terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Trechos: Subjetivismo e culturalismo no marxismo heterodoxo

Subjectivism and culturalism in heterodox marxism


por Carlos Nelson Coutinho

Pensadores tão diversos entre si como Plekhanov e Gramsci, Ernst Bloch e Lucien Goldmann, o jovem Lukács e o velho Sartre, tiveram a comum tendência em suas tentativas de assimilar o marxismo, de reduzi-lo ao materialismo histórico, sem levar em consideração (ou ignorando ou rejeitando conscientemente) o materialismo dialético, ou seja, a teoria do conhecimento e a ontologia marxistas. Com isso, a própria concepção de história desses autores sofreu limitações e deformações. Em primeiro lugar, com a negação da gnosiologia dialético-materialista, da teoria do reflexo, todo o pensamento humano passou a ser encarado como "ideologia", como expressão não da objetividade real, mas de uma "subjetividade de classe" (psicologia social em Plekhanov, "visão do mundo" em Goldmann etc.). Essa corrente, negando a objetividade do pensamento, que se expressa na dialética leniniana da verdade absoluta e verdade relativa, terminava por cair num "sociologismo" ou num "historicismo" relativistas. Em tais pensadores, a análise marxista julgava esgotar sua tarefa quando indicava a gênese social do pensamento, sem estudá-lo em sua dimensão sistemática, imanente, ou seja, sem determinar-lhe a verdade ou falsidade objetivas.

E, em segundo lugar, reduzindo os problemas ontológicos a questões simplesmente antropológicas, tais marxistas não apenas negavam a dialética da natureza, como também deformavam - em sentido subjetivista - a legalidade específica da história humana. Esse subjetivismo aparece, em primeira instância, no modo pelo qual abordam a categoria central da ontologia marxista do ser social, ou seja, a práxis. Em vez de fundar a práxis no trabalho econômico (isto é, na relação ontologicamente primária entre o homem e a natureza, na qual revela-se claramente o laço entre causalidade e teleologia, que constitui a determinação objetiva da práxis humana em geral), os referidos marxistas fundavam-na unilateralmente no projeto subjetivo, no momento teleológico, terminando assim por enfraquecer ou dissolver inteiramente a causalidade e a racionalidades próprias da vida social. (Esse projeto é subjetivo mesmo quando, como no jovem Lukács, trata-se de uma subjetividade de classe.). Disso decorria, em suma, uma concepção fortemente subjetivista da história.


(COUTINHO, C. N. O estruturalismo e a miséria da razão. 2ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2010, p. 116-117).


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por Sérgio Lessa

Reduzir o trabalho ao trabalho abstrato, um equívoco levado ao extremo por teorizações como as do Grupo Krisis [Robert Kurz], conduz a uma de duas possibilidades. Ou se converte em uma recaída a uma concepção idealista, que cancela o papel central da objetivação (como veremos, a transformação teleologicamente orientada do real) no desenvolvimento histórico dos homens, passando do campo marxista para o hegelianismo ou o kantismo; ou então termina em uma concepção irracionalista que recusa a pergunta pelo fundamento último da existência social. Em qualquer dos casos, está sepultada a possibilidade da crítica radical, revolucionária, do mundo em que vivemos.


(LESSA, S. Mundo dos homens: trabalho e ser social. São Paulo: Boitempo, 2002, p. 32-33).

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Tese: As fontes heideggerianas do pensamento pós-moderno



Resumo: Esta tese questiona o pensamento pós-moderno – aqui tratado como uma agenda – e procura assinalar, dentre as suas possíveis apropriações filosóficas, a importância e o papel de Martin Heidegger na sua constituição. Mas o faz tomando como mediação o pensamento educacional brasileiro contemporâneo. Essa preocupação levou à hipótese de que, na noção de “superação da metafísica”, desenvolvida pelo chamado segundo Heidegger, configura-se uma ontologia antimaterialista de cuja aversão à objetividade decorre uma desqualificação do conhecimento racional, em especial da ciência. Esse é o núcleo central ao qual a agenda pós-moderna em geral e na educação presta seu tributo e, em vários aspectos, atualiza. A partir da contribuição de Georg Lukács, detectou-se que o ponto de convergência principal entre a agenda pós-moderna e o pensamento do segundo Heidegger está na ontologia hermenêutica, com a sua recusa da objetividade, a generalização do modelo hermenêutico para todo conhecimento (sintetizada pela máxima de que conhecer é interpretar) e o nexo entre ser e linguagem (o estatuto ontológico é conferido pela linguagem). Em termos de produção do conhecimento, há, na agenda pós-moderna, uma dinâmica que também ocorre em Heidegger: o em-si desaparece e toda objetividade se torna dependente do ser humano; neste caso, toda ontologia geral é diluída na ontologia do ser social. A dissolução da objetividade em elementos subjetivos não permite diferenciar a realidade dos modos de seu conhecimento. Desta forma, o status ontológico é dado pelo conhecer, o que, por sua vez, representa, de acordo com Lukács, a subsunção da ontologia à gnosiologia. O conhecer se transforma em uma atividade interpretativa que dispensa qualquer nexo com a objetividade. Apesar de alguns traços próprios, a agenda pós-moderna prolonga a desqualificação da ciência e do conhecimento explicativo presente no segundo Heidegger. A aversão à metafísica e o anúncio de um horizonte pós-metafísico em Heidegger também se preservam na agenda pós-moderna. No campo educacional, chega-se a encontrar a crítica à “metafísica da presença”, expressão eminentemente heideggeriana, e a se anunciar uma pedagogia pós-metafísica ou pós-crítica. A “agenda pós” afeta a noção de subjetividade, de um lado, por sua repulsa ao seu correlato (a objetividade), de outro, por liquidar o horizonte do sujeito como um agente histórico. Desta forma, desfigura a educação do seu caráter de prática que constitui e modifica os sujeitos envolvidos. Além disso, a retração teórica imanente à ontologia empiricista (comungada por Heidegger e pela agenda pós-moderna) e a ideologia anticientífica que dela decorre desvaloriza o papel da escola como instituição socializadora do saber elaborado. Há que se reconhecer, portanto, que o fortalecimento, no pensamento educacional brasileiro, de uma ontologia velada, estreitamente vinculada a uma prática imediata, é conveniente aos interesses manipulatórios do capital. Por mais que alguns intelectuais dessa agenda mostrem desconforto com facetas do viver sob o capitalismo, aqui se repete o que Lukács já apontara em relação a Heidegger: a repulsa e a contestação apenas confirmam a inutilidade da própria rejeição e, por isso, conclamam para o render-se ao capitalismo.

Palavras-chave: irracionalismo, Heidegger, pós-modernismo, pensamento educacional

Abstract: This thesis criticises the post-modern thought – seen as an agenda – and intends to indicate, within its philosophical appropriations, the importance and the role of Martin Heidegger in its constitution. This task is made by taking into account the contemporary educational thought in Brazil. The hypothesis points that, in the notion of overcoming metaphysics, developed by the second Heidegger, one outlines an anti-materialist ontology. From its aversion to objectivity a disqualification of rational knowledge (especially of science) emerges out. This is the core to which postmodern agenda in general and in education in particular pay homage and, in many aspects, renew. From Georg Lukacs’ contribution, one recognises that the main point of convergence between post-modern agenda and the later Heidegger is at the hermeneutical ontology and its denial of objectivity, the spread of hermeneutical model to all knowledge (condensed in the claim that knowing is to interpret) and the link between being and language. In terms of the production of knowledge, there is in post-modern agenda a dynamic that also can be observed in Heidegger: the thing-initself disappears and the objectivity becomes dependent on human being; in this case, all general ontology is melt in social being ontology. The dissolution of objectivity into subjectivity elements does not allow distinguishing reality from the ways of knowing, the ontological status is bestowed by knowing. It represents, according to Lukacs, the submission of ontology to gnosiology. Knowing is seen as an interpretative action that dismisses any relationship with objective world. Despite some peculiar traces, the post-modern agenda prolongs the disqualification of science and any rational knowledge defended by the second Heidegger. The aversion to metaphysics and the announcement of a post-metaphysics horizon in Heidegger thought are also preserved in post-modern agenda. In educational field, one perceives the criticism of metaphysics of appearance, a particular expression of Heidegger’s philosophy, and the defense of a post-metaphysics or post-criticism pedagogy. Post-modern agenda affects the subjectivity notion, on the one hand, because of its aversion to its correlative (objectivity), and on the other by eliminating the notion of subject as a historical agent. In this sense, it disfigures education as a practice which constitutes and changes the subjects involved. Besides, the theoretical retraction in empirical ontology (shared by Heidegger and post-modern agenda) and the anti-scientific ideology which derives from it devaluate the role of school as an institution which socialises the elaborated knowledge. The consolidation of a hidden ontology in the educational thought, related to an immediate practice, is convenient for capital interests. Even when some intellectuals of this agenda feel some discomfort with life under capitalism, one should repeat what Lukacs had already said as for Heidegger: his refusal only confirms the uselessness of rejection itself and thus it encourages the surrender to capitalism. 

Keywords: irrationalism, Heidegger, postmodernism, educational thought 




DELLA FONTE, Sandra Soares. As fontes heideggerianas do pensamento pós-moderno. Orientadora: Maria Célia Marcondes de Moraes. Tese de Doutorado em Educação. Florianópolis, UFSC, 233 p., 2006.

sábado, 6 de janeiro de 2018

A Marreta Plástica do Chapolin Azul



por Leonidas Dias de Faria


É comum que se reconheçam méritos em Nietzsche devido a seu método genealógico, em que se expressa com vigor sua peculiar historicidade. Mas qual é a validade de uma história inventada como lastro para uma reflexão filosófica? Com o quê de positivo se pode contribuir no plano da teoria (e, consequentemente, da prática) com um amontoado de ocorrências oníricas ou fantasiosas em que se carimba, de modo maroto, a marca "história" para atribuir-lhe respeitabilidade?

Dando mostras de suas habilidades como ficcionista, nosso filósofo "historiador" perde por completo de vista a origem efetiva da cisão em classes, pondo em seu lugar o que as circunvoluções de sua subjetividade atormentada vieram a excretar. Não se toca o pensador de que a cisão entre dominantes e dominados não é imposta pela natureza (ou coisa que a valha, ainda que esteja supostamente para além ou aquém dela), mas tem origem temporal concreta em dado momento do processo real de auto-produção social do humano, bem como pressupõe, para arrepio de sua pelagem aristocrática, milhares de anos de convívio comunal não hierárquico, sem que por isso as sociedades que assim se ordenaram tenham se reduzido a rebanhos à espera de um pastor.

Esgrimindo sua Genealogia da Moral (de cuja Primeira Dissertação me valho abaixo) contra aqueles historiadores de "bom espírito", mas totalmente privados de "espírito histórico", para os quais as qualificações morais positivas derivam da valoração dessas ou daquelas ações como úteis por parte daqueles a quem se dirigem e aos quais favorecem, o filósofo dispara, exibindo sua nobre dentadura em sarcástico sorriso:

Para mim é claro, antes de tudo, que essa teoria busca e estabelece a fonte do conceito 'bom' no lugar errado: o juízo 'bom' não provém daqueles aos quais se fez o 'bem'! Foram os 'bons' mesmos, isto é, os poderosos, superiores em posição e pensamento, que sentiram e estabeleceram a si e a seus atos como bons, ou seja, de primeira ordem, em oposição a tudo que era baixo, de pensamento baixo, e vulgar e plebeu.

Ainda golpeando com marreta de plástico, em defesa dos seus, acrescenta o bom homem:

Desse pathos da distância é que eles tomaram para si o direito de criar valores, cunhar nomes para os valores: que lhes importava a utilidade! Esse ponto de vista da utilidade é o mais estranho e inadequado, em vista de tal ardente manancial de juízos de valor supremos, estabelecedores e definidores de hierarquias: aí o sentimento alcançou bem o oposto daquele baixo grau de calor que toda prudência calculadora, todo cálculo de utilidade pressupõe – e não por uma vez, não por uma hora de exceção, mas permanentemente.

Após apontá-los como os genitores da moral, o filósofo apresenta-nos agora os mesmos nobres que exalta como sendo responsáveis também pela criação da linguagem, para o que exercita novamente de modo exemplar sua capacidade de invenção da história humana para fins próprios. Assim ensina-nos, pois, nosso contador de estórias, acerca do alvorecer da moralidade e de nossa comunicação linguística:

O pathos da nobreza e da distância, como já disse, o duradouro, dominante sentimento global de uma elevada estirpe senhorial, em sua relação com uma estirpe baixa, com um 'sob' – eis a origem da oposição 'bom' e 'ruim'. (O direito senhorial de dar nomes vai tão longe, que nos permitiríamos conceber a própria linguagem como expressão de poder dos senhores: eles dizem 'isto é isto', marcam cada coisa e acontecimento com um som, como que apropriando-se assim das coisas.) Devido a essa providência, já em princípio a palavra 'bom' não é ligada necessariamente a ações 'não egoístas', como quer a superstição daqueles genealogistas da moral.

Assim, conclui nosso plenipotenciário do Reino Encantado das Fantasias Históricas, acerca das gregário-animalescas pulsões baixas que propelem à deturpação da moral dos melhores aqueles desprezíveis e rancorosos que lhes estão abaixo:

É somente com um declínio dos juízos de valor aristocráticos que essa oposição 'egoísta' e 'não egoísta' se impõe mais e mais à consciência humana – é, para utilizar minha linguagem, o instinto de rebanho, que com ela toma finalmente a palavra (e as palavras).

Mais adiante, nosso valoroso cavaleiro, nosso arquiduque das belas palavras, revela-nos algo do segredo de sua nobre sabedoria, que esgrime violentamente contra as ilusões do gado humano que lhe está aos pés, gemendo sob suas botas camurça:

A indicação do caminho certo me foi dada pela seguinte questão: que significam exatamente, do ponto de vista etimológico, as designações para 'bom' cunhadas pelas diversas línguas? Descobri então que todas elas remetem à mesma transformação conceitual – que, em toda parte, 'nobre', 'aristocrático', no sentido social, é o conceito básico a partir do qual necessariamente se desenvolveu 'bom', no sentido de 'espiritualmente nobre', 'aristocrático', de 'espiritualmente bem-nascido', 'espiritualmente privilegiado': um desenvolvimento que sempre corre paralelo àquele outro que faz 'plebeu', 'comum', 'baixo' transmutar-se finalmente em 'ruim'.

Após haver assim firmado sobre o vapor os deslizes semânticos que, em sociedades de classe, tendem a identificar aquilo que é próprio aos dominantes como positivo e aquilo que é próprio aos dominados como ruim, nosso sábio flutuante ainda tem mais a revelar sobre sua elevação e aquela de seus pares acima da repulsiva ralé, que teima em querer alçar-se de algum modo (sempre indevido, para o poeta) ao posto de gente:

A rebelião escrava na moral começa quando o próprio ressentimento se torna criador e gera valores: o ressentimento dos seres aos quais é negada a verdadeira reação, a dos atos, e que apenas por uma vingança imaginária obtêm reparação. Enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma, já de início a moral escrava diz Não a um 'fora', um 'outro', um 'não-eu' – e este Não é seu ato criador.

Contendo a custo a pergunta acerca de se essas palavras calham para caracterizar o propósito revolucionário socialista, já que o autor teima em não descer das nuvens das idéias desencarnadas para o chão das ações concretas, o leitor obtém dele ainda a seguinte revelação (de si) veladora (do mundo):

Esta inversão do olhar que estabelece valores – este necessário dirigir-se para fora, em vez de voltar-se para si – é algo próprio do ressentimento: a moral escrava sempre requer, para nascer, um mundo oposto e exterior, para poder agir em absoluto – sua ação é no fundo reação. O contrário sucede no modo de valoração nobre: ele age e cresce espontaneamente, busca seu oposto apenas para dizer Sim a si mesmo com ainda maior júbilo e gratidão – seu conceito negativo, o 'baixo', 'comum', 'ruim', é apenas uma imagem de contraste, pálida e posterior, em relação ao conceito básico, positivo, inteiramente perpassado de vida e paixão, 'nós, os nobres, nós, os bons, os belos, os felizes!'.

Após assim revelar-se pai e mãe de Hannah Arendt, o senhor Super-homem, cujo sangue é tão azul quanto o colã daquele seu sucessor que se disfarça de Clark Kent para esconder que é nietzscheano, brinda-nos com as seguintes e tocantes palavras acerca da nobreza de seus pares, os quais acertam mesmo ao errarem:

Quando o modo de valoração nobre se equivoca e peca contra a realidade, isso ocorre com relação à esfera que não lhe é familiar, que ele inclusive se recusa bruscamente a conhecer: por vezes, não reconhece a esfera por ele desprezada, a do homem comum, do povo baixo; por outro lado, considere-se que o afeto do desprezo, do olhar de cima para baixo, do olhar superiormente, a supor que falseie a imagem do desprezado, em todo caso estará muito longe do falseamento com que o ódio entranhado, a vingança do impotente, atacará – in effigie, naturalmente – o seu adversário.

Como não poderia demonstrar de modo mais inequívoco por um exame de DNA ou coisa assim, as palavras citadas acima evidenciam com toda a força que é nessa linha hereditária que se inscreve a mil vezes lastimável senhora Arendt, como disse acima, bem como alguns outros ficcionistas históricos a quem se achou e se acha por bem dar algum crédito. Para o ancestral remoto dessa repugnante senhora, citado e comentado acima, assim como para ela mesma, não havia moral, linguagem ou o que quer que se possa tomar como propriamente humano, até que os melhores viessem a se erguer acima do rebanho apático, passando a dominá-lo. Os valores morais etc. foram, portanto, paridos pelos auto-intitulados melhores como selo a ser afixado nas ações com que se empenham em cuidar indolentemente de seu próprio rabo à custa do esforço alheio.

Para além da moral assim trazida à luz, segundo o filósofo do martelo, pode haver apenas um arremedo patético e desprezível desse agir virtuoso, que se expressa na abjeta rebelião ressentida dos escravos. E se é nesse saco de rancor e negatividade que se encontram os propósitos revolucionários, que não são mais que impulsos múltiplos à tentativa de fazer expandir o "nós" da ação moral para além dos comparsas a que nos associamos de modo estreitamente conveniente contra os que são mais débeis, só pode ser tida como um mal essa ousadia dos baixos em sacudir para longe o jugo que lhes impõem os de cima.

Se a moral dos "fortes" serve a eles para legitimar o conluio em que se associam para promover sua própria saúde à custa de sangue alheio, a moral dos "fracos" deve valer-lhes como instrumento valioso na remoção daqueles mesmos parasitas, que lhes acometem a todos em macabro concerto. E se a imposição da vontade egoísta dos mais fortes sobre a dos demais é algo a que se deva com justiça tomar como "bom", senão como o bem mesmo, só podemos dar à negação radical dessa situação de opressão classista (a que o filósofo da genealogia criativa esvazia de qualquer conteúdo real, deixando de todo inexplicável a partir de seus conceitos) a caracterização de algo "mau", se não devermos caracterizar a revolução social como o próprio mal, como o faz Arendt.

Adendo:

É um fato que as apropriações possíveis de um texto sejam inúmeras. É comum que pincemos idéias aqui e ali e as coloquemos, alteradas ou não, em outra trama, que tenha ou não muito a ver com aquela de origem, devendo o construtor no novo discurso primar por sua coerência e consistência, as quais não dependem daquelas do texto lido; que nos inspiremos, positiva ou negativamente, com aquelas idéias e criemos sob seu empuxo algumas outras, assemelhadas ou não com aquelas de que, de algum modo, derivam; que assumamos o discurso lido em sua quase totalidade, por identificação profunda e abrangente com o que se propõe em suas linhas, embora seja isso algo mais raro; e, por fim, que uma idéia a que não se deu muita atenção durante uma leitura volte com vigor à memória motivada por uma nova reflexão, não raro bem distante daquelas propostas pelo texto lido, demandando um novo encaixe discursivo.

Mas essa multiplicidade de leituras possíveis de um mesmo escrito não nos autoriza a concluir que um leitor o poder de alterar o sentido ou os sentidos que tal ou qual conceito ou proposição tem ou teve para o autor cujo texto lê. Existe(m) esse(s) sentido(s) ainda que jamais venhamos a descobrir com alguma precisão o que o mesmo escritor teve o propósito de veicular com suas palavras.

Assim, ainda que reste sempre alguma ambigüidade no texto mesmo ou persistam margens outras para distintas interpretações pertinentes (ou apenas fecundas, embora impertinentes ao texto de "origem"), algumas idéias podem e devem ser tomadas como dotadas de um sentido bem preciso pelo autor, ainda que possamos nos valer delas mais ou menos livremente na construção de nosso próprio discurso, inclusive por meio de contraposição frontal, assim como fiz com Hannah Arendt em texto publicado neste mesmo espaço.

Quanto ao dualismo de Nietzsche, digo que, além de simplificar sobremaneira a vertiginosa multiplicidade moral propiciada pela interação sócio-histórica humana em qualquer época ou contexto, ele só pode radicar-se em duas posições filosóficas, ambas igualmente problemáticas:

a) este dualismo é algo inerente ao humano, nada tendo de histórico, nem mesmo no sentido idealista do termo – o que arremessa Nietzsche no colo de Schopenhauer, para quem o caráter de cada um é inato e impassível de alteração por quaisquer vias.

b) este dualismo é decorrente de processos históricos de distinção social que, no entanto, não têm qualquer pega com fenômenos concretos e interações efetivas, sendo dotado de caráter estritamente espiritual (algo que, de fato, não existe).

Em ambos os casos, o que se tem é especulação desenfreada, a galopante metafísica que acompanha nosso marteleiro desde a época em que via Apolos e Dionísios revoando à sua volta, enquanto ouvia música. Trata-se de um problema filosófico que não se dirime por meio de malabarismos hermenêuticos, de modo que, ainda que se possam salvar muitas de suas idéias do naufrágio, a nau teórica mesma como um todo não flutua nem se desloca (o que tampouco era a intenção do autor), não podendo transportar quem quer que seja ou a si própria para um porto minimamente seguro. Para permanecermos no plano da metáfora, portanto, podemos dizer que é possível fazer boas jangadas com as idéias de Nietzsche, mas seu navio mesmo deve ser tornado museu, por completa inutilidade naval.

Nas passagens que citei acima, Nietzsche dá-nos algumas pistas acerca do sentido de suas considerações e intenções efetivas. Por exemplo, quando se refere aos "'bons' mesmos" como sendo "os poderosos", que são "superiores em posição e pensamento". Não vejo como se possam interpretar essas palavras como libertárias e promotoras da justiça social, como não raro se defende, nem como apenas referentes a um dualismo estritamente moral (algo duplamente improcedente, tanto por não haver coisa alguma "estritamente moral", como por ser muito mais que binária a heterogeneidade moral possível e freqüente em dado sistema social), em nada relacionado a questões de fato, radicado apenas no caráter metafisicamente determinado de cada um de nós.

O que se pode e se deve extrair daí, segundo entendo, é a afirmação dogmática de uma superioridade espiritual, de causas desconhecidas ou intangíveis, que propicia aos melhores (seus portadores) o acesso ao controle real sobre os demais, não consistindo senão nisso algo a que se possa qualificar como bondade. Nietzsche inverte, portanto, as determinações ontológicas, tomando como causa o efeito e vice-versa: a dominação efetiva de uns por outros decorre de sua ascendência espiritual, ao invés de ocorrer o contrário, como se dá na realidade, da qual o autor foge, à alemã.

Mas, talvez o maior impedimento a que se faça uma leitura generosa de Nietzsche, uma leitura que o apresente como simpático à humanidade, seja sua veemente negação de qualquer validade moral autêntica na crítica ao egoísmo. Para ele, como já havia citado antes:

É somente com um declínio dos juízos de valor aristocráticos que essa oposição 'egoísta' e 'não egoísta' se impõe mais e mais à consciência humana – é, para utilizar minha linguagem, o instinto de rebanho, que com ela toma finalmente a palavra (e as palavras).

Sinceramente, não vejo como retirar disso algo que se possa ver como fomento à construção conjunta de uma sociedade igualitária ou coisa assim. Desse modo, não vejo aí motivos para ver o velho Friedrich como meu camarada.

Ainda sobre minha leitura de Nietzsche, creio que possa conter um significativo erro. Pode ser que, diferentemente de distribuir golpes de marreta com vistas à manutenção de uma classe dominada sob seus cascos, perpetuando um sistema em pujante vigência, o nosso terror dos moinhos de vento largue suas cargas de romântico rancor aristocrático contra a nova classe dominante que converteu em seus assalariados os servos dos nobres de outrora, deixando-os à pé e na mão, após haver deixado ela mesma de servir-lhes de mascates de encomenda.

Enquanto exala ruidosa e desdenhosamente seus gases e escarra com displicência sobre os escombros da decadente moral cortesã, enquanto empreende preocupada suas contas, essa nova classe de cima funde seus próprios e convenientes valores e princípios, completamente alheia às lamúrias dos extemporâneos moralistas de capa e espada, defensores das virtudes varonis. E é contra essa heresia que se bate nosso Quixote da pena. Sua birra contra o socialismo, portanto, é de segunda mão, derivada do fato de haverem esses seres, em si mesmos negligenciáveis, colhido algumas migalhas da moral burguesa para constituir seus mandamentos de conduta.

Só o que interdita essa nova interpretação é que a "rebelião escrava na moral" levada a cabo pela nascente burguesia, com a qual esta mesma classe atrevida fez de seu "próprio ressentimento" algo criador e gerador de valores, não é uma "vingança imaginária", mas bastante real, em decorrência da qual só restou aos nobres decaídos a negação discursiva do novo estado de coisas, acompanhada da assimilação efetiva de si pelos seus inimigos.

Por fim, volto quase ao início desse acréscimo para reiterar a necessidade de, além de fazermos as mais variadas e distintamente produtivas leituras, reconhecermos no texto lido uma integridade que, por suas próprias determinações, permite ou desautoriza essa ou aquela apropriação. A flexibilidade do leitor não se projeta para o texto, que tem a sua própria maleabilidade muito bem determinada por suas próprias linhas – que não são outras, nem o podem tornar-se. Se abrirmos mão disso, abrimos mão de boa parte do rigor com os demais com quem debatemos, bem como autorizamos que não tenham qualquer rigor na leitura de nossas próprias palavras, o que geraria complicações em nossa comunicação, num mundo/tempo que demanda cada vez maior e melhor interlocução.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Breve crônica natalina: A data por excelência do anticapitalismo romântico



por Paulo Ayres

Independente da questão se o Natal é uma data que pertence a Horus, Jesus ou Papai Noel, essas últimas semanas do calendário em que ocorrem os solstícios (de Verão aqui e Inverno no Hemisfério Norte) produzem uma movimentação anual peculiar que afetam visivelmente o ritmo do comércio e a vida cotidiana das pessoas. Muito já se escreveu sobre essa época, sobre o tal espírito natalino e todo o pacote de características culturais que se afirmaram como uma tradição. É a data que, por se pautar nesse tal espírito comunitário, joga na nossa cara de maneira intensa como é hipócrita e rebaixada do ponto de vista humano a nossa vidinha cotidiana nesse mundo capitalista. Mas isso é assim desde que o capitalismo se afirmou como modo de produção consolidado e o protesto romântico ecoou como um canto desprovido de coesão racional, gerando duas melodias que, entre outras coisas, se posicionam distintamente sobre o Natal.

Junto com figuras como a tia que pergunta dos namoros, está o estereótipo - ou seria o arquétipo - do "tio reaça", que declama elogios saudosistas pela ditadura empresarial-militar e faz propaganda eleitoral do Bolsonaro. Evidentemente que, como caricatura, esse é um caso limite e bem delineado do romântico tradicionalista, aquilo que popularmente se chama de conservador, porém, de certo modo, a maior parte de gerações mais velhas tende a se apoiar, em algum grau, em posicionamentos que lhes colocam predominantemente de acordo com o romantismo tradicionalista. Geralmente esta perspectiva, em lugares como o Brasil, se dá pela via da religiosidade tradicional cristã. O Natal (e o período de Natal-Réveillon), deste modo, aparece como um oásis abstratamente humanista onde vamos beber água depois de penar um ano inteiro neste deserto infernal da sociedade mundial capitalista (o adjetivo burguês em muitos casos é ignorado, se fala num abstrato "mundo moderno" ou, em certos casos, até que "sempre foi assim, é a natureza humana etc."). Daí que é a época de festejar uma generosidade, ausente em situações corriqueiras, e lembrar que há pessoas vivendo na miséria etc. Mas não se engane com os estereótipos psicologistas e maniqueístas: o tiozão reaça também pode ficar de coração mole e falar mal do consumismo, da competição absurda etc. nesse período. O mundo está em ruínas para o romântico tradicionalista. Ele suspira pela Tradição, Família e Propriedade; e percebe que as duas primeiras tem o seu ponto de celebração neste pequeno espaço nos finais de ano. Este anticapitalismo romântico louva o Natal por proporcionar isso, pois enxerga nesse espírito natalino um espírito anticapitalista ou, para além da lógica do capital (da "realidade moderna" ou "mundana").

Na outra linhagem do protesto romântico está o arquétipo da "prima lacradora". Em maior ou menor grau, o fato é que aqui está a juventude que é geralmente universitária, hipster, bicho-grilo, engajada e "de esquerda". Sabemos que na turma da ciranda, sob um rótulo "de esquerda", há uma gradação progressista entre socialistas e liberais que borra e confunde. O anticapitalismo romântico progressista, entretanto, é necessariamente liberal. Pressupõe, em alguma medida, a concepção (antropológica, política, moral etc.) do individualismo. A reunião de família, com efeito, é um prato cheio para os textões de indignação; o encontro com os parentes conservadores e, especialmente, algum membro mais reacionário da família que é visto pelo sujeito como o Mussolini em vida. É dia de se indignar com o tradicionalismo daquela família "alienada", pessoas sem a "luz" (não da razão/Vernunft, mas da vivência, da intuição da totalidade, da Mãe Terra, da Força de Star Wars etc.). Se o tiozão reaça tende a adorar o Natal como um período sagrado de suspensão da vidinha alienada, a prima que é fã do Jean Wyllis, pelo contrário, tende a ver como o período mais profano de todos, em que há o transbordamento da hipocrisia e vamos fingir uma reconciliação e harmonização familiar e comunitária de fachada. O anticapitalismo romântico-liberal, enraizado na concepção individualista (mesmo sem ter consciência disso), vai lá apontar o dedo, bater boca ou simplesmente postar comentários ácidos sobre como os seus parentes vivem no mundo da lua. Faltam-lhes, segundo esse raciocínio, o batismo sagrado chamado "desconstrução", quase uma nova corrente da religiosidade new age.

Obviamento que estamos lidando aqui com abstrações analíticas e indicando tendências. Pode haver, é claro, uma "prima lacradora" que adora o Natal e a reunião familiar de fim de ano e, também, um "tio reaça" que detesta este período e encontrar parentes. A questão é que há estas duas posições do anticapitalismo romântico em relação ao Natal. Sendo a data suprema do anticapitalismo romântico, é até compreensível que os ânimos, às vezes, façam também uma mescla de adoração e repúdio (o assunto sobre a mercantilização do Natal está sempre em pauta). E quando lembramos que a base filosófica contra-iluminista é a mesma nas duas linhagens do anticapitalismo romântico, a gente percebe que, por mais distintos que sejam (não se pode negar os elementos de diferenciação), o tio reaça e a prima lacradora podem ter mais em comum do que imaginam. Há mais elementos de conexão do que pode perceber a nossa vã filosofia irracionalista.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Dissertação: Divisão do trabalho e burocracia: para a crítica das interpretações sociológicas da burocracia



Resumo: O presente estudo trata, a partir de uma apreensão crítica do debate sociológico, da análise das categorias de “burocracia” e divisão do trabalho. No primeiro momento, o arcabouço conceitual é apresentado tendo como base a interpretação dada pela própria sociologia aos fenômenos. A análise crítica acerca do método sociológico é, neste momento, apresentada de forma pontual. O processo de crítica à interpretação sociológica da burocracia é, na verdade, parte integrante da dinâmica expositiva em sua totalidade. A insuficiência desta interpretação é, no segundo capítulo, desvendada a partir da textualidade de Hegel, Marx e Gramsci, quando os mesmos tratam dos conceitos de burocracia, Estado e Sociedade Civil. Por fim, a “burocratização” é referenciada à categorização marxiana e marxista. Na análise da dinâmica econômica do capitalismo monopolista revela-se uma série de tendências relacionadas à ampliação e complexificação da produção capitalista e da divisão do trabalho. A riqueza conceitual marxista, na apreensão do crescimento das funções parasitárias e gerenciais do capital e das funções improdutivas dos trabalhadores, se contrapõe à interpretação amorfa da “burocracia” realizada pela sociologia. 

Palavras-chave: burocracia; divisão do trabalho; marxismo; Max Weber; Michel Crozier; Maurício Tragtenberg.

Abstract: This study analyzes, from a critical understanding of the sociological debate, the categories of "bureaucracy" and division of labor. In the first time the conceptual framework is presented based on the interpretation given by the sociology itself for the phenomena. A critical analysis about the sociological method is now presented in a punctual form. The process of criticism of the sociological interpretation of bureaucracy is actually part of the dynamic exhibition in its entirety. The failure of this interpretation is, in the second chapter, unveiled from textuality of Hegel, Marx and Gramsci, when they deal with the concepts of bureaucracy, State and Civil Society. Finally, the "bureaucracy" is referred to the Marxian and Marxist categorization. In the analysis of the dynamics of economic monopoly capitalism it is a series of trends related to the expansion and complexity of the production and the capitalist division of labor. The wealth conceptual Marxist seizure of the growth of the parasitic functions and management of capital and unproductive functions of workers are in contrast to the amorphous interpretation of the "bureaucracy" conducted by sociology.

Keywords: bureaucracy; division of labor; Marxism; Max Weber; Michel Crozier; Maurício Tragtenberg.



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BOTELHO, Marcos Paulo Oliveira. Divisão do trabalho e burocracia: para a crítica das interpretações sociológicas da burocracia. Orientador: José Paulo Netto. Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro, UFRJ/ESS, 2008. 189 f.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Artigo: Críticas ao artigo “Marx na floresta”, de Jean Tible



Resumo: Jean Tible procura promover uma aproximação de Marx com as temáticas antropológicas, mas me parece que Marx está na verdade cada vez mais se distanciando delas. O autor adere a uma espécie de ‘razão etnológica’, enquanto que Marx é crítico dessa perspectiva.

Palavras-chave: Marx, capitalismo, modernidade, sociedade primitiva, antropologia, fetichismo.


Link do artigo.

ÁLVARES, Lucas Parreira. Críticas ao artigo "Marx na floresta" de Jean Tible/ Debate Margem à Esquerda. In: Blog da Boitempo. 04/12/2017. 
Disponível em: <https://blogdaboitempo.com.br/2017/12/04/criticas-ao-artigo-marx-na-floresta-de-jean-tible-debate-margem-esquerda/>.


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Artigo: O "jovem" Lukács: trágico, utópico e romântico?



Resumo: Dado o caráter polêmico da trajetória intelectual do "Jovem" Lukács, sobretudo em relação às obras A alma e as formas e A teoria do romance, o objetivo central do presente artigo é delinear com largos traços a trajetória de Lukács em sua fase de juventude, tendo como base seus próprios textos e depoimentos, com vistas a problematizar certas atribuições feitas a esse importante período de sua produção intelectual.

Palavras-Chave: Estética lukácsiana, Romantismo, Ciências do Espírito

Abstract: Given the controversial character of "Young" Lukács' intellectual path, essentially concerning to the works The Soul and The Forms and Theory of the Romance, the central objective of the present article is to delineate with wide lines the path of Lukács in his youth phase (based on their own texts and testimonies) and, thus, to discuss certain attributions done for this important period of his intellectual production.

Keywords: Lukács's aesthetics, Romanticism, Spirits' Science




VAISMAN, Ester. O "jovem" Lukács: trágico, utópico e romântico? In: Kriterion, vol.46, no.112, Belo Horizonte, Dec. 2005.