por E. Yu. Zavershneva
O problema de estudar a relação entre as teorias de Vigotski e Freud
Em caderno inédito “Conferência sobre temas de investigação. 27 a 29 de outubro 1933”, Vigotski, ao esboçar um plano para trabalhos futuros, afirmou: “As perspectivas: defender a posição básica de Freud (psiconeurose — resultado de um deslocamento que falhou, conflito entre o Ego e o Id, as camadas superiores e inferiores da psique no novo sistema): Freud considera o consciente à luz da doutrina do inconsciente; nós — o inconsciente à luz da doutrina do consciente. Uma nova teoria da psiconeurose infantil. Nem redescobrir a América nem considerá-la não descoberta. Quem quer construir uma psicologia científica deve seguir outro caminho: Fr. não deu a doutrina do consciente; não se pode agregar a Fr. a doutrina do consciente; é necessário reconstruir seus fatos e teorias em um todo novo”[1].
Esta tese, expressa na discussão do relatório do psicanalista V .F. Shmidt nas “conferências internas”, é um testemunho em primeira mão que expressa a atitude de Vigotski em relação à teoria de Freud. A tarefa especificada na tese — repensar a psicanálise no contexto da teoria histórico-cultural — já foi designada por Vigotski em 1925, no prefácio do livro de Freud “Além do princípio do prazer” (escrito com A. R. Luria [18]). Analisando o prefácio, R. Van der Veer aponta que, para os autores, a única “variante aceitável de anexação” era o estudo dos princípios básicos da psicanálise e sua verificação à luz da própria teoria, mas a forma concreta de tal anexação permanecia obscura [34, p. 60]. Em nosso estudo tentamos mostrar como esta tarefa, formulada em 1925 como uma pura declaração de intenções, gradualmente passou para a categoria de resolvida, e a polêmica de Vigotski com Freud atingiu o nível de rivalidade potencial dos programas científicos.
A discussão sobre a atitude de Vigotski em relação à psicanálise é fundamental devido às seguintes razões. Em primeiro lugar, Vigotski e Freud lançaram as bases das duas maiores direções, cada uma das quais tem uma saída na metapsicologia e é, em essência, uma prática antropológica. Diferentemente de outros conceitos, onde se estuda funções ou processos de processamento de informações, ou seja, uma “pessoa sensível”, dividida em elementos e considerada fora da dimensão do significado, dentro destes sistemas se tenta construir uma ontologia da pessoa, uma compreensão teórica de sua “segunda natureza” e sua formação dirigida através da educação ou da terapia.
No entanto, as diferenças fundamentais nas bases das abordagens fazem com que sua unificação livre de conflitos seja impossível dentro do marco da teoria psicológica geral, a qual Vigotski tentou criar. Na tese do relatório de Shmidt citado acima, assim como nas primeiras teses sobre “o problema da consciência” (05/12/1932; [12, p. 156–167]), as teorias de Vigotski e Freud se opõem como sistemas polares: psicologias de cumes e profundidades. A operação aritmética somar cumes e profundidades eventualmente dará zero (veja a atitude crítica de Vigotski em relação ao Freudomarxismo [12, pág. 330–331]), portanto, a pergunta sobre com quais bases é possível o diálogo entre essas abordagens permanece aberta.
Apesar da grande importância do tema da relação entre psicanálise e psicologia histórico-cultural, sua investigação é muito escassa. A razão para isso é, por um lado, a dificuldade objetiva do trabalho metodológico sobre a correlação de dois conceitos, cuja bases não estão completamente esclarecidas e vão além da psicologia para a filosofia. Por outro lado, a análise é dificultada pelo conhecimento insuficiente dos trabalhos posteriores de Vigotski, em particular, os estudos da dinâmica semântica de consciência. Em nenhum dos artigos encontrados por nós, que traçam paralelos entre a psicanálise e o enfoque de Vigotski [19; 32; 33; 35 e outros], este último está representado como um todo único em sua versão final de 1932–1934; para a maioria dos autores a contribuição de Vigotski para a psicologia se limita à teoria da mediação do signo e à monografia Pensamento e Fala. No entanto, cabe assinalar uma tendência positiva: o tema central das intersecções entre tais concepções — o papel da linguagem e da sociedade no desenvolvimento da pessoa, é discutido de alguma maneira por todos os autores.
Caracteristicamente, esses estudos foram feitos principalmente no Ocidente durante os anos 1990 (talvez dentro do boom Vigotskiano relacionado à publicação das obras escolhidas de Vigotski em língua inglesa). Como regra geral, as ideias de Vigotski atuam como heurísticas projetadas nas posições teóricas da psicanálise ou sobre os problemas da relação entre analista e paciente[2]. Apesar da variedade de temas, esses estudos estão “na superfície”: eles estudam os vínculos entre as abordagens no nível de questões individuais. A única investigação condizente com a tarefa, identificada pelo próprio Vigotski na década de 1930, foi realizada no artigo de E.V. Ulibina, onde se considera a possibilidade “de construir um único espaço teórico, no qual uma análise substantiva adicional permite, em particular, considerar os fenômenos descritos por Freud a partir do ponto de vista da psicologia histórico-cultural” [28; pág.72]. Porém, mesmo aqui existe a mesma ótica tendenciosa: as obras do “período instrumental” estão incluídas na análise, enquanto os trabalhos posteriores de Vigotski — e com eles a teoria dos sistemas semânticos dinâmicos — permaneceram fora do campo visual do autor. Como resultado, os paralelos mais significativos das abordagens permanecem nos bastidores, levando a uma significativa incompletude do estudo que, no entanto, contém uma série de ideias interessantes, expressas não apenas na relação com a psicanálise ortodoxa, mas também com relação à sua versão lacaniana.
Sem questionar o valor da pesquisa, propomos outra em comparação com a linha geral de pesquisa estrangeira: o aspecto do problema; analisaremos a dinâmica da relação de Vigotski com a teoria de Freud, apoiando-nos em fontes publicadas e inéditas, e então partiremos do plano histórico ao teórico para repensar a psicanálise a partir da psicologia histórico-cultural.
Dinâmica da atitude crítica de Vigotski em relação à psicanálise em 1925–1931
A polêmica de Vigotski com a psicanálise é caracterizada por uma série de elementos que atestam a situação excepcional de Freud no círculo de oponentes de Vigotski. Ao debater com representantes de outros sistemas científicos, Vigotski se adapta ao curso de pensamento do oponente, segue-o, revela os pontos de crescimento da teoria, então a refuta e dá sua própria explicação, mais heurística, dos mesmos fatos ou regularidades obtidos no marco da reflexologia, Gestalt, das teorias de W. Stern, J. Piaget, K. Koffka, K. Lewin e outros. E só no caso da psicanálise não observamos este jogo intelectualmente afiado e emocionalmente carregado (exceto talvez em “Psicologia da Arte”). Não é que sua fase aberta tenha chegado tarde demais; por exemplo, os argumentos decisivos na disputa com Koffka sobre o desenvolvimento infantil apareceram em um dos últimos artigos de Vigotski [12, p. 238–290], uma situação semelhante ocorreu na disputa com Lewin [10]. A questão é: nas obras publicadas de Vigotski praticamente não há tentativas de jogar no campo adversário, testar seu pensamento, jogar com ele, leva-lo ao absurdo onde estará localizada a linha básica de ataque, e encontrar um grão de verdade no invólucro de falsas hipóteses. Até o ponto de inflexão de 1932, Vigotski limita-se à crítica “ao serviço” da psicanálise, que não cria momentos de confronto inerentes à crítica de outras abordagens.
O início da polêmica pode ser transferido para 1925, quando Vigotski expressou pela primeira vez, sua atitude em relação às obras de Freud e suas resenhas são bastante elogiosas. No citado prefácio do livro de Freud, no artigo de Luria “A Psicanálise como um sistema de psicologia monista” [26] e em uma nota analítica posterior “O problema da psicanálise e do marxismo” (arquivo familiar de L. S. Vigotski), que Vigotski e Luria enviaram à Sociedade Russa de Psicanálise e ao Instituto de Psicologia em abril de 1927 (Fig. 1); o desenvolvimento da psicanálise no marco da ideologia marxista foi altamente recomendado pelos autores como um campo de pesquisa promissor. Citemos a passagem final da nota, onde os aspectos positivos da psicanálise são destacados: “[…] compreensão dinâmica dos processos mentais (repressão do inconsciente, transformação dos afetos, influência dos impulsos em processos mentais, sublimação, etc.); materialista em essência a consideração de toda a vida mental como um desenvolvimento baseado no material primário (redutível como resultado de processos físico-químicos) de necessidades-impulsos; determinismo na explicação da psique e, por fim, busca dar uma construção objetiva de conceitos mentais baseada no estudo dos processos inconscientes”. No entanto, logo muda a posição de Vigotski, e ele critica duramente, não apenas o artigo de Luria, mas também trabalhos similares de Zankind e Friedman [12, p. 328–333]. A “objetividade” de Freud desaparece da lista de seus pontos fortes, como o “monismo” e o “através do sociologismo” de sua teoria, e o “materialismo em essência” se converte agora no materialismo de um fato sempre distorcido na psicanálise por meio de uma interpretação idealista desse fato.
A primeira e última tentativa de abrir o confronto com a psicanálise nas obras de Vigotski publicadas em vida, pode ser rastreada no capítulo IV de “Psicologia da Arte”, onde a principal crítica é a redução errônea da criatividade à sublimação. A gama de críticas é muito ampla, a concepção de Freud se opõe ao seu próprio ponto de vista, que se reflete na teoria da catarse da arte como um sentimento social, etc., mas “a anexação do território” é reduzida a uma única lei: Vigotski aprecia muito a interpretação freudiana do fenômeno da criatividade nos aspectos enérgico e econômico, e afirma que os resultados de sua investigação estão em certa correspondência com esta interpretação, embora a metáfora energética em si mesma pareça “um tanto arbitrária” [11, p. 294]. A anexação em escala não acontece: apesar de que toda a “Psicologia da Arte”, de fato, é outra explicação da criatividade, Vigotski está comprometido, não tanto em refutar o inimigo, quanto em construir sua própria teoria.
A crítica a Freud em “Psicologia da Arte” contrasta com o prólogo de seu livro, escrito naquele mesmo ano. Aparentemente, no processo de escrever “Psicologia da Arte” a incompatibilidade da psicanálise com a psicologia marxista tornou-se evidente para Vygotski; além disso, como apontamos anteriormente, “Psicologia da arte” pôde ser completada em 1926 e em meados desse ano surgiram as primeiras teses da teoria histórico-cultural, que encontrou o caminho de sua própria pesquisa [22]. De uma forma ou de outra, a mudança está acontecendo, e outras fontes foram, provavelmente, as obras de V. N. Voloshinov [3; 4] em que, não apenas Freud é criticado, mas também Luria, Zalkind, Friedman e outros freudo-marxistas[3]. A atitude de Vigotski em relação à obra de Freud torna-se mais moderada e até 1932 apresenta a seguinte série de comentários críticos:
1) Anti-historicismo, refletido na interpretação do desenvolvimento como epigênese [11, p. 105–106; 16, p. 161–162];
2) Naturalismo da teoria, que considera “a psique humana como um processo puramente natural” [11, p. 103–104, 319; 14, pág. 19–20];
3) Abordagem dualista: Freud atua como materialista quando se baseia nos fatos e luta por sua explicação determinista, e como idealista ao tentar interpretar os fatos a partir dos conceitos filosóficos de Schopenhauer, Lipps e Herbart [ver, por exemplo: 12, pp. 136, 145- 146, 332; 13, pág. 25];
4) Adoção de leis particulares para o universal [11, p. 103; 12, pág. 117–118; 6, pág. 1033]; esta objeção toca no problema da norma em psicologia [ver 12, p. 293] e assinala que na psicanálise o estágio neurótico do desenvolvimento é tomado como típico, e a norma é uma variedade rara;
5) Obscuridade da linguagem científica, confusão do sistema conceitual [12, p. 333, 335];
6) “A escassa capacidade de persuasão dos reforços reais” [ibid.], ou seja, não o descrédito do material factual, mas a debilidade e especulação das hipóteses explicativas [por exemplo, sobre a tríade de traços de caráter anal, ver: 16, p. 161];
7) E, claro, o pansexualismo e a fixação do simbólico — o lugar mais comum da crítica da psicanálise por toda a sua existência [11, p. 103–104; 17].
Até certo ponto, essa crítica era padrão, ou seja, reproduzia as objeções generalizada à psicanálise. Naqueles anos, chamar o psicólogo “burguês” de idealista significava quase certamente não dizer nada de novo ou substancial sobre ele; a “dualidade” foi o contra-argumento universal de Vigotski, voltado contra qualquer teoria do círculo adversário: apontava para a manifestação de uma crise na psicologia, explícita ou implicitamente dividida em dois campos ideológicos[4]. A área em que Vigotski pôde em 1930 resistir a Freud está bem fundamentada, descrita nos pontos 1 e 2, já que no marco da estrutura da “psicologia instrumental” criou a teoria do desenvolvimento das funções psíquicas superiores, que explicava o processo de transformação da psique natural com base nas ideias do ato instrumental; pôde opor seu método genético ao método antigenético da psicanálise e interpretar o papel da sociedade no desenvolvimento infantil. No entanto no final da década de 1920 Vigotski não fez isso.
Existem elementos de confrontação em “História do desenvolvimento das funções psíquicas superiores” (escrita no mais tardar em 1930), onde Vigotski não só fez uma breve crítica — por um lado — à psicanálise relacionada com sua naturalização da psique superior e a subestimação do papel da cultura no desenvolvimento do homem, mas também esboçou seu conceito de desenvolvimento. No entanto, aqui também Vigotski resolve seus próprios problemas: os argumentos não estão dirigidos a Freud, na parte principal da monografia apenas o menciona brevemente duas vezes, e o único fragmento de polêmica, que pode tomar-se como “anexação” dos fatos, está relacionado à discussão da natureza da amnesia infantil [14, p.321; ver também: 12, p.148]. É característico que Vigotski apenas tenha necessitado desse fato do arsenal da psicanálise quando discutia a pergunta chave do papel da fala no desenvolvimento do psiquismo.
Aparentemente, a controvérsia aberta com Freud não fazia parte dos planos de Vigotski e não podia ter lugar por razões óbvias. A teoria do desenvolvimento das FPS nesse momento se estendia principalmente às funções cognitivas e afetava a esfera volitiva-afetiva apenas pela tangente. Vigotski não tinha uma teoria do afeto superior, não havia uma periodização do desenvolvimento, que aparecerá na década de 1930, para não mencionar a teoria da personalidade, que ele nunca criou explicitamente. “Pedologia do Adolescente” (1931) atesta o surgimento de novos interesses de pesquisa na área de psicologia clínica, mas o material factual sobre histeria, esquizofrenia e outras doenças citadas nele são tomadas de outros autores. Tenhamos em mente que as publicações de 1930–1931 não refletem que Vigotski, que já tinha muitos anos na investigação da criança anormal (crianças surdocegas, deficientes mentais), trabalhava intensamente na clínica e observava crianças com diagnósticos de neuroses, psicoses e outros tipos. Ressaltemos que até agora nenhuma menção foi feita a nenhuma das práticas de Vigotski, mas o caderno “Clínica EDI” (1931) contém descrições de 37 histórias clínicas; neste documento ele descreve dois casos em detalhes (Kolia S., Naum P.), em que Vigotski conseguiu liminar um diagnóstico psiquiátrico dos pacientes e substituiu-o por um diagnóstico de “atraso no desenvolvimento”. Ambos os casos ilustram a aplicação prática da futura “psicologia dos cumes”: o ponto de partida é a personalidade do paciente, a possibilidade de seu crescimento e a compensação do defeito através do desenvolvimento da superestrutura cultural, a reorganização do sistema das FPS ao incluir conexões terciárias e relações de caráter[5].
Juntamente com a crítica formal, Vigotski invariavelmente expressa seu respeito pelo oponente em declarações moderadas, mas eloquentes, sobre as realizações da psicanálise. O reconhecimento de Vigotski aos serviços de Freud, em nossa opinião, é mais informativo do que a crítica das deficiências, já que aponta mais aos problemas científicos (causalidade estrita, teoria genética do afeto, caráter, personalidade) que coincidiram por todas as suas diferenças em sua configuração básica. A psicanálise, segundo Vigotski, foi progressiva em vários aspectos, dentre os quais destacam-se os seguintes:
1) O estudo do problema da correlação do biológico e do social no desenvolvimento de personalidade, a concepção de caráter como uma superestrutura sobre um sistema de impulsos que têm origem social [11, p. 29; 12, pág. 96; 18];
2) O desenvolvimento do princípio do determinismo e do método indireto baseado nele, do qual, segundo Vigotski, a psicologia moderna necessitava: “A tentativa de Freud é continuar as conexões e dependências significativas dos fenômenos mentais com o inconsciente, para sugerir que por trás dos fenômenos conscientes está o condicionamento inconsciente que pode ser reestabelecido analisando os rastros e interpretando suas manifestações” [12, p. 136];
3) A exploração teórica de novas áreas (o inconsciente, a atração pela morte), acompanhada de atenção às “anomalias”, isto é, os fatos que inicialmente colocaram a teoria sob ataque, mas que posteriormente levaram à sua renovação (por exemplo, os sonhos nas neuroses traumáticas) [11, p. 109; 12, pág. 92, 336; 14, pág. 59; 18].
4) O estudo das emoções em seu desenvolvimento [13, p. 428–429].
Porém, o fato mais eloquente dessa polêmica não é a crítica e o reconhecimento de mérito, mas o silêncio. Em nossa opinião, a omissão mais importante refere-se às tentativas de Freud de trabalhar na esfera semântica de seus sujeitos assistidos com ajuda da fala (a única menção de análise de ligações significativas se encontra na lista acima, no parágrafo 2). Vigotski sustenta que, do ponto de vista teórico, aqui reside o ponto fraco da psicanálise, cujos representantes tentam subordinar a palavra ao inconsciente, isto é, à área declarada em teoria como um conjunto de processos não acessíveis à verbalização [12, p.148]. Esta objeção não se revela: requer um comentário adicional que Vigotski não faz aqui. Por exemplo, que a fala na psicanálise é vista como um intermediário que permite ao inconsciente desencadear erupções (“descendência”) na consciência [29, p. 181–182], também cria uma zona de amortecimento do pré-consciente e, na verdade, é um meio de transformar a primeiro natureza na segunda. A psicologia moderna marca aqui o ponto de contato entre as abordagens, no entanto, Vigotski tem apenas uma indicação indireta desta circunstância: “Freud, como Piaget, sustenta corretamente que a fala desempenha um papel extremamente importante no ato da consciência” [8; pág. 244–245]. Talvez os silêncios se devem ao fato de que foi justamente pela mediação da fala que teve lugar o eixo principal da competição das abordagens. Em relação à natureza verbal da consciência, Vigotski tinha diferentes pressupostos que tomaram forma até 1932, e a partir desse momento aparece uma antítese decisiva na crítica de psicanálise.
A passagem da polêmica de Vigotski com Freud para a fase de confronto entre os programas científicos (1932–1934)
A partir de 1932, nas obras e palestras publicadas de Vigotski aparecem, no centro da polêmica, a hipótese do autismo primário da criança, a primazia ontogenética do princípio do prazer e sua oposição ao princípio da realidade [13, p. 36–37, 403, 442; 15, pág. 313–314], e teoria psicanalítica, além do epíteto anterior de “metafísica”, adquire um novo: “solipsista”. Vigotski ainda escapa do embate com Freud ao discutir com seu “deputado” Piaget que, de acordo com Vigotski, toma emprestado de Freud as hipóteses anteriores, o que piora significativamente sua posição teórica. No entanto, em alguns casos, seu próprio ponto de vista se opõe diretamente ao psicanalítico: a criança é vista como um ser originalmente social, em interação contínua com a realidade; no contexto da polêmica com a psicanálise esse ponto de vista é reforçado, em particular, pelo estudo da fala egocêntrica. Pela primeira vez, a hipótese “repressiva” da influência da sociedade e da cultura no desenvolvimento infantil recebe uma refutação aberta; a compreensão psicanalítica do meio em sua função de pressão e limitação [13, p.67] ele contrastou com a compreensão do desenvolvimento como cooperação da criança com o adulto. Sua própria experiência ao longo das linhas da crítica anterior (anti-geneticismo, naturalismo da teoria de Freud) é usada muito raramente, por exemplo, na discussão do problema das emoções superiores [13, p. 434–436], onde as posições de Vigotski não são fortes o suficiente como no caso de outros processos psíquicos. É curioso que ele continue a “luta de contatos” nos pontos quentes de sua própria investigação (isso também se aplica à psicologia do desenvolvimento: nos últimos anos de sua vida, Vigotski apenas passa a estudar sua determinação interna e introduz as categorias fundamentais de zona de desenvolvimento proximal e vivência [perejivanie]).
Em particular, Vigotski afirma que Freud ignora o papel do pensamento na formação da personalidade e aponta que o desenvolvimento de um afeto superior não pode ser explicado sem chamar a atenção para a análise dos vínculos afetivos interfuncionais com o pensamento, a imaginação e a fala [13, p.436, 446].
À medida que a crítica a Freud se dissipa gradualmente, a polêmica com ele, necessária para estimular seu próprio pensamento e refletida nos registros pessoais de Vigotski, apenas se intensifica. Estuda a continuação das recém-publicadas conferências de Freud sobre a introdução à psicanálise [31] (Fig. 2), conduz conferências internas dedicadas à teoria de Freud (1931, 1933) e, o mais importante, descobre os pontos de apoio nos quais baseia uma explicação concorrente, sem recorrer à anexação da psicanálise, mas estando na linha de contato com ela.Figura 2. Sinopse do livro de Freud “Nova série de conferências introduzindo a psicanálise” (1933), escrita por L.S. Vigotski. Fragmento (p. 3)
Por exemplo, nas teses sobre o primeiro relatório de Shmidt (o problema das emoções, 1931) Vigotski lista suas discordâncias com Freud: “1. Subdesenvolvimento = suspensão. 2. Desenvolvimento antissocial. 3. Formas patológicas da emoção. 4. […] Pensamento a serviço das emoções!!!” (ver o fragmento de “Pedologia da Adolescente” onde aponta que na neurose o intelecto e a vontade estão subordinados ao afeto [15, p. 168]) e também dá sua explicação chave — a partir do ponto de vista da psicanálise — do mecanismo do desenvolvimento: “Repressão: a emoção se desconecta da consciência. Sublimação: as emoções têm outro objetivo. Ver sistemas e sublimação, repressão: há uma parte de verdade na transferência para outros sistemas”. No entanto, o programa concreto aparece mais tarde, quando Vigotski esboça o esquema geral da teoria da consciência. Nas notas sobre o segundo relatório de Shmidt (“O problema do desenvolvimento da criança psiconeurótica”, 1933) oferece sua antítese às ideias freudianas sobre a natureza do inconsciente: “3. profundo — superficial — psicologia dos cumes. — O mundo externo é uma força hostil ou uma fonte de maior desenvolvimento (formas ideais). — Domínio das fases iniciais do desenvolvimento. — A luz emprestada do inconsciente — Desenvolvimento em Freud — implementação, modificação e combinação de ingredientes. Neoformação. […] 9. Princípios básicos da psicologia dos cumes (acmeísta) contra a Tiefenpsichologie [psicologia profunda] (às vezes implícitos nesta última, mas desenvolvido explícito por nós): relação do ego e do id, impedida nas psiconeuroses, é um produto do desenvolvimento (da consciência) do ego e sua relação com o mundo externo; contra Lust und Realitätsprinzip [princípios do prazer e da realidade]: sua unidade; contra o naturalismo e a metafísica — pró-historicismo (natureza humanizada); o inconsciente surge do desenvolvimento da consciência; consciência do afeto; imobilidade do pensamento autista; não a profundidade, mas as leis dos cumes determinam o destino da personalidade; contra a história do mais alto da sublimação; contra a consciência = a percepção” [ver: 12, pág. 166].
Que novas disposições da concepção de Vigotski dão origem a tais afirmações tão decisivas?
A principal inovação foi o princípio da estrutura semântica da consciência, introduzido em 1932; sobre esta base se desenvolveu a teoria da consciência, cuja ideia se reflete de forma fragmentária em suas obras publicadas (“Pensamento e fala”, “O problema da consciência” e outras), bem como nos cadernos. Ao reconstruir esta ideia, pode-se dizer que a consciência é considerada como uma forma de relação ativa com o ambiente e ao mesmo tempo como um formato especial da relação dos processos mentais. Vigotski preserva o princípio da mediação do signo como parte da nova teoria; ele argumenta que esse tipo de relação especificamente humana com o meio ambiente surge com o uso do signo, mas se antes estava interessado na estrutura externa da operação do signo, nos últimos anos de sua vida preocupou-se sobretudo com seu lado interno: o significado. Vigotski mostra que a compreensão do mundo é possível graças à união da fala com o pensamento, o que nos permite ver o mundo como um todo, onde cada evento é percebido em uma conexão lógica com outros eventos (a consciência é “conhecimento em comunicação” [12, p. 165]). A riqueza de nossas ideias sobre o mundo, sua ordem e correspondência com a realidade são determinadas pelo nível de desenvolvimento do significado das palavras: “Os passos da fala são os passos da abstração: os passos da consciência” (caderno “Minhas observações, rascunho de 1933 [ver também: 27, p. 116]). O mundo interno também é construído através da reorganização dos processos mentais naturais; se torna maior e mais extenso e diferenciado à medida em que a pessoa conhece o mundo externo e interage com outras pessoas [para mais detalhes ver: 20; 40]. No aparato conceitual de Vigotski também surge a noção de “campo semântico”, que se define como um plano semântico de generalização; ao explorá-lo geneticamente, Vigotski demonstra como ele desempenha em suas diferentes etapas de desenvolvimento sua principal função de mediação na relação do homem com o mundo e consigo mesmo [5; 26], em particular, permite realizar as funções de transformação da dinâmica fluida do pensamento na dinâmica da ação e é a base do comportamento volitivo [para mais detalhes ver: 23].
Ao expandir as possibilidades de sua teoria, Vigotski também recicla o método de Lewin da análise dinâmico-formal e de sua apresentação do desenvolvimento da personalidade. Em vários estudos, Vigotski e colaboradores oferecem descrições esquemáticas do estrutura da personalidade e a dinâmica do seu comportamento, com base nos métodos diagnósticos de Lewin modificados para suas próprias tarefas [1; 10; 27 e outros]. Nestes trabalhos foram selecionados alguns planos de análise: sistemas afetivos, campo semântico, atividade prática, e mostra-se que são determinados por leis gerais, tanto em aspectos estruturais como dinâmicos. Os processos dinâmicos relacionados a esses planos descrevem o modelo de ação livre e significativa que inclui três fases básicas: “1) transformação da dinâmica do campo psicológico, dinâmica da situação em dinâmica do pensamento; 2) desenvolvimento e implantação de processos dinâmicos do próprio pensamento, sua transformação inversa em dinâmicas de ação; 3) a atividade refletida através do prisma do pensamento se transforma em outra ação, significativa, consciente e, consequentemente, arbitrária e livre” [10, p.444].
Nesse modelo, o afeto atua como a base energética da ação livre, e a característica central da pessoa, sua diferença específica em relação aos outros animais, é sua própria capacidade de ser livre. Psicologicamente é entendida como a capacidade de “elevar-se acima do campo”, não só do campo externo, mas do campo semântico e do próprio afeto. Refletido em conceitos, o afeto se realiza, se transforma e se relaciona de modo secundário com outros processos mentais no novo sistema psicológico. Na verdade, esse é o processo subjacente à formação básica da personalidade, que se desenvolve na medida em que “se cortam” os processos naturais e têm a oportunidade de se construir como uma hierarquia de conexões terciárias de consciência. Assim, a liberdade de comportamento é introduzida na teoria como uma característica fundamental da existência humana. Esta posição, que beira a filosofia pura, determina a ontologia da pessoa na abordagem histórico-cultural: estabelece a noção de norma, que é o ponto de partida para a investigação do desenvolvimento anormal.
É a perda da liberdade de comportamento que caracteriza todos os desvios da norma, incluindo os transtornos neuróticos e psicóticos. As formas mais graves de perda dessa capacidade são inerentes à esquizofrenia, que é definida como “… uma mudança patológica na formação do significado (o sistema semântico de conexões e organização da consciência) e deterioração das conexões funcionais dentro da consciência” (caderno “O problema da psicologia da esquizofrenia”, não antes de 1932), causada pela desintegração do modo de comunicação do homem com o mundo e consigo mesmo. No último ano da vida de Vigotski, seu grupo científico teve êxito na realização de investigações de algumas formas nosológicas [1; 7; 27 e outros]; metodologicamente essas investigações também foram construídas a partir do ponto de vista da psicologia de cumes: peculiaridades dos sistemas afetivos, estrutura da personalidade dos pacientes, a natureza de sua interação prática com a realidade (tipos de estrutura, sua diferenciação, permeabilidade de limite, rigidez ou, inversamente, labilidade patológica de processos dinâmicos) foram estudados por sua especificidade, comparados entre si, mas a especificidade da doença foi revelada no contexto da norma [para mais dados ver: 24].
Obviamente, a introdução das categorias e métodos acima mencionados fortaleceu notadamente a posição de Vigotski na discussão com a psicanálise. Diferentemente da ontologia freudiana, que descreve a personalidade neurótica neste ou naquele modo de não liberdade, forçado a buscar um compromisso entre as exigências do meio e seus próprios impulsos Vigotski propôs um ponto de vista diferente do homem, a partir do qual todas as leis de seu desenvolvimento estão, de alguma forma, conectadas com sua capacidade de ser livre. Nesta ontologia, o “ideal do homem” freudiano pode ser visto como uma versão distorcida da norma, já que a fuga para a doença só é possível como fracasso das soluções livres. Parece que aqui há uma zona potencial de reinterpretação das posições de Freud a partir da abordagem histórico-cultural (como as posições do “caso especial” em relação às leis gerais), mas isso deve ser feito com o máximo de cautela, já que tais questões na ciência não são resolvidas no nível dos princípios superiores: devem colidir não com conceitos filosóficos, mas com hipóteses científicas (ver: I. Lakatos sobre a impossibilidade de uma refutação direta do núcleo duro dos programas científicos [25]). Além disso, a relação entre normal e patológico é uma das perguntas mais difíceis não resolvidas até hoje[6].
Notemos que para Vigotski responder à pergunta por que uma pessoa é livre e a outra não (parafraseando de forma psicanalítica: por que uma escolhe o caminho da sublimação e a outra da doença) não significa referir-se ao axioma da liberdade, mas considerar geneticamente o desenvolvimento da personalidade: “A liberdade não é dado, mas se estabelece. Ela… é conquistada em uma difícil luta interna. […]. Não é o princípio, mas sim o fim do caminho do homem” (nota “Rumo a Spinoza”, 1933). A postura sobre a liberdade se justifica a partir de outros princípios do núcleo duro das concepções de Vigotski, particularmente a posição de que uma pessoa se torna pessoa (sinônimo: torna-se livre) na medida em que aprende a falar e a pensar (mais precisamente, a pensar falando). A fala cria um marco para o ser humano; ao impregnar seu pensamento, a fala o leva à existência e lhe dá a oportunidade de se tornar realidade no pensamento e na ação. E aqui se descobre mais um campo potencial de diálogo com psicanálise (em particular com sua versão lacaniana).
Tem sido repetidamente apontado que a psicanálise é, de fato, uma terapia racional de consciência, mas em seus esquemas explicativos tanto o pensamento quanto a autoconsciência são tomadas entre parênteses como um valor constante: se usa, mas não se explica. Aqui está uma citação do caderno “Os relâmpagos do pensamento de Spinoza” (não antes de 1932), no qual Vigotski conecta sua posição com a filosofia de Spinoza: “Freud: tratamento da consciência, ligação com afetos e desejos. [Nas margens há uma marca com uma seta apontando para “Freud”]: Nossas investigações sobre os conceitos da linha espinosista. […]. O conceito de afeto é um estado ativo e é liberdade. Liberdade: afeto no conceito” [mais detalhes ver: 24, p. 91–93]. É essa camada de mediação da teoria freudiana que não foi introduzida, assim como a questão de por que a fala é capaz de fazer mudanças na mente do paciente.
Esta circunstância lembra, em particular, a caracterização de P. Riker que chamou a teoria psicanalítica “energia ingênua” e sua linguagem descritiva “linguagem da hidráulica mental”, bem como a afirmação de L. Binswanger, que considerou a psicanálise como conhecimento não consciente de seu logos. A opinião de Binswanger também foi compartilhado por Vigotski [12, p. 335]), que colocou a consciência e o pensamento verbal no centro de sua concepção e os investigou experimentalmente.
Ao considerar o desenvolvimento da psique superior através do prisma da dinâmica semântica, Vigotski estendeu o ponto de vista do “cume” e o problema do determinismo. Já em 1930 ele discutiu a importância progressista da teoria de Adler, que conseguiu mostrar que os objetivos podem ser mais importantes do que as causas [17, p.75] (ver a conhecida expressão de V. Frankl: “as razões são empurradas, os objetivos são atraídos”). O psicólogo deve compreender não apenas por que o neurótico se move em direção à doença, mas para que o faz, em particular para responder às perguntas relacionadas com o determinismo do desenvolvimento, que vai do passado ao presente, e ao futuro. Na abordagem de Vigotski, essa determinação ocorre por meio do conceito de ZDP e uma forma ideal de desenvolvimento.
Ao reconhecer o papel mediador central da palvra na formação do homem, Freud e Vigotski oferecem ideias diametralmente opostas sobre sua entrada na cultura: a psicanálise acentua seu lado traumático, associado à perda de seu objeto de desejo e à subsequente busca pelo perdido; a psicologia histórico-cultural acentua seu lado de apoio, abertura e transformação do ser humano em palavras e em cooperação com outras pessoas. O social, segundo Vigotski, é a principal fonte que gera os meios de desenvolvimento e seus padrões [2, p.122–123; 8, p.83–88]. A colaboração da criança com o adulto na ZDP não está isenta de problemas, é tão dramática quanto o próprio desenvolvimento já que nem os meios nem as mostras são emprestados automaticamente pela pessoa. A refração da influência do exterior só é possível através do interno, através da vivência, que aparece na abordagem de Vigotski como uma unidade de investigação da personalidade e da situação de desenvolvimento social. Acrescentamos que a personalidade determina eventos significativos, não redutíveis a traumas da criança ou traumas em geral, e que a formação da personalidade continua na idade adulta, onde, idealmente, tem lugar um ato baseado na livre escolha.
No entanto, mesmo com todas as inovações, é prematuro falar de uma discussão em larga escala com a psicanálise. A teoria da consciência como um sistema semântico dinâmico e a ideia de uma ação livre e significativa foram dadas a Vigotski como um esboço, sua reconstrução exigiu que juntássemos cuidadosamente “as peças” individuais disseminadas em publicações e notas pessoais. Podemos dizer que a versão mais recente da abordagem de Vigotski permaneceu no estágio inicial de sua elaboração. Carece de teorias do afeto explicitamente formuladas (ou seja, emoções e motivações) e da personalidade, sem a qual é impossível a polêmica com a psicanálise, bem como de hipóteses detalhadas sobre a natureza do inconsciente; em termos práticos, é impossível não mencionar o problema das aplicações psicoterapêuticas. Além disso, também é difícil comparar as abordagens, porque sua arquitetura não foi totalmente esclarecida. Idealmente, para colocar essas abordagens em contato, é necessário recriar seus postulados metapsicológicos, suas posições teóricas básicas, operar suas hipóteses de nível médio, técnicas e práticas de observação, mas isso parece difícil de alcançar. E, no entanto, podemos pelo menos nos perguntar o que poderia opor Vigotski ao modelo tópico, dinâmico e econômico da psique proposto por Freud. Poderíamos deduzir do trabalho de Vigotski outra explicação da natureza dos seus sintomas básicos (neurose, parapraxia e sonhos)? Seu ponto de vista é capaz de dar uma teoria das psicoses que tenha mais poder explicativo do que o conceito de narcisismo secundário? Essas perguntas estão além do escopo deste artigo, mas pretendemos analisá-las na continuação de nossa investigação.
Conclusão
A análise realizada neste trabalho mostra que a atitude de Vigotski em relação à teoria de Freud refletia uma coincidência entre seus interesses de investigação e suas aspirações de construir uma ciência baseada na análise genética do desenvolvimento de personalidade. Se levarmos em conta outros cruzamentos no que diz respeito à natureza social da personalidade e o papel da fala em seu desenvolvimento, fica claro por que Freud foi uma das principais figuras do círculo de oponentes de Vigotski. Mostramos que a dinâmica da relação de Vigotski com a psicanálise estava determinada pela lógica interna do desenvolvimento da psicologia histórico-cultural, e que essa atitude adquiriu características de confrontação de programas científicos em 1932–1934.
O espaço para a polêmica entre as abordagens surgiu devido à metáfora enérgica, que Vigotski utilizou como “ponte” metodológica: primeiro em “Psicologia da Arte” e posteriormente nos trabalhos que reinterpretam várias teses da teoria de Lewin. Não sabemos se Vigotski planejava manter essa metáfora como parte de seu programa científico ou aplicá-la como um meio ad hoc, porém seu papel progressista é evidente, pois facilitou o surgimento de um diálogo — na verdade, um polílogo — do qual participaram as três principais abordagens psicológicas da época. No entanto, deve-se notar que ele levanta uma série de problemas filosófico-metodológicos quanto à sua aplicabilidade na psicologia, assim como a metáfora do campo, que serviu de ponte entre as teorias de Vigotski e Lewin [20, p.123–126].
Acrescentamos que o diálogo de Vigotski com outros sistemas científicos desenvolvidos em acordo com o esquema proposto em seus primeiros trabalhos metodológicos, onde se negava a possibilidade de anexação direta de outros sistemas científicos: “Quem toma o lenço de um estranho, toma o perfume de outro; quem toma dos psicanalistas — o estudo dos complexos de Jung, a catarse de Freud, a instalação estratégica de Adler — toma boa parte do perfume daqueles sistemas, ou seja, do espírito filosófico dos autores [12, pág.329]. Por trás de cada fato e regularidade, segundo Vigotski, não está apenas uma técnica de observação ou uma hipótese empírica, mas uma teoria como um todo. Deste ponto de vista é razoável perguntar: quanto é necessário tomar da teoria construída sobre uma versão “repressiva” da cultura, na presença de seu próprio conceito, onde o papel da cultura se entende de modo fundamentalmente diferente? É a anexação, por exemplo, da história do pequeno Hans em quem postulados e interpretações inaceitáveis de ponto de vista histórico-cultural estão inextricavelmente entrelaçados? Como mostra a análise das obras de Vigotski, os casos de anexação aberta de áreas psicanalíticas neles são únicos (amnésia infantil, criatividade); remetem mais ao cinturão defensivo da teoria do oponente do que ao seu núcleo, ou estão limitados a princípios técnicos como o princípio de deslocamento ou regressão. Mas mesmo esses fatos e princípios, minimamente carregados ideologicamente, não são emprestados de modo inalterado, mas estão sujeitos a reconsideração e “retirada”, ou seja, recebem uma nova interpretação a partir do ponto de vista histórico-cultural.
Ressaltemos que a polêmica de Vigotski com Freud, Lewin e outros oponentes é um modelo de interação de abordagens, que praticamente não tem análogos na história da psicologia. Há tempos se observa que o desenvolvimento da psicologia se desvia significativamente dos esquemas propostos, por exemplo, por Popper ou Lakatos: os programas científicos não lutam por uma explicação melhor e não se excluem mutuamente. Em geral para a psicologia, a situação de cisma (F.E. Vasiliuk) é mais típica quando os contatos entre endereços individuais não são intensivos, e um experimento crítico é uma prática comum. Embora as anomalias desempenhem um papel importante no desenvolvimento dos programas científicos, não levam à eliminação da teoria, mesmo nos casos mais atrozes (ver a questão sobre a paradoxal “viabilidade” da psicanálise, que se desenvolve apesar de muitos anos de duras críticas [30, p. 436–438]). A este respeito chama atenção a estratégia científica de Vigotski, que não buscou suplantar as teorias seus oponentes, mas criar para eles um espaço de diálogo onde os fundamentos dessas teorias poderiam ser esclarecidos. Ele estava bem ciente da natureza do pensamento, que surge como uma descarga elétrica, na presença de uma diferença de potencial em dois polos; precisava de um interlocutor com uma visão diferente da natureza das coisas. Ele precisamente chamou Freud de uma das mentes mais intrépidas de nosso tempo. [18, pág. 3]: o estilo de pensamento do fundador da psicanálise determinava a capacidade de ver uma anomalia no caos do material factual e a capacidade de fazer perguntas que têm um potencial heurístico e a tenacidade na defesa de seus próprios pontos de vista. Os trabalhos de Freud, escreveu Vigotski, ensinam a buscar a verdade, que é muito mais importante do que a apresentação de verdades prontas [12, p.336]. Emprenhado em uma polêmica com interlocutores como Freud ou Lewin, Vigotski criou passo a passo a psicologia histórico-cultural, mas foi uma luta, não tanto por sua concepção, mas também pela psicologia na qual a “eliminação” de um ponto de vista do oponente não significava sua destruição, mas a inclusão em um contexto mais amplo, no limite, na teoria psicológica geral. Por isso a continuação dessa polêmica nos parece uma das tarefas da psicologia em seu presente e futuro.
= = =
Notas:[0] Publicado em ZAVERSHNEVA, E. Yu. Vigotskiy vs Freyd: o pereosmyslenil psikhoanaliza s tochki zreniya kul’turno-istoricheskoy psikhologii, Cultural-Historical Psychology, v. 16, n. 4, 2016, pp. 14–25. Tradução por Marcela Rosa. Via Bruno Bianchi, Kátharsis.[1] A partir de agora todas as seleções de fontes entre aspas pertencem aos autores das citações.
[2]
Em particular, olhamos para a série de estudos de A. Wilson e L.
Weinstein, onde se analisa a relação entre os conceitos de
«transferência» e «zona de desenvolvimento proximal», a fala interna é
considerada como um meio de comunicação entre analista e paciente, e as
ideias de Vigotski sobre a natureza o pensamento verbal são usadas para
expandir o modelo topográfico do inconsciente [37; 38; 39].
[3]
O fato de Vigotski estar familiarizado com as obras de Voloshinov é
evidenciado por uma citação dele em seu artigo “A psique, a consciência e
o inconsciente” [9, p. 61].
[4] Logicamente, Vigotski
descobriria mais tarde indícios de dualismo não apenas na versão
“instrumental” do seu conceito, mas também na sua versão posterior [21;
pág. 124, 129].
[5] No mesmo ano, 1931, teve lugar o primeiro
dos informes “internos” que conhecemos, de V. F. Shmidt, dedicado à
teoria psicanalítica das emoções, à qual Vigotski se opôs ativamente
afirmando a estratégia errônea de Freud ao derivar diretamente as
emoções superiores das pulsões (aderno “Desenvolvimento anormal da
criança”, 1931).
[6] Em 1931 Vigotski, ao participar com um
escrito do encontro “Sobre a relação entre a psicologia moderna e
psicopatologia”, no qual discutiu o princípio da unidade das leis do
desenvolvimento e a desintegração da mente (caderno “Desenvolvimento
Anormal da Criança”), enfrentou uma crítica contundente do colégio de
especialistas; incluindo os conhecidos psiquiatras S.V. Krayts, I.D.
Sapir e B.D. Friedman, declararam todos que não há leis gerais para a
norma e a patologia, e que a especificidade da doença não pode ser
completamente eliminada da norma, e isso era verdade.= = =
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