, mais reconhecidas e a de Laclau, dos quais o mais evidente é a convicção da existência efetiva do populismo, embora diversamente interpretado.

Desde fins da década de 1970, José Chasin 2 alerta para a necessidade de submeter à análise crítica a teoria do populismo, ao lado das demais vertentes teóricas do que denominou analítica paulista. Em artigo de 1989, Chasin traça os contornos e debilidades das teorias do populismo, autoritarismo, dependência e marginalidade, destacando os óbices que impuseram à compreensão da história brasileira e o peso político que ainda mantinham, indicando as determinações sociais de seu acolhimento por intelectuais e militantes das esquerdas. Com posições teóricas distintas, também na década de 80 Rubens Barbosa Filho 3 empenhou-se no exame do conceito de populismo, bem como do de totalitarismo, buscando seus fundamentos teórico-ideológicos.

As críticas realizadas por ambos coincidem na identificação do populismo não como uma categoria 4 ou como um conceito que a reproduzisse de modo mais ou menos aproximado, mas como um modelo, idealmente construído por comparação com outros modelos, e a partir do qual partes da realidade são seletivamente apanhadas e conformadas. A seleção realizada, obedecendo não às conexões reais, mas aos contornos do conceito, põe para a análise um objeto inexistente, de sorte que o conceito de populismo e a teoria que lhe corresponde vedam o acesso à realidade que pretendem explicar, independentemente do quanto possam ser aperfeiçoados, refinados ou ampliados. Perdida a objetividade da história e a possibilidade de apreendê-la cientificamente, a ação política orientada por essa teorização apenas reitera seus próprios pressupostos.

A perda da objetividade pode ser identificada já no modo como Laclau se dispõe ao combate, em si pertinente e necessário, ao economicismo e ao que chama de reducionismo de classe, em busca de uma autonomia relativa e de uma especificidade das dimensões política e ideológica; para esse combate, busca suas armas não apenas em Gramsci (em particular o conceito de hegemonia), mas também em Althusser e na psicanálise de origem lacaniana, de cujos arsenais foi apanhado o conceito de interpelação 5. Dado o modo como o trava, tal combate redunda na assunção de uma posição politicista 6, característica comum às análises mais tradicionais pautadas pelo conceito de populismo. De fato, o politicismo é o ponto de partida da elaboração desse conceito, cujas origens teóricas remontam à teoria da sociedade de massas, elaborada na primeira metade do século XX por diversos pensadores estranhos ao marxismo, com o qual, no entanto, é posteriormente amalgamada, em porções diversas (no Brasil como nos demais países latino-americanos), redundando na dessubstanciação deste último, ainda quando a intenção fosse robustecê-lo 7.

Nesse sentido, vale destacar, dos amplos estudos apresentados por Chasin e Barbosa, um lineamento decisivo para a teoria do populismo e ressaltado no artigo de Ribeiro por suas ressonâncias na concepção de Laclau: a afirmação da liberal-democracia, ou melhor, do modelo de liberal-democracia, como um modelo paradigmático, como “destino desejável de toda sociedade e, teoricamente, como a referência capaz de iluminar outras formas de organização. Transforma-se num tipo ideal no mínimo curioso: além de formal, normativo”, que se transfigura num “dever ser”, de sorte que “vicia a realidade, adequando-a aos seus termos” 8. Por oposição a esse modelo será elaborado o conceito de totalitarismo, que “nada mais reflete do que o liberalismo com sinal trocado” 9, bem como o de populismo. Esta sua origem no universo do pensamento liberal condicionará seu desenvolvimento posterior, particularmente pondo a democracia como horizonte-limite.

Conforme o paradigma liberal, na democracia vigoram a lei, a razão e o indivíduo, garantidos pela diluição do poder entre os grupos que o disputam, enquanto, no totalitarismo, regeria a violência e o domínio do estado, monopolizado por um partido único, sobre o indivíduo, que é anulado. Vê-se que os traços que conformam os dois conceitos ideal-típicos são extraídos da esfera política, destituídos do conjunto das determinações que de fato os vinculam a modos de ser determinados.

Como ressalta Ribeiro, o entendimento do populismo como lógica política, como forma, permite identificar como tal o nazismo, fascismo, maoismo, peronismo etc. Esta elasticidade do conceito, derivada de seu caráter formal, se é o veículo que permite identificar populismos positivos, também reduz as possibilidades de apreensão do real, seja por esvaziá-lo seja, ainda mais, por colher dele apenas os elementos presentes numa forma abstrata, previamente construída, de sorte que, desconsiderada no seu plano próprio – o da atividade material – a forma ressurge no âmbito da consciência cognitiva. Repõe-se no conceito de populismo o que J. Chasin já mostrara para o conceito de totalitarismo 10: aparentando a capacidade de explicar fenômenos diversos (nesse caso, nazismo e comunismo, este último identificado à URSS e correlatos), apenas os reduz a um pequeno conjunto de traços que, em seu isolamento, identificam-se como comuns. De fato, essa abstração é bem delimitada: são apanhados elementos próprios da esfera política, descolada de suas raízes na produção e reprodução material, e particularmente desvinculada das classes sociais. A similaridade dos traços assim retidos é obtida pela perda de sua concretude, da síntese de múltiplas determinações que a constitui. O seccionamento reduz também as categorias da autoprodução e reprodução da vida a fator ou instância econômica, mais ou menos importante ou determinante. A justa preocupação em evitar o economicismo redunda em outra forma, tão ou mais grave, de reducionismo.

O seccionamento das esferas política e ideológica, às quais é assim conferida autonomia, transparece nas considerações de Laclau acerca do “povo”, entendido como categoria política constituída por interpelação discursiva. O conceito de interpelação, pelo peso que tem no pensamento de Laclau, mereceria um pouco mais de atenção. Presente em Althusser, a afirmação de que um sujeito se constitui pela interpelação da ideologia – base da discussão de Laclau sobre o povo e o populismo – desconsidera a prioridade do modo de existência objetivo dos indivíduos. Não se trata apenas de ênfase excessiva na esfera discursiva em detrimento da base social, como apontam Diane Raby e Carlos Vilas, mas de autonomização das esferas política e ideológica em relação à atividade prática, à produção e reprodução da vida material; em outros termos, trata-se de recusar a prioridade do ser social em relação à consciência, bem como a determinação social do pensamento 11.

Diretamente relacionados a essas questões, e em que pese a recusa da conotação a priori pejorativa, encontramos em Laclau outros lineamentos comuns às concepções preponderantes nas teorias do populismo. A própria afirmação de que os indivíduos são interpelados por um discurso, e assim constituídos como povo contraposto ao bloco no poder, ou às elites no poder, está presente, entre outros, em Francisco Weffort (que, aliás, também busca incorporar categorias trabalhadas por Gramsci, Althusser e Poulantzas). Como expõe Ribeiro, Laclau entende que tais interpelações populistas e democráticas emergem em períodos de crise da hegemonia do bloco no poder, crise caracterizada pela perda de eficácia dos instrumentos de mediação que o conectam a demandas que já não mais podem ser atendidas. Entre tais demandas frustradas se estabelece uma “teia de equivalências”, vale dizer, as demandas se identificam por sua irrealização, teia simbolizada por um “significante vazio”; completa o quadro de emersão do populismo a interpelação como povo das massas insatisfeitas, por um ou mais líderes, que encarnam essa identidade comum.

Também nas teorias mais tradicionais do populismo encontramos a crise de hegemonia posta na origem do suposto fenômeno, a identificação das massas com um ou mais líderes por fora do sistema vigente e contra ele, e a ampliação da participação política dos dominados. Os termos da análise são bastante semelhantes, ainda que se mantenha a troca de sinal: o que nas teorias tradicionais aparece como negativo, justamente pela não constituição dos indivíduos como classe, aparece em Laclau como positivo: em seu entender, é a existência do povo, em tensão com as classes, que pode permitir a transformação social.

A separação e autonomização das esferas ou instâncias da realidade abrem espaço para que, embora com argumentos distintos, tanto nas teorias tradicionais do populismo quanto na concepção de Laclau as classes, existentes no nível econômico, desapareçam nos níveis político ou ideológico. Pela via da consideração de que as classes “não têm nenhuma forma de existência necessária aos níveis ideológico e político”, e de que determinados elementos se repetem nos discursos de diferentes classes sociais, Laclau elimina a determinação de classe dos discursos e das ideologias – exclusão, de fato, convergente com os conceitos de interpelação discursiva, equivalência das demandas e significante vazio.

Esta abordagem dimensiona a defesa que faz Laclau da politização das demandas sociais e da mobilização popular, e sua crítica das posições conservadoras para as quais o ideal seria “uma esfera pública inteiramente dominada pela tecnocracia”. Defesa e crítica não ultrapassam os marcos da lógica do capital, e têm por horizonte máximo a democracia. A aplicação de seu conceito de populismo ao processo venezuelano explicita tais limites. Como expõe Ribeiro, ali a emergência do populismo decorreria da crise do sistema político e sua relação com a crise do modelo de distribuição, por via do estado, da renda oriunda da exploração petrolífera. A redução das parcelas dessa renda distribuídas à população deixa inatendidas as demandas, cujo acúmulo gera frustração em relação à institucionalidade; das insurgências militares destacam-se os líderes que se tornarão referência popular. Esse populismo dos dominados conteria um potencial revolucionário, o qual, de acordo com Ribeiro, teria começado a se realizar, desde 2001, com as medidas tomadas para aumentar a arrecadação fiscal, as quais afetam os interesses petroleiros, redundando na agudização das tensões entre setores dominantes e populares.

A análise assim apresentada do movimento popular e da liderança de Chávez trata a distribuição de renda descolada da produção, na contramão das indicações marxianas de que é esta que determina a primeira, quanto ao produto a ser distribuído, à forma da distribuição e, especialmente, à distribuição dos indivíduos na produção, de sorte que a participação na distribuição depende do modo de participação na produção. Independentizada, a esfera da distribuição passa a ser entendida como o lócus dos problemas e das soluções. As medidas voltadas ao aumento da arrecadação fiscal, contra as quais se batem os setores dominantes – medidas distributivas, certamente significativas, mas que deixam intocado o ordenamento produtivo – assumem, nesse raciocínio, caráter revolucionário.

O conceito de populismo, e os demais que fazem parte do mesmo quadro em que se move o raciocínio de Laclau, põem como meta de tal revolução a consecução da democracia, pela integração e equilíbrio relativos dos momentos vertical (canalização das demandas nos marcos institucionais) e horizontal (protesto social) da política, entre os quais sempre haverá tensão, como afirma o sociólogo argentino, postulando, assim, a eternidade da própria política.

Nas palavra de Laclau:

En el caso venezolano, la transición hacia una sociedad más justa y democrática requería el desplazamiento y la ruptura radical con una elite corrupta y desprestigiada, sin canales de comunicación política con la vasta mayoría de la población. Es decir que cualquier avance demandaba un cambio de régimen 12.

Os termos utilizados não deixam lugar a dúvidas: trata-se de alcançar uma transformação do regime político, pela ruptura com uma elite corrupta, a fim de alcançar uma sociedade mais justa e democrática – o primeiro termo relacionado à distribuição, o segundo à participação. É gritante a ausência de qualquer referência não somente às classes, como ao ordenamento produtivo específico do país, para não mencionar a crítica ao capital.

O acerto da conclusão a que chega Ribeiro ao final de seu artigo – a de que o termo populismo mais dificulta do que contribui – ecoa as limitações da teoria do populismo, não derivadas das especificidades presentes neste ou naquele pesquisador, mas, como mostram Chasin e Barbosa, intrínsecas ao próprio conceito, construído a partir de outros modelos (os de democracia e de totalitarismo, este já elaborado a partir daquele) e imputado à realidade. Nascido fora do campo marxista, e em contraposição à perspectiva de superação do capital, o conceito de populismo veda o acesso ao real, pondo para a análise um objeto inexistente, e reitera a questão que lhe deu origem como horizonte máximo da transformação possível, a democracia; não indaga, entretanto, suas condições de possibilidade, já que o politicismo que lhe é inerente obsta a apreensão das formas particulares de objetivação do capitalismo, no Brasil e nos demais países latino-americanos. Nessa ou em outras manifestações, o politicismo vem impedindo, ultimamente, a apreensão das novas formas objetivas de existência do capital, inclusive da forma que se consolidou nessa região.

Aparentando destacar elementos e relações específicos da esfera política, o politicismo de fato os deprime ao isolá-los das determinações que os constituem, assim como o economicismo deprime a esfera matrizadora da produção material ao reduzi-la a fator. Em ambos os casos, perde-se a conquista marxiana da apreensão dos homens como autoprodutores de si e de seu mundo, objetiva e subjetivamente, e a prospectiva da continuidade dessa autoconstrução pela superação do capital e da política 13.

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Notas:

1. Particularmente na segunda parte de seu texto, Ribeiro aflora temas relacionados ao nacionalismo, que, ao longo do século XX, teve “presença marcante, mas fôlego e alcance sempre temporários e restritos, acabando em todos os casos por se esgotar em ciclos mais ou menos rápidos e inconclusos, bem como por derrotas irreversíveis, quando não por desastres hediondos”, particularmente em sua forma política. Em sua forma econômica, vincula-se diretamente à temática do populismo. Tema sensível, especialmente por sua retomada, por segmentos que se propõem de esquerda, como antídoto à globalização, embora, nos dias que correm, “pensar a partir do nacionalismo é pensar não apenas a partir de forças extenuadas de uma perspectiva vencida, mas a partir de um cadáver, /.../ pois é pensar contra a lógica do irreversível momento histórico atual, é ser esquerda às avessas, não se guiar pelas possibilidades reais de futuro, mas a partir de uma lógica esgotada do passado, que no próprio passado se mostrou inviável e impossível” (J. Chasin, “Rota e prospectiva de um projeto marxista”, in Ensaios Ad Hominem 1 – Tomo III: Política. Santo André, Ad Hominem, 2000, p. 47-48).

2. J. Chasin, A Miséria Brasileira. 1964-1984: Do Golpe Militar à Crise Social, Santo André, Ad Hominem, 2000, em especial “A Sucessão na Crise e a Crise na Esquerda” (artigo publicado originalmente em 1989).

3. Rubem Barbosa Filho, Populismo. Uma Revisão Teórica, tese de doutoramento apresentada à Universidade Federal de Juiz de Fora.

4. “Do mesmo modo que em toda a ciência história ou social em geral, é preciso não esquecer /.../ que as categorias exprimem portanto formas de ser, determinações da existência”. K. Marx, Contribuição para a Crítica da Economia Política, Lisboa, Editorial Estampa, 1973, p. 235.

5 Foge ao escopo deste comentário averiguar em que medida as especificidades dessas três vertentes teóricas são respeitadas, mas o amálgama entre concepções tão distintas é suficiente para acender a dúvida, em especial no que se refere à integridade do pensamento gramsciano.

6. “Politicizar é tomar e compreender a totalidade do real exclusivamente pela sua dimensão política e, ao limite mais pobre, apenas de seu lado político-institucional”. De sorte que, “convertendo a totalidade estruturada e ordenada do real - complexo repleto de mediações - num bloco de matéria homogênea, além da falsificação intelectual praticada, o politicismo configura para a prática um objeto irreal /.../. Expulsa a economia da política ou, no mínimo, torna o processo econômico meramente paralelo ou derivado do andamento político, sem nunca considerá-los em seus contínuos e indissolúveis entrelaçamentos reais, e jamais admitindo o caráter ontologicamente fundante e matrizador do econômico em relação ao político”. J. Chasin, “Hasta Cuando? A Propósito das Eleições de Novembro”, in A Miséria Brasileira, op.cit., p. 123-124 (publicado originalmente em 1982).

7. De fato, as tentativas de completar o pensamento marxiano adicionando-lhe conceitos oriundos de outras matrizes teóricas, ou de recuperá-lo a partir de questões exteriores têm resultado na perda de sua revolução teórica.

8. Rubem Barbosa Filho, Populismo. Uma Revisão Teórica, op.cit., p. 4.

9. J. Chasin, “Sobre o Conceito de Totalitarismo”, in Ensaios Ad Hominem 1 – Tomo III: Política, op.cit., p. 70-90 (publicado originalmente em 1977).

10. Além do artigo de Chasin citado na nota anterior, ver também o trabalho de R. Barbosa, em particular o capítulo dedicado à análise desse conceito em Hanna Arendt.

11. Ver Louis Althusser, Aparelhos Ideológicos de Estado, Rio de Janeiro, Graal, 1998; Ester Vaismann, “Althusser: Ideologia e Aparelhos de Estado – Velhas e Novas Questões”, in Revista Projeto História, nº35, São Paulo, Educ, julho-dezembro de 2006; Ester Vaismann, “A Usina Onto-societária do Pensamento”, in Ensaios Ad Hominem 1 – Tomo I: Marxismo, Santo André, Ad Hominem, 1999; J. A. Giannotti, “Contra Althusser”, in Exercícios de Filosofia, São Paulo, Brasiliense/Cebrap, 1975; François Dosse, História do Estruturalismo, vol. 1: O Campo do Signo, São Paulo/Campinas, Ensaio/Ed. Unicamp, 1993.

12. Ernesto Laclau, “La Deriva Populista y la Centroizquierda Latinoamericana”, in Nueva Sociedad, nº 205, Buenos Aires, Friedrich Ebert Stiftung, outubro de 2006, p. 60.

13. K. Marx e F. Engels, A Ideologia Alemã, São Paulo, Boitempo, 2007; K. Marx, A Guerra Civil na França e Crítica ao Programa de Gotha, in Karl Marx e Friedrich Engels, Textos, vol. 1, São Paulo, Edições Sociais, 1975; J. Chasin, Marx – Estatuto Ontológico e Resolução Metodológica, São Paulo, Boitempo, 2009 e “A Determinação Ontonegativa da Politicidade”, in Ensaios Ad Hominem 1 – Tomo III: Política, op.cit.

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(COTRIM, L. Comentário sobre o artigo “Populismo radical e processo bolivariano: o conceito de populismo de Ernesto Laclau e as análises da Venezuela contemporânea”, de Vicente N. S. Ribeiro. In: Aedos, Revista da PPG-História da UFRGS, Nym. 6, vil. 3, Janeiro-Junho, 2010, p. 194-200)
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quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

ARTE REALISTA: Fake news


Sinopse: Companheiros, é hora de mamar nas tetas do governo. Mesmo se você for criança, afinal, agora a pedofilia vai ser legalizada. Saiba mais assistindo a esse vídeo enquanto seu filho brinca de boneca por influência da escola. (outubro/2018)

Fake news (farsa, Brasil, 2018)
Direção: Rodrigo Van der Put
Porta dos Fundos
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domingo, 16 de dezembro de 2018

Alguns pensamentos sobre Eric Voegelin, Christopher Hill e Norman Cohn



por Rodrigo Silva Do Ó
Blog

Eu li recentemente A Nova Ciência da Política, do Voegelin, que é recomendado pelos olavetes. Seria uma recomendação bizarra se eles fossem mesmo conservadores, mas perfeitamente compreensível, já que são tradicionalistas guénonistas disfarçados, já que o Voegelin é um autor contrarrevolucionário tradicionalista (eu fiquei com vontade de ver as posições políticas concretas dele, mas não consegui achar). Aliás, a leitura altamente seletiva de autores conservadores pelos olavetes por si só já mostra que eles têm um viés que ignora um monte de conservadores importantes (por exemplo, o Ortega y Gasset, ou o Raymond Aron), porque têm muito mais simpatia por autores tradicionalistas, ocultistas e de extrema direita.

O mais interessante, pra mim, são algumas semelhanças e diferenças com outros autores que estudaram as heresias desse período que vai da Baixa Idade média até o começo da modernidade. Deles, os que eu acho mais próximos do tema são o marxista Christopher Hill (eu li O Mundo de Cabeça para Baixo, sobre a revolução inglesa) e o conservador Norman Cohn (Na Senda do Milênio, sobre as heresias medievais). Acho que as diferenças entre eles correspondem a diferenças teóricas e políticas, e os dois ajudam a mostrar a artificialidade da construção histórica do Voegelin.

Não vou resumir aqui o livro (isso não é uma resenha, são alguns pensamentos), mas quero destacar três pontos pelos quais ele passa antes de chegar às caracterização da modernidade.

Eu gostei muito do livro, principalmente o começo. Aqui, ele vai falar de como se tornou possível uma nova ciência da política. E como se tornou? Ele diz que o formalismo positivista pôde ser superado, principalmente pela contribuição do Max Weber, que conseguiu formular uma sociologia da religião bem ampla. Então, pôde ser feito o trabalho de passar da análise formal de tipos de governo, sistemas eleitorais etc, para uma reflexão sobre as fontes de ordem na sociedade (que é o tema da obra principal do Voegelin, Ordem e História).
Heresia dos Flagelantes, século XIV

Sim, mas quais são as fontes, então? Ele faz uma crítica ao Weber: em todo o material imenso que ele recolheu, não tem um estudo sobre o cristianismo medieval. Justamente o que criou a concepção de ordem, para ele, racional, e superior às outras, porque levava em conta a alma humana.

Citando a ideologia tradicional chinesa sobre o Mandato do Céu, ele vai dizer que a ordem política depende de uma visão sobre a ordem cósmica. Aí entra o segundo ponto: ele vai fazer uma “história da alma”, que começa na filosofia grega, mas só se generaliza no cristianismo (esse tema das “sementes da verdade” na filosofia grega é importante na teologia católica). Com a descoberta da alma, o ser humano chega à sua essência, e a partir daí consegue criar uma sociedade conforme, que vai ser a civilização cristã.

Aí entra o terceiro ponto, que eu sempre achei um ponto cego do catolicismo: a gnose. O Voegelin mistura três coisas diferentes, e chama tudo de gnose: o milenarismo, ou seja a crença no fim do mundo iminente, a gnose propriamente dita, e o panteísmo.

Essas três vertentes existiram no cristianismo primitivo. Pra deixar claro, o que eu chamo de gnose aqui são as seitas que acreditam que o mundo material é uma prisão da alma, e que a salvação é ir para um mundo puramente espiritual. Na gnose, o mundo tanto pode representar um princípio maligno (dualismo, como por exemplo no maniqueísmo, que achava que a alma tinha sido criada por Deus, e o corpo, pelo Diabo), como pode ser produto de um Deus menor.

Esses autores, quando falam que o marxismo é uma forma de gnose, erram feio porque, do ponto de vista deles, o marxismo seria panteísmo materialista. A cabala, o sufismo e algumas formas de cristianismo e hinduísmo têm características panteístas, mas espiritualistas (o mundo material como uma emanação de Deus).

Já o nazismo, sim, teria traços gnósticos, como a necessidade de purificar o mundo e a própria visão da humanidade dividida em castas, em que só os superiores podem chegar à salvação.

Outra coisa muito diferente é o milenarismo. No cristianismo primitivo, ao lado das seitas gnósticas, existiam seitas milenaristas, como uma teologia totalmente diferente (e mais próxima da ortodoxia), como foi o caso do montanismo. O Tertuliano, que foi montanista, por exemplo, escreveu várias obras contra os gnósticos.

Pois bem, então o Voegelin (mas não só ele) vai misturar tudo e falar que a modernidade é gnóstica porque quer criar um paraíso na terra, e que, pra criar esse paraíso, vai ter que esmagar a alma humana, que tem a liberdade de escolher entre o bem e o mal. 

O próprio marxismo sempre viu no cristianismo primitivo e em algumas heresias uma tentativa de estabelecer o comunismo, essa tanto é a posição do Engels como do Kautsky, que escreveu As Fontes do Cristianismo, sobre isso. A direita católica, claro, vai inverter o argumento, e dizer que o marxismo é uma nova forma de heresia milenarista. Na academia, o Karl Manheim, no Ideologia e Utopia, deu “respeitabilidade” pra essa tese, e daí ela passou pra literatura anticomunista da época da guerra fria.

Diferente do Voegelin, tanto o Christopher Hill como o Norman Cohn vai dar ênfase ao aspecto prefigurativo do pensamento herético, sendo que o Hill vai apontar para as possibilidades revolucionárias que, só na época em que ele escreveu (anos 1970) teriam se tornado possíveis, e o Cohn vai colocar como um elemento irracional que impede uma luta gradual por reformas sociais.

Quem tá certo? Acho que a resposta tá nas omissões e distorções do Voegelin.

Se o Voegelin fosse consequente com a sua defesa de que o catolicismo medieval conseguiu criar uma ordem racional baseada na liberdade da alma humana, ele teria que rejeitar a modernidade em bloco, como fazem os integristas católicos.

Joaquim de Fiore
Só que não é essa a análise que ele faz. Ele vai pegar o místico franciscano do século XII Joaquim de Fiore, e colocar a interpretação da história em três eras (do Pai, do Filho e do Espírito Santo) como o paradigma de todas as visões progressistas. A Era do Pai é o Antigo Testamento, baseado na Lei, a do Filho é o Novo, baseado na Graça, e o Joaquim de Fiore anunciou a chegada iminente da Era do Espírito, baseada na liberdade absoluta, onde a igreja seria substituída pela comunhão direta com Deus.

O Cohn vai ver o esquema marxista comunismo primitivo-sociedade de classes-comunismo como uma transposição das três eras do Joaquim de Fiore (eu não gosto dessa interpretação; acho sim que existem tons cristãos nesse esquema trinitário que o Marx trouxe do Hegel, mas que o equivalente seria Paraíso-Queda-Novo Mundo, eu comecei a estudar as visões marxistas críticas à concepção de comunismo primitivo mais aceita justamente pra tentar arruinar esse esquema, e acho que a valorização da superioridade do capitalismo sobre as sociedades sem classes, e a crítica à ideia de proletariado como classe essencialmente revolucionária são parte dessa tarefa).

Já o Voegelin vai ver a própria ideia de modernidade como uma imanentização crescente da ideia da Era do Espírito Santo, e dizer que a modernidade é um tumor na civilização ocidental. As duas formas de gnose são a evolucionista e a radical, colocando então todas as correntes liberais na primeira categoria. Um Plínio Corrêa de Oliveira da vida diria o mesmo, só que imediatamente mostraria como o livre exame, a democracia e o socialismo são os resultados da destruição da ordem baseada em Deus. O Voegelin, então, vai dizer que o Reino Unido, os Estados Unidos e a França só conseguiram sobreviver como nações porque as suas respectivas revoluções aconteceram cedo o suficiente para que a sua essência cristã não fosse destruída, e que a Rússia e a Alemanha não tiveram a mesma felicidade. Desculpa muito esfarrapada, se a gente for levar em consideração a radicalidade da revolução americana nos seus princípios democráticos (pra não falar da força absoluta do protestantismo, com influência teísta e maçônica), e a radicalização política da revolução francesa, mesmo que a forma de república democrática com separação total entre Estado e igreja tenha demorado mais de um século pra se realizar. O único caso em que teve mesmo um compromisso foi o da revolução inglesa, com a revolução gloriosa, mesmo assim depois da fase extremamente radical e herética que o Hill documentou.

Durante todo o livro, ele vai discretamente tirando algumas conclusões políticas, ao refletir sobre os exemplos de como Santo Agostinho e Hobbes pensaram o combate às heresias. Para ele, quando o catolicismo se tornou a religião oficial do Império Romano, não deveria ter aceito que continuassem os cultos pagãos e, no outro extremo, o Hobbes corretamente, segundo ele, reconheceu o papel da religião estabelecida para a manutenção da ordem, mas não ficou indiferente ao conteúdo de verdade da religião, como se pudesse tanto ser o cristianismo como qualquer outra. Para o Voegelin, os dois não entenderam que deve haver um equilíbrio, em que a religião permite uma ordem civil separada, enquanto tem a liberdade de reprimir as heresias (ele defende que os gnósticos tem que ser censurados, se baseando num escrito de Hooker contra os puritanos). Mais uma vez, eu vejo aí uma acomodação com a ordem política moderna, com a projeção para o passado de um modelo de separação entre Estado e igreja que só surgiu no século XIX.
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sábado, 8 de setembro de 2018

FAR-LEFT: Por que os marxistas se opõem ao terrorismo individual?



por Leon Trotsky

MIA
 
Nossos inimigos de classe têm o costume de queixar-se de nosso terrorismo. Eles gostariam de por o rótulo de terrorismo a todas as ações do proletariado dirigidas contra os interesses do inimigo de classe. Para eles, o método principal de terrorismo é a greve. A ameaça de uma greve, a organização de piquetes de greve, o boicote econômico a um patrão super explorador, o boicote moral a um traidor de nossas próprias filas: tudo isso e muito mais é qualificado de terrorismo. Se por terrorismo se entende qualquer coisa que atemorize o prejudique o inimigo, então a luta de classes não é outra coisa senão terrorismo. E o único que resta considerar é se os políticos burgueses têm o direito de proclamar sua indignação moral acerca do terrorismo proletário, quando todo seu aparato estatal, com suas leis, polícia e exército não é senão um instrumento do terror capitalista.

No entanto, devemos assinalar que quando nos jogam na cara o terrorismo, tratam, ainda que nem sempre de forma consciente, de dar-lhe a esta palavra uma sentido mais estrito, menos indireto. Por exemplo, a destruição das máquinas por parte dos trabalhadores é terrorismo neste sentido estrito do termo. A morte de um patrão, a ameaça de incendiar uma fábrica ou matar o seu dono, o atentado a mão armada contra um ministro: todos estes são atos terroristas no sentido estrito do termo. Não obstante, qualquer um que conheça a verdadeira natureza da social-democracia internacional deve saber que ela tem se colocado em oposição da maneira mais irreconciliável a esta classe de terrorismo.

Por que? O "terror" mediante a ameaça ou a ação grevista é patrimônio dos operários industriais ou agrícolas. O significado social de uma greve depende, em primeiro lugar, do tamanho da empresa ou ramo da indústria afetada; em segundo lugar, do grau de organização, disciplina e disposição para a ação dos operários que participam. Isto é certo tanto em uma greve econômica ou política. Segue sendo o método de luta que surge diretamente do lugar que na sociedade moderna ocupa o proletariado no processo de produção.

Para desenvolver-se, o sistema capitalista requer uma superestrutura parlamentar. Porém ao não poder confinar o proletariado em um gueto político, deve permitir cedo ou tarde, sua participação no parlamento. Nas eleições se expressa o caráter de massa do proletariado e seu nível de desenvolvimento político, qualidades determinadas por seu papel social, sobretudo por seu papel na produção.

Do mesmo modo que numa greve, nas eleições o método, objetivos e resultado da luta dependem do papel social e da força do proletariado como classe. Somente os operários podem fazer greve. Os artesãos arruinados pela fábrica, os camponeses cuja água envenena a fábrica, os lumpen-proletários em busca de um bom botim, podem destruir as máquinas, incendiar a fábrica ou assassinar o dono.

Somente a classe operária consciente e organizada pode enviar uma forte representação ao parlamento para cuidar dos interesses proletários. No entanto, para assassinar a um funcionário do governo não é necessário contar com as massas organizadas. A receita para fabricar explosivos é acessível a todo o mundo, e qualquer um pode conseguir uma pistola.

No primeiro caso, há uma luta social, cujos métodos e vias se desprendem da natureza da ordem social imperante; no segundo, uma reação puramente mecânica que é idêntica em todo o mundo, desde a China até a França: assassinatos, explosões, etc., porém totalmente inócua em relação ao sistema social.

Uma greve, inclusive uma modesta, tem conseqüências sociais: fortalecimento da auto-confiança dos operários, crescimento do sindicato, e, com não pouca freqüência, uma melhora na tecnologia produtiva. O assassinato do dono da fábrica provoca apenas efeitos policiais, ou uma troca de proprietário desprovida de toda significação social.

Para que um atentado terrorista, mesmo um que obtenha "êxito", crie confusão na classe dominante, depende da situação política concreta. Seja como for, a confusão terá vida curta; o estado capitalista não se baseia em ministros de estado e não é eliminado com o desaparecimento deles. As classes a que servem sempre encontrarão pessoas para substituí-los; o mecanismo permanece intacto e em funcionamento.

Todavia, a desordem que produz um atentado terrorista nas filas da classe operária é muito mais profunda. Se para alcançar os objetivos basta armar-se com uma pistola, para que serve esforçar-se na luta de classes? Se um pouco de pólvora e um pedaço de chumbo bastam para perfurar a cabeça de um inimigo, que necessidade há de organizar a classe? Se tem sentido aterrorizar os altos funcionários com o ruído das explosões, que necessidade há de um partido? Para que fazer passeatas, agitação de massas, eleições, se é tão fácil alvejar um ministro desde a galeria do parlamento?

Para nós o terror individual é inadmissível precisamente porque apequena o papel das massas em sua própria consciência, as faz aceitar sua impotência e volta seus olhos e esperanças para o grande vingador e libertador que algum dia virá cumprir sua missão.

Os profetas anarquistas da "propaganda pelos fatos" podem falar até pelos cotovelos sobre a influência estimulante que exercem os atos terroristas sobre as massas. As considerações teóricas e a experiência política demonstram o contrário. Quanto mais "efetivos" forem os atos terroristas, quanto maior for seu impacto, quanto mais se concentra a atenção das massas sobre eles, mais se reduz o interesse das massas por eles , mais se reduz o interesse das massas em organizar-se e educar-se.

Porém a fumaça da explosão se dissipa, o pânico desaparece, um sucessor ocupa o lugar do ministro assassinado, a vida volta à sua velha rotina, a roda da exploração capitalista gira como antes: só a repressão policial se torna mais selvagem e aberta. O resultado é que o lugar das esperanças renovadas e da excitação artificialmente provocada vem a ser ocupado pela desilusão e a apatia.

Os esforços da reação para por fim às greves e ao movimento operário de massas tem culminado, geralmente, sempre e em todas as partes, no fracasso. A sociedade capitalista necessita um proletariado ativo, móvel e inteligente; não pode, portanto, ter o proletariado com os pés e mão atados por muito tempo. Por outro lado, a "propaganda pelos fatos" dos anarquistas tem demonstrado cada vez mais que o estado é muito mais rico em meios de destruição física e repressão mecânica que todos os grupos terroristas juntos.

Se assim é, o que acontece com a revolução? Fica negada ou impossibilitada? De maneira nenhuma. A revolução não é uma simples soma de meios mecânicos. A revolução somente pode surgir da intensificação da luta de classes, sua vitória e garantida somente pela função social do proletariado. A greve política de massas, a insurreição armada, a conquista do poder estatal; tudo está determinado pelo grau de desenvolvimento da produção, a alienação das forças de classe, o peso social do proletariado e, por último, pela composição social do exército, posto que são as forças armadas o fator que decide o problema do poder no momento da revolução.

A social-democracia é bastante realista para não desconhecer a revolução que está surgindo das circunstâncias históricas atuais; pelo contrário, vai ao encontro da revolução com os olhos bem abertos. Porém, diferentemente dos anarquistas e em luta aberta com eles, a social-democracia rechaça todos os métodos e meios cujo objetivo seja forçar o desenvolvimento da sociedade artificialmente e substituir a insuficiente força revolucionária do proletariado com preparações químicas.

Antes de elevar-se à categoria de método para a luta política, o terrorismo faz sua aparição sob a forma de ato individual de vingança. Assim foi na Rússia, pátria do terrorismo. O açoitamento dos presos políticos levaram Vera Zasulich a expressar o sentimento de indignação geral com um atentado contra o general Trepov. Seu exemplo repercutiu entre a intelectualidade revolucionária, desprovidas do apoio das massas. O que começou como um ato de vingança perpetrado em forma inconsciente foi elevado a todo um sistema em 1879-1881. As ondas de atentados anarquistas na Europa Ocidental e América do Norte sempre se produzem depois de alguma atrocidade cometida pelo governo: fuzilamentos de grevistas ou execuções de opositores políticos. A fonte psicológica mais importante do terrorismo é sempre o sentimento de vingança que busca uma válvula de escape.

Não há necessidade de insistir que a social-democracia nada tem a ver com esses moralistas a soldo, que, em resposta a qualquer ato terrorista, falam somente do "valor absoluto" da vida humana. São os mesmos que em outras ocasiões, em nome de outros valores absolutos, por exemplo, a honra nacional ou o prestígio do monarca estão dispostos a levar milhões de pessoas ao inferno da guerra. Hoje, seu herói nacional é o ministro que dá a ordem de abrir fogo contra os operários desarmados, em nome do sagrado direito à propriedade privada; amanhã, quando a mão desesperada do operário desempregado cerre o punho ou se apodere de uma arma, falarão sandices sobre o inadmissível que é a violência em qualquer de suas formas.

Digam o que digam os eunucos e fariseus morais, o sentimento de vingança tem seus direitos. Fala muito bem a favor da moral da classe operária a não contemplação indiferente do que ocorre neste, o melhor dos mundos possíveis. Não extinguir o insatisfeito desejo proletário de vingança, mas, pelo contrário, avivá-lo uma e outra vez, aprofundá-lo, dirigi-lo contra a verdadeira causa da injustiça e a baixeza humanas: essa é a tarefa da social-democracia.

Nos opomos aos atentados terroristas porque a vingança individual não nos satisfaz. A conta que nos deve pagar o sistema capitalista é demasiado elevada para ser apresentada a um funcionário chamado ministro. Aprender a considerar os crimes contra a humanidade, todas as humilhações a que se vêem submetidos o corpo e o espírito humanos como excrescências e expressões do sistema social imperante, para empenhar todas nossas energias em uma luta coletiva contra este sistema: essa é a causa na qual o ardente desejo de vingança pode encontrar sua maior satisfação moral.
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