segunda-feira, 17 de março de 2025

O marxismo ocidental de Slavoj Žižek


por Domenico Losurdo

I. O anti-imperialismo de Žižek

Se comparado com 1989 e os anos imediatamente posteriores, e se comparado com o período em que o discurso sobre a nada pranteada morte definitiva de Marx se tornara praticamente senso comum, o quadro ideológico de nossos dias se mostra bem diferente: é claro e crescente o interesse pelo grande pensador e revolucionário, e os autores que de uma maneira ou de outra a ele se referem gozam não raro de considerável prestígio e popularidade. Devemos, então, falar de uma recuperação do marxismo ocidental?

Recentemente, o expoente mais ilustre daquele que adora se autodefinir, sedutoramente, como o “marxismo ocidental libertário” saudou 2011 como “o ano do despertar da política radical de emancipação em todo o mundo”[1]. Verdade seja dita, o autor não demorou a admitir a desilusão em que logo recaiu. Mas abstraiamos os desenvolvimentos sucessivos e concentremo-nos no ano de 2011, saudado em termos tão lisonjeiros: sim, era o ano em que novos movimentos de protesto (Occupy Wall Street, Indignados etc.) pareciam se alastrar como fogo, mas também o ano em que a Otan deflagrava contra a Líbia uma guerra  que, depois de provocar dezenas de milhares de mortos, se encerrou com o terrível linchamento de Muammar Kadafi. O caráter neocolonial da agressão era reconhecido por respeitados órgãos da imprensa ocidental. No entanto, Hillary Clinton entregava-se a um júbilo tão excessivo (“nós viemos, nós vimos, ele morreu!”, we came, we saw, he died! — exclamava triunfante a então secretária de Estado), a ponto de provocar escrúpulos até num jornalista da Fox News: em sua opinião, esse entusiasmo por um crime de guerra era perturbador. Infelizmente, a infame empresa neocolonial aqui tratada não apenas não encontrou resistências de relevo no marxismo ocidental como, na Itália, foi legitimada por pelo menos uma figura histórica dessa corrente de pensamento[2].

Ainda em 2011, em Tel Aviv e em outras cidades israelenses, centenas de milhares de “indignados” acorriam às praças contra o alto custo de vida, os aluguéis exorbitantes etc., mas eram bem cautelosos quanto a discutir a persistente e acelerada colonização dos territórios palestinos: a “indignação” alertava para as crescentes dificuldades dos estratos populares da comunidade judaica, mas não julgava digna de atenção a interminável tragédia do povo submetido à ocupação militar. Assim descreve essa tragédia, numa prestigiosa revista estadunidense, um professor da Universidade Hebraica de Jerusalém: ao menos no que se refere aos territórios palestinos ocupados, Israel é uma “etnocracia”, em última instância, um Estado racial.

A colonização das terras palestinas expropriadas pela força prossegue ininterrupta. Os que ousam protestar “são tratados com rigor, às vezes levados à prisão por longo período, às vezes mortos no decorrer das manifestações”. Tudo isso se insere no âmbito de “uma campanha impiedosa cujo objetivo é tornar a vida dos palestinos o mais miserável possível [...], na esperança de que eles vão embora”. É uma obra de limpeza étnica, ainda que diluída no tempo. Estamos diante de uma etnocracia tão dura que nos traz a memória os “tenebrosos precedentes da história do século passado”[3]. Apesar disso, os “indignados” com o alto custo de vida a que estão submetidos, mas indiferentes à cruel “etnocracia” imposta aos palestinos, foram celebrados por dois ilustres autores de orientação marxista como paladinos de uma nova sociedade, “baseada nas relações comunitárias”[4].

Seria 2011, então, “o ano dos despertar da política radical de emancipação em todo o mundo” (para citar Žižek), ou do despertar do ideal de uma sociedade “baseada nas relações comunitárias” (como disseram Hardt e Negri), ou ainda seria o ano em que os crimes colonialistas e neocolonialistas encontram o silêncio ou a conivência até dos ambientes tradicionais da esquerda? Ao traçarem seu balanço abstraindo completamente a sorte reservada aos povos coloniais, Žižek, Hardt e Negri reproduzem, ampliando-o ainda mais, o limite de fundo do marxismo ocidental. Desse ponto de vista, o sucesso de que sobretudo Žižek goza em nossos dias leva-nos pensar não numa recuperação, mas num último suspiro do marxismo ocidental.

O recalque da questão colonial é parte integrante da plataforma teórica e política do filósofo esloveno. Para ele, o mundo existente, anos-luz distante do Outro desejado ou sonhado, é dominado integralmente pelo capitalismo; não faria sentido distinguir as potências imperialistas e colonialistas dos países que há pouco tempo se libertaram do domínio colonial e que ainda, entre tentativas e erros, tentam superar o atraso, alcançar a plena independência também no plano econômico e atribuir-se instituições políticas adequadas às próprias condições econômico-sociais, bem como à própria situação geopolítica. Žižek não é menos hostil do que Arendt à categoria de Terceiro Mundo. Aliás, ele é mais radical. É contundente sua ironia em relação àqueles países que, embora façam referência a uma ideologia revolucionária e por vezes ao marxismo, agitam a bandeira do anti-imperialismo: a luta de classes já não teria como protagonistas “os capitalistas e o proletariado de cada país”, mas se desenvolveria num quadro internacional, contrapondo os Estados mais do que as classes sociais; dessa forma, a marxiana “crítica do capitalismo enquanto tal” se reduz e se deforma em “crítica do ‘imperialismo’”, que perde de vista o essencial, isto é, as relações capitalistas de produção[5].

Depois de tirar do caminho as categorias de Terceiro Mundo, imperialismo e anti-imperialismo, a única distinção sensata, no que diz respeito ao presente, seria a distinção entre “capitalismo autoritário” e não autoritário. Na primeira categoria deve ser incluída a China[6], mas podem ser inseridos também o Vietnã e talvez a própria Cuba, depois das recentes aberturas de mercado e à economia privada (ao menos tendencialmente capitalista). Seja como for, aqui devem ser inseridos os países da “América Latina”, marcados por um “capitalismo populista” inclinados ao caudilhismo e ao autoritarismo[7]. Se olharmos com atenção, de alguma maneira ressurge a distinção desprezada pelo filósofo esloveno, aquela entre Terceiro Mundo, de um lado, e Ocidente capitalista (e com tradições e persistentes tendências colonialistas), de outro. Só que agora tal distinção reaparece por glória exclusiva do Ocidente liberal, que se torna o modelo a ser seguido pelos países do Terceiro Mundo.

Em conclusão: o ponto de vista de Žižek não diverge da autoconsciência das classes dominantes na Europa e nos Estados Unidos. A constatação dessa convergência não é, por si só, uma contestação. É o próprio filósofo esloveno, porém, quem nos fornece essa contestação. Ele menciona a diretiva dada por Kissenger à CIA no intuito de desestabilizar o Chile de Salvador Allende (“Façam com que a economia grite de dor”) e destaca como tal política teve continuidade contra a Venezuela de Chávez[8]. Evita-se, porém, uma pergunta que naturalmente se impõe: por que a Venezuela de Chávez e Maduro deveria ser considerada mais “autoritária” do que o país que pretende a todo custo desestabilizá-la e subjugá-la e que pretende exercer sua ditadura na América Latina e no mundo? Claro, do ponto de vista da autoconsciência do Ocidente liberal, o despotismo ou o autoritarismo exercido contra os povos coloniais são irrelevantes. Com base nessa lógica, em seu discurso de posse do primeiro mandato presidencial, Bill Clinton celebrava os Estados Unidos como a mais antiga democracia do mundo: a escravização dos negros e a expropriação, deportação e dizimação dos nativos não mereciam nenhuma atenção. A uma abstração semelhante e igualmente arbitrária procede Žižek, que nem sequer se pergunta se o autoritarismo de Washington não estimula em alguma medida o autoritarismo de Caracas.

Pode-se fazer uma consideração de caráter geral: é muito estranha uma crítica do capitalismo que poupe os piores aspectos desse sistema, muito evidentes, segundo a lição de Marx, nas colônias. Não teria credibilidade uma crítica ao trabalho assalariado que silenciasse sobre o trabalho escravo, pois a história do trabalho escravo em suas diversas formas está em ampla medida ligada à história da opressão colonial. E certamente é enganosa uma crítica do “autoritarismo” como a de Žižek, que nos leva a menosprezar o “autoritarismo” praticado contra povos que, por decisão soberana de uma grande potência ou de uma coalizão de grandes potências, são submetidos a embargos devastadores ou a bombardeios e ocupação militar.

II. Žižek, o desprezo pela revolução anticolonial e a demonização de Mao

A desconsideração da luta entre colonialismo e anticolonialismo também se manifesta nos capítulos da história evocadas pelo filósofo esloveno. A propósito da revolução dos escravos negros de São Domingo/Haiti, ele observa que, depois da morte de Jean-Jacques Dessalinis, em 1806, esse evento sofre uma “regressão para uma nova forma de domínio hierárquico”[9]. A observação é correta se nos ativermos exclusivamente à política interna. No plano internacional, ao contrário, o cenário é bem diferente: mesmo sem conseguir estabilizar e superar a autocracia, o poder dos escravos ou ex-escravos continua a desempenhar uma função revolucionária: é Alexander Pétion, presidente entre 1806 e 1818, quem obtém de Simón Bolívar o compromisso com a libertação imediata dos escravos em troca de apoio à luta da América Latina pela independência da Espanha. Por outro lado, em defesa obstinada do instituto da escravidão, vemos a “democrática” república norte-americana, que, com um política de embargo ou de bloqueio naval, tenta impor a inanição ou a capitulação ao Haiti, o país que, não obstante o despotismo de seu regime político, encarna a causa do abolicionismo e da liberdade para os negros. Se quiséssemos utilizar o critério que Žižek estabelece para a leitura do presente, deveríamos dizer que o Haiti representava o “capitalismo autoritário”, ao passo que os Estados Unidos representavam o capitalismo mais ou menos “democrático". Contudo, tal leitura nos permite entender muito pouco tanto do presente quanto do passado, além de distorcer ambos.

Não menos unilateral é o juízo formulado pelo filósofo esloveno sobre a União Soviética que sucede a morte de Lênin. Limito-me aqui a reportar uma afirmação lapidar: “Heidegger erra quando reduz o Holocausto à produção unilateral de cadáveres; quem se reduziu a isso foi o comunismo stalinista, não o nazismo”[10]. Deixemos de lado o gosto pela provocação, tão caro a esse autor, que frequentemente parece apreciar mais pirotecnia do que os argumentos. O essencial não é isso: vimos eminentes historiadores caracterizar a agressão hitlerista do Leste como a maior guerra colonial de todos os tempos, uma guerra colonial contra a qual, já sabemos, Stálin se prepara mesmo antes da conquista do poder. Pois bem, o mínimo que se pode dizer é que o teórico do “marxismo ocidental libertário” não tem uma posição preliminarmente anticolonialista! Como ignora o papel internacional do Haiti, encarnação da causa abolicionista apesar de seu regime político despótico, também não dá nenhuma atenção ao papel internacional da União Soviética de Stálin, que, aniquilando a tentativa hitlerista de reduzir a Europa oriental a “Índias alemãs”, deu a sentença de morte para o sistema colonialista mundial (ao menos na sua forma clássica).

O mais significativo é o modo como Žižek se posiciona em relação a outro recente capítulo da história, aquele referente à China. No que concerne à gravíssima crise econômica e à terrível penúria provocadas ou seriamente aprofundadas pelo Grande Salto para a Frente de 1958-1959, ele fala com distraída desenvoltura sobre a “decisão de Mao de matar de fome dez milhões de pessoas no fim dos anos 1950”[11]. Quando vi essa afirmação pela primeira vez, fiquei estarrecido: a tradução italiana seria imprecisa ou muito enfática? Nada disso! A versão original também não dá margem a dúvidas e, na verdade, é ainda mais desconcertante: “Mao's ruthless decision to starve tens millions to death in the late 1950's[12]. No original se fala não de “dez milhões de pessoas", mas de “dezenas de milhões de pessoas"; provavelmente, o tradutor tentou salvaguardar o prestígio do autor que traduziu, redimensionando  seus arroubos. De qualquer modo, é preciso que fique claro: o motivo recorrente da campanha voltada a demonizar, junto com o líder que em Pequim exercia o poder por mais de um quarto de século, a República Popular da China enquanto tal, a república surgida da maior revolução anticolonial da história, tal motivo é reverberado sem nenhuma cautela crítica pelo mais famoso expoente do “marxismo ocidental libertário”!

Todavia,a acusação em questão não obtém crédito algum entre autores mais sérios. Até O livro negro do comunismo, embora insistindo nas proporções colossais do desastre, reconhece que o “objetivo de Mao não era matar em massa seus compatriotas”[13]. Eminentes homens de Estado ocidentais também se recusavam a cavalgar o cavalo de batalha da incipiente guerra fria contra o grande país asiático. Numa entrevista ao jornal semanal Die Zeit, o ex-chanceler alemão Helmut Schmidt fez questão de destacar o caráter não intencional da tragédia que o Grande Salto para a Frente provocou em sua época[14]. De modo análogo argumentou Kissinger: de fato, tratou-se de “uma das piores crises de penúria da história humana”[15]. Mesmo assim, Mao se propunha acelerar ao máximo “o desenvolvimento industrial e agrícola" da China, pretendia alcançar o Ocidente em curto período e, desse modo, obter uma condição de bem-estar difuso e generalizado. Em suma, segundo o ilustre estudioso e político estadunidense, Mao “novamente chamara o povo chinês a mover montanhas, mas desta vez as montanhas não se mexeram”.

Ainda que marcada pela honestidade e seriedade intelectual, as tomadas de posição anteriormente reportadas apresentam um limite: ignoram o contexto histórico em que se insere o Grande Salto para a Frente e que remete à longa duração da luta entre colonialismo e anticolonialismo. Já conhcecemos a preocupação expressa por Mao às vésperas da proclamação da República Popular da China: o país, apesar do respaldo da gloriosa luta de libertação nacional, corria o risco de depender economicamente dos Estados Unidos e, portanto, de se tornar uma semicolônia.

Com efeito, as diretivas da administração Truman eram ao mesmo tempo claras e impiedosas: já em condições desesperadoras devido a décadas de guerra e de guerra civil, a República Popular da China, não admitida na ONU e cercada e ameaçada no plano militar, devia ser submetida a uma guerra econômica que a conduziria rumo a uma “situação econômica catastrófica”, “rumo ao desastre” e ao “colapso”. Isso também provocaria a derrota do Partido Comunista Chinês, que até aquele momento governara somente áreas rurais mais ou menos extensas e, portanto, padecia de uma total “inexperiência” no que se referia ao “campo da economia urbana". Era dessa condição de extrema fragilidade econômica e de potencial queda ou recaída numa condição de dependência semicolonial que Mao tentava escapar, recorrendo a uma mobilização de massas de tipo militar em que dezenas de milhões de camponeses, embora semianalfabetos, com seu entusiasmo revolucionário, deveriam imprimir uma prodigiosa aceleração ao desenvolvimento econômico.

Na realidade, com sua impaciência e com sua inexperiência no “campo da economia urbana”, o líder chinês acabou caindo na armadilha preparada contra ele por seus inimigos. O resultado foi a catástrofe. Um fato, porém, dá o que pensar: no início dos anos 1960, um colaborador da administração Kennedy, a saber, Walt. W. Rostow, vangloriava-se do triunfo dos Estados Unidos, que tinham conseguido atrasar o desenvolvimento econômico da China por “décadas”. Isto é, a penúria que se seguiu ao Grande Salto para a Frente de 1958-1959 não era atribuída à suposta fúria homicida de Mao, mas sim à sabedoria maquiavélica da política perseguida por Washington[16].

Concluindo: Margolin, Schmidt e Kissinger erram ao não inserir claramente o desastroso experimento utopista de Mao na história da tragédia colonial iniciada com as guerras do ópio e ainda  em pleno desenvolvimento nos anos do Grande Salto para a Frente. No entanto, é Žižek que, omitindo tanto a luta entre colonialismo e anticolonialismo quanto a corrida frenética de Mao para escapar da desesperada miséria de massa resultante da agressão e do domínio colonial, atribui tudo à loucura homicida do líder chinês.

= = =
Notas:
[1] Slavoj Žižek, In difesa delle cause perse (trad. Cinzia Arruzza, Milão, Salani, 2009), p. 255 [ed. bras.: Em defesa das causas perdidas, trad. Maria Beatriz Medina, São Paulo, Boitempo, 2011]; e Un anno sognato pericolosamente (trad. Carlo Salzani, Milão, Salani, 2012), p. 163 [ed. bras.: O ano em que sonhamos perigosamente, trad. Rogério Bettoni, São Paulo, Boitempo, 2012].
[2] Ver, neste volume, cap. 5, § 7.
[3] David Shulman,
“Israel in Peril”, The New York Review of Books, 7 jun. 2012.
[4] Michael Hardt e Antonio Negri, Questo non è un manifesto (Milão, Feltrinelli, 2012), p. 66. 
[5] Slavoj Žižek,
“Mao Tse-ting, the Marxist Lord of Misrule”, em Mao. On Practice and Contradiction (Londres, Verso, 2007), p. 2 e 5.
[6] Idem,
“De la démocratie à la violence divine”, em Giorgio Agamben et al, Démocratie, dans quell état? (Paris, La Fabrique, 2009), p. 131. 
[7] Idem, In difesa delle cause perse, cit., p. 450.
[8] Domenico Losurdo, La lotta di classe: una storia politica e filosofica (Roma/Bari, Laterza, 2011), cap. 9, § 7 [ed. bras.: A luta de classes: uma história política e filosófica, trad. Silvia de Bernardinis, São Paulo, Boitempo, 2015].
[9] Slavoj Žižek, Dalla tragedia alla farsa (trad. Cinzia Arruzza, Florença, Ponte alle Grazie, 2010 [2009]), p. 159 [ed. bras.: Primeiro como tragédia, depois como farsa, trad. Maria Beatriz de Medina, São Paulo, Boitempo, 2009].
[10] Idem, “Mao Tse-tung, the Marxist Lord of Misrule”, cit., p. 10.
[11] Idem, In difesa delle cause perse, cit., p. 212.
[12] Idem, In Defense of Lost Causes (Londres/Nova York, Verso, 2008), p. 169.
[13] Jean-Louis Margolin, “Cina: una lunga marcia nella note” (1997), em Stéphane Courtois et. al., Il libro nero del comunismo. Crimini - terrore - repressione (trad. Luisa Agnese Dalla Fontana, Milão, Mondadori, 1998), p. 456.
[14] Giovanni di Lorenzo, “Verstehen Sie das, Herr Schmidt?” (entrevista a Helmut Schmidt), Die Zeit, 13 set. 2012.
[15] Henry Kissinger, On China, (Nova York, The Penguin Press, 2011), p. 107 e 183-4. 
[16] Domenico Losurdo, Il revisionismo storico: problemi e miti (Roma/Bari, Laterza, 2015), cap. 6, § 10 [ed. bras.: Guerra e revolução: o mundo um século após outubro de 1917, trad. Ana Maria Chiarini e Diego Silva Coelho Ferreira, São Paulo, Boitempo, 2017].
= = =
LOSURDO, D. O marxismo ocidental: como nasceu, como morreu, como pode renascer. Trad. Ana Maria Chiarini e Diego Silveira Coelho Ferreira. São Paulo: Boitempo, 2018, p. 165-172.
= = =

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

História idealista em Max Weber: o finalismo histórico



por Ranieri Carli

A crítica burguesa à teoria social marxista alimenta-se de alguns chavões e um dos mais constantes talvez seja associar a Marx uma concepção teleológica da história. Em verdade, é necessário que se diga prontamente que uma teleologia da história é possível de se encontrar em Weber e não em Marx. Ellen Wood discerne:

Foi Weber, e não Marx, quem viu o mundo através do prisma da concepção unilinear, teleológica e eurocêntrica da história, que Marx, mais que qualquer outro pensador ocidental, tentou erradicar. Longe de levar a teoria social a superar as imperfeições do determinismo marxista, Weber a reduziu a uma teleologia pré-marxista, em que toda a história é um movimento no mais das vezes tendencioso em favor do capitalismo, em que o destino capitalista é sempre percebido nos movimentos da história, e em que as diferenças entre as várias formas sociais estão relacionadas aos modos particulares com que incentivam ou obstruem o movimento histórico único (2003: 129).

Nos Gründrisse, Marx afirma a necessidade metodológica de se partir das categorias da sociedade então mais desenvolvida para se capturar a anatomia das sociedades remotas. Parte-se do resultado do processo (a economia burguesa) para lançar luz sobre os aspectos progressistas das formações societárias anteriores. Quanto de relevância histórica adquirem as manufaturas durante o feudalismo, por exemplo, no instante em que se constata que ali nasceu o capital industrial. É claro, esta análise só pode ser feita post festum. O que Marx não permite é que as categorias da sociedade burguesa sejam assim generalizadas para todo o devir do homem. Ele mesmo adiciona à ideia de que a economia burguesa oferece a chave para a apreensão da anatomia das sociedades remotas: “porém não certamente do modo dos economistas, que cancelam todas as diferenças históricas e veem a forma burguesa em todas as formas societárias. Pode-se compreender o tributo, o dízimo, etc., quando se conhece a renda da terra. Mas não se deve identificá-los” (2001: 26). Marx não se esquece de assinalar que as relações capitalistas de produção podem encerrar determinados aspectos herdados de tempos anteriores, como a produção comunal. No entanto, há que se frisar: “elas [as relações burguesas] podem conter estas formas de um modo desenvolvido, atrofiado, caricaturado, etc., porém a diferença será sempre essencial” (Marx, idem: 27). Isso é de imensa importância: a diferença será sempre o essencial. Para a teoria social marxista, o comum entre as formações históricas é o acessório; o essencial é aquilo que as particulariza uma em face da outra.

A crítica de Marx às generalizações abusivas da economia vulgar torna-se mais incisiva em O capital. Segundo Marx, a apologia à sociedade burguesa costuma partir do ponto de vista da mera circulação de mercadorias, quando, na verdade, o método correto seria assumir o ponto de vista do processo de produção. Com este procedimento, a ciência apologética “procura negar as contradições do processo capitalista, reduzindo as relações de seus agentes de produção às relações mais simples que decorrem da circulação das mercadorias” (Marx, 2002: 141). Marx explica que “produção e circulação de mercadorias são, porém, fenômenos que sucedem nos mais diferentes modos de produção, embora com extensão e importância diversas” (idem: 141). A apologia direta ao capital consiste em tomar essas relações abstratas precisamente em seu caráter abstrato: “quando se conhecem apenas as categorias abstratas da circulação, comuns a todos esses modos de produção, é impossível saber qualquer coisa sobre as diferenças características desses modos de produção, não havendo condições para julgá-los” (Marx, idem: 141).

Serve em Weber com toda sua justeza a crítica aos apologistas construída por Marx. Não é difícil de localizar ao longo da obra de Weber a ideia de que as antigas formações sociais não passam de antecipações do que chama de capitalismo racional moderno. Em primeiro lugar, em História geral da economia, Weber define o seu tipo-ideal de capitalismo: “o capitalismo existe onde quer que se realize a satisfação de necessidades de um grupo humano, com caráter lucrativo e por meio de empresas, qualquer que seja a necessidade que se trate” (1968: 249). Qualquer usurário aparece assim como as relações capitalistas de produção projetadas no tempo. É capitalista o homem que entra no mercado com a quantia X e sai com X+1, esteja ele no passado, presente ou futuro. Com este conceito, é fato que Weber atem-se apenas à epiderme da experiência. Mas o sociólogo não é o único. Lujo Brentano lhe faz companhia. Para o economista alemão (que se guia por Werner Sombart), empresa capitalista é a forma econômica que possui o objetivo de aumentar o valor dos bens reais através de uma série de contratos de prestações e contraprestações medidas em dinheiro, e o regime capitalista é aquele em que a empresa capitalista constitui a específica forma econômica (cf. Brentano, 1968: 21). Weber, Brentano e tantos outros tomam as categorias epidérmicas das instituições burguesas como se fossem as características mais peculiares de suas relações de produção.

Mészáros utiliza o tipo-ideal weberiano de capitalismo para colocar em xeque a pretensa “neutralidade axiológica” de seu autor. Lembrem-se de que Weber pretendia-se “neutro” ao criar este tipo (ou qualquer outro). Mészáros distingue muitos elementos a propósito da questão e vamos listar alguns: 1) Weber escolhe definir o capitalismo em termos de uma cultura privada, fomentos de empresas, preterindo alternativas possíveis como “modo de produção”, por exemplo; 2) nada se diz acerca dos fundamentos históricos em que a satisfação das necessidades surge para o homem; 3) o “caráter lucrativo” encobre as relações de exploração da mais-valia entre capital e trabalho; 4) está oculto o fato de que não é só o investimento empresarial, mas também o estatal que caracteriza o capitalismo. Mészáros seleciona outras tantas abstrações do tipo-ideal de capitalismo feito por Weber. O principal é que está problematizada a “neutralidade” do conceito. De forma cabal, o crítico marxista determina que se pode contrapor à definição weberiana esta seguinte: “‘o capitalismo é um modo de produção caracterizado pela extração de mais-valia para efeito de produção e reprodução do capital em escala sempre crescente’. Fica para o leitor decidir qual das duas definições é mais ‘ideológica’” (1993: 29, 30). De fato, deve-se decidir por uma das duas definições porque “não são complementares, mas diametralmente opostas uma à outra: o que absolutamente não seria o caso, se fosse válida a afirmação de Weber quanto ao caráter ‘puramente lógico’ e ‘axiologicamente neutro’ de seus ‘tipos ideais (Mészáros, idem: 30).

Os problemas não se limitam à natureza epidérmica e apologética do conceito de capitalismo em Weber. Na sequência àquela definição que vimos acima, o nosso autor generaliza o seu tipo-ideal para as demais épocas históricas:

O capitalismo se nos apresenta em forma diferente nos diversos períodos da história, porém a satisfação das necessidades cotidianas, baseada em técnicas capitalistas, só é peculiar no Ocidente... O que registramos em séculos anteriores, numa espécie de antecipação, são simples pródromos (Weber, 1968: 250).

São simples e nada mais do que preâmbulos os demais estágios de desenvolvimento do homem. São antecipações que desembocaram inevitavelmente no atual “capitalismo moderno”. Toda a história mundial é compreendida como um trajeto fatal rumo à época capitalista. A pré-história do capitalismo atual é apenas “um simples pródromo” na teleologia designada a resultar na sociedade burguesa. Por isso, repetimos: a crítica que Marx construiu visando atingir os apologistas da sociedade burguesa serve em Weber com todas as suas proporções.
 
Quando captura a história a partir das categorias da sociedade mais desenvolvida, Marx não subtrai as transformações dinâmicas que culminaram na formação social que provisoriamente está no cume do processo evolutivo. Em seu tempo, Weber toma a sociedade burguesa e apaga as particularidades dos modos de produção que lhe precederam; todos não passam de meras “antecipações”. Os diversos estágios de desenvolvimento do ser social, para Marx, possuem sua própria dinâmica interna, sua peculiar totalidade de complexos, suas categorias e estrutura autônoma; uma categoria como “escravidão” pertence à determinada particularidade histórica, e o mesmo se diz para “vassalagem” e “trabalho assalariado”. Para Weber, os demais estágios da evolução humana são apenas tendências que obstruem ou favorecem em maior ou menor grau o destino único rumo ao nascimento do capitalismo moderno ocidental; uma categoria como “capital” pertence a toda e qualquer etapa societária.

Ainda que demarque certos aspectos abstratos de diferenciação histórica, Weber sente-se à vontade para escrever em A ética protestante e o espírito do capitalismo que “‘capitalismo’ existiu na China, na Índia, na Babilônia, na Antiguidade e na Idade Média” (2004b: 45).

É curioso o modo pelo qual são descobertas por Weber as relações capitalistas na Antiguidade romana. A preocupação é compreender até que ponto as leis facilitavam o empreendimento capitalista, um problema que Weber procurava resolver desde os primeiros anos de academia, conforme atesta a sua dissertação (cf. Weber, 2003a). Posteriormente, na História agrária romana, o sociólogo estuda as legislações que versam sobre a propriedade fundiária e encontra-se com o ager publicus, que, segundo ele, desvinculava a propriedade da terra de seu caráter individual (cf. Weber, 1994: 98). Por meio desta lei, estavam concedidos à livre iniciativa a concessão e o usufruto das terras do Estado; a legislação do ager publicus teria incentivado a livre concorrência pela posse da terra pública. Então, Weber presume:

Com toda probabilidade, conforme a natureza dos compromissos da época, estabeleceu-se uma igualdade jurídica de todos os cidadãos ante a terra pública com a concessão geral da liberdade de pastoreio e de ocupação, e tentou-se mascarar, na medida do possível, esse impulso ao capitalismo com a introdução, ao menos em teoria, da obrigatoriedade de um tributo. De fato, observou-se frequentemente que essa livre concorrência não pode ter beneficiado os pequenos proprietários, mas, antes, os grandes capitalistas patrícios ou plebeus; em suma, ela representou o mais desenfreado capitalismo agrário da história (1994: 106).

Na realidade da Roma antiga, Weber deparou-se com o “mais desenfreado capitalismo agrário da história”. O ager publicus equiparou os homens em face das leis — aliás, como sempre quis o liberalismo burguês. A livre concorrência liberal teria aberto as vias que impulsionaram o capitalismo romano nas terras públicas, cuja expansão jamais foi repetida na história. Tentou-se freá-lo com a cobrança de tributos, o que favoreceu os “grandes capitalistas patrícios ou plebeus”; mas, de qualquer forma, não foi suficiente. Weber julga que a livre concorrência do ager publicus representou o mais desenfreado capitalismo agrário da história.

A análise do “capitalismo agrário romano” prossegue: “durante toda a era republicana, continuaram levantando-se vozes que reclamavam a divisão do ager publicus, mas essas vozes perderam sua justificativa íntima quando a massa dos proletários, que as havia erguido, perdeu pouco a pouco suas antigas características” (Weber, 1994: 107). A “massa proletária” da Roma antiga, que se opôs ao ager publicus e ao “capitalismo desenfreado”, foi gradativamente perdendo voz porque perdeu sua identidade, suas antigas características que a uniam em torno de interesses práticos. Roma deixava de ser uma cidade com amplas terras a serem ocupadas; “enquanto Roma ia assumindo cada vez mais o caráter de grande metrópole, o proletariado perdeu sua energia expansiva; concentrou-se numa plebe urbana de tipo moderno” (Weber, idem: 107).

Como se Weber estivesse tratando da Roma do século XX. Sob a égide do “mais desenfreado capitalismo”, a “massa dos proletários” desenvolveu-se em uma “plebe urbana de tipo moderno”. Não se iludam: o tema daquele livro é a história agrária romana da Antiguidade. Livre iniciativa, legislação liberal, concorrência de mercado, grande capital latifundiário, massa proletária de tipo moderno e capitalismo agrário: são categorias que Weber extrai da sociedade burguesa e projeta para a realidade da Antiguidade. Olha-se para o passado remoto e descobre-se a sociedade do presente. A sua teleologia da história possibilita tais exacerbações. Cancelam-se as diferenças e encontra-se a forma atual de sociabilidade no conjunto extensivo da história.

Não pensem que isso se deve à juventude de História agrária romana[1]. Na maturidade de Economia e sociedade, estas ideias foram retomadas e acentuadas com outros componentes. Desta vez, Weber afirma explicitamente que o império romano foi a primeira amostra do capitalismo imperialista: “a expansão ultramarina de Roma... mostra — pela primeira vez na história de forma tão marcante e, ao mesmo tempo, em escala gigantesca — traços que, desde então, semelhantes em seus elementos fundamentais, apresentam-se sempre de novo, até hoje” (1999: 168). Os traços vistos na expansão romana apresentam-se repetidamente na história. Nietzsche arremataria completando que, por isso, a história é um eterno retorno. Weber expõe os elementos que vê na antiga Roma e que se repetem ininterruptamente: “são próprios de um tipo específico, apesar de não se distinguir claramente de outros tipos de relações capitalistas — ou melhor: oferecem-lhe condições de existência — que denominaremos capitalismo imperialista” (idem: 168). Não só houve capitalismo na Antiguidade romana como este capitalismo foi de espécie especificamente imperialista. Os aspectos gerais que estariam presentes em Roma e que se reiteram em giros circulares são estes: “trata-se dos interesses capitalistas de arrendatários de impostos, credores do Estado, fornecedores ao Estado, capitalistas do comércio exterior e coloniais estatalmente privilegiados” (Weber, idem: 168). São traços que sempre retornam à história ao infinito. Não foram poupadas abstrações na tarefa de eternizar para a história as relações da fase monopolista do capital.

Continuemos com Weber a buscar a “ação capitalista” entre os povos da Antiguidade. No Judaísmo antigo, outro livro da maturidade, Weber estuda a conduta religiosa dos judeus no período anterior à diáspora e percebe também ali uma espécie de capitalismo. Eis que igualmente houve capitalismo no antigo Oriente Médio. O interessante nome que Weber lhe dá é “capitalismo pária judeu”. Constituía-se da prática da usura e do comércio com os não-judeus, os homens que não pertenciam aos guetos judaicos. Lembrem-se de que a presença de um simples usurário é pretexto para que Weber transponha as relações capitalistas para as formações socioeconômicas passadas. Apesar de “sentirem-se em casa em várias formas de capitalismo”, os judeus “falharam ao desenvolver os traços específicos do capitalismo moderno. Isto é verdade para a Antiguidade, a Idade Média e os tempos modernos” (Weber, 1967: 345). Dada a especificidade do “capitalismo pária”, os judeus não anteciparam as linhas do capital moderno, estivessem eles entre os antigos, medievais ou modernos. Repete-se o que disse Ellen Wood no início do item, Weber analisa a história para encontrar barreiras ou incentivos ao desenvolvimento do capitalismo moderno ocidental[2].

Após toda esta exegese, não é de se admirar que as abstrações desmesuradas de Weber levem-no a estender as relações capitalistas até a distante China antiga:

Durante o Período dos Reinos Guerreiros e suas lutas por poder político, existiu um capitalismo de provedores de empréstimo monetário, que era politicamente determinado e aparentemente muito significativo. Altas taxas de lucro pareciam ser a regra. Na China, como em outros Estados patrimoniais, este tipo de capitalismo era costumeiro. Somando a estas transações politicamente determinadas, a extração e o comércio são mencionados como fontes de acumulação de bens. Dizem terem existido multimilionários sob a dinastia Han (no padrão do cobre). Quando a China unificou-se politicamente em um império mundial, como o orbis terrarum unificado do Império Romano, o resultado foi um óbvio retrocesso deste capitalismo, essencialmente vinculado à competição entre Estados. Por outro lado, o desenvolvimento do mercado capitalista puro, de busca por livres oportunidades de comércio, era apenas rudimentar (Weber, 1968a: 84).

Acreditamos não ser preciso rediscutir a natureza excessiva das projeções weberianas. À guisa de esclarecimento, a citada dinastia Han perdurou de 206 a.C. ao ano de 220 d.C.

Essas tamanhas abstrações, no entanto, são lidas da pena de autor que escreveu um dia: “nada seria mais perigoso que representar as condições da Antiguidade em uma feição ‘moderna’. Aquele que o faz subestima a variedade das formas que a Idade Média nos produziu, precisamente à sua maneira, no domínio do direito do capital” (Weber, 2001: 96). Estas palavras pertencem à obra que recebeu o titulo original de Relações agrárias na Antiguidade. Haveria perigo em se representar a Antiguidade a partir das categorias “modernas”; isso seria subestimar a variedade histórica. Sugere-se que, no livro de 1909, Weber será menos epidérmico do que no restante de sua extensa produção teórica; dessa vez, não se subestimará a variação das formas históricas. Apesar da aparente cautela, o ponto de vista burguês termina por prevalecer na leitura que Weber produz dos povos antigos neste estudo; é o que justifica a colocação de uma pergunta como esta: “a Antiguidade conheceu a economia capitalista a um grau que seja significativo do ponto de vista da história mundial?” (Weber, idem: 98). Quando Weber fala acerca do “ponto de vista da história mundial”, que se ouça, em verdade, do “ponto de vista da sociedade burguesa”. Com idas e vindas, Weber prescinde da cautela inicial e conclui afirmativamente que “o caráter amplamente ‘capitalista’ de épocas inteiras da história antiga (e precisamente das ‘maiores’ épocas) parece então de todo assegurado” (idem: 101). Épocas inteiras dos povos antigos foram de caráter “capitalista”. Com transparência meridiana, Weber reconheceu que é perfeitamente possível de assegurar a ocorrência das relações capitalistas em etapas distintas da evolução do ser social, se o conceito de capitalismo for “puramente econômico”, “se não se limite, não sem motivo, o conceito de ‘economia capitalista’ ao modo determinado de valorização do capital, isto é, a exploração do trabalho alheio mediante um contrato com o trabalhador ‘livre’, se não se inserirem determinações sociais no conceito” (Weber, idem: 101). Concordamos integralmente com o escrito weberiano: caso não se apreendam as determinações sociais do modo de produção capitalista, caso não se restrinja a produção capitalista à valorização do capital por meio da extração de mais-valia do trabalhador “livre” para vender sua força de trabalho, então é fácil de assegurar a presença do capitalismo na Antiguidade.

Na Antiguidade manifestam-se relações capitalistas. E do mesmo modo no feudalismo. Em História geral da economia, Weber começa o parágrafo que se chama “desenvolvimento capitalista do regime feudal” com o seguinte dizer: “o sistema feudal, determinado por fatores militares, e concebido, a princípio, para assegurar aos senhores a exploração das terras e da mão-de-obra, demonstrou uma forte tendência a orientar-se no sentido capitalista” (1968: 92). O sentido capitalista das relações feudais seria claro nas plantações sob a forma de “fazendas”. A peculiaridade do estudo weberiano sobre a economia dos latifúndios feudais é que os exemplos históricos trazidos às páginas iniciais são concernentes a Inglaterra dos séculos XVI e XVII, quando, em verdade, se avança o processo de acumulação primitiva do capital. Ao longo do texto, outros fatos são reportados, como a organização econômica da Rússia feudal, com os quais Weber tenta provar a existência das instituições capitalistas durante o feudalismo. A conceitualização equivocada coloca em xeque a estrutura da História geral da economia, um livro riquíssimo nos detalhes e, por isso, imprescindível para o conhecimento das relações sociais de produção historicamente constituídas.

A descoberta do “capitalismo medieval” não fez com que Weber se abstivesse de reproduzir a vulgata burguesa que entende a Idade Média como um interlúdio de trevas entre a Antiguidade e a “civilização burguesa moderna”. Weber sustenta que a queda do império romano implicou a queda da antiga economia urbana. Com o término do “ciclo do desenvolvimento econômico” dos povos antigos, “seu gênio criador parece completamente exaurido. Com o comércio, submergiu o esplendor dos mármores das cidades antigas e, com elas, todas as riquezas espirituais que nela repousavam: a arte e a literatura, a ciência e as formas refinadas do direito comercial antigo” (Weber, 2001: 82). O fim da grande civilização antiga implicou o retorno para o campo: “a civilização torna-se rural” (Weber, idem: 82). A economia perde seu caráter “burguês urbano” e parte rumo ao feudalismo, à autoridade despótica dos senhores fundiários. “Deste modo, desaparece o véu da civilização antiga e a vida espiritual da humanidade ocidental mergulha em uma longa noite” (Weber, idem: 82). Se um dos autores clássicos acordasse em qualquer dos mosteiros medievais, consideraria tudo estranho: “ele seria assaltado pelo odor do esterco do domínio feudal” (Weber, idem: 83). Entretanto, após a longa noite do feudalismo, o homem retorna à claridade diurna com a sociedade burguesa. Apenas com o desenvolvimento da burguesia urbana durante a Idade Média, “os velhos gigantes armaram-se de novas forças e o testamento espiritual da Antiguidade foi revivido à luz da moderna civilização burguesa” (Weber, idem: 83).

Afinal, as passagens acima são suficientes para demonstrar que, para a interpretação teleológica da história em Weber, haveria relações capitalistas em todo o tempo e lugar. Basta que alguém atue em busca do lucro para que o capitalismo esteja presente.
 
Falamos do capitalismo que Weber transpõe para o passado, mas não ainda daquele previsto para o futuro. Isso se clarifica de melhor forma com a análise que o sociólogo faz da burocracia. E aqui nos ocuparemos bastante do tema. A natureza teleológica que Weber imputa ao devir histórico não possuiria melhor estampa do que as suas teses acerca da “liderança burocrática”. A fundamental característica dos burocratas seria a extrema “racionalidade” com que executam as tarefas; o aparato burocrático desenvolve sua peculiaridade “com tanto maior perfeição quanto mais se ‘desumaniza’, vale dizer, quanto mais perfeitamente consegue realizar aquela qualidade específica que é louvada como sua virtude” (Weber, 1999: 213). Weber fala especificamente da “eliminação do amor, do ódio e de todos os elementos sentimentais, puramente pessoais e, de modo geral, irracionais, que se subtraem ao cálculo, na execução das tarefas oficiais” (idem: 213). Com este modelo de ação racional relativa a fins, “esta burocracia pode operar muito melhor do que qualquer outra estrutura de dominação” (Weber, 1974: 31).

O verdadeiro triunfo do cálculo burocrático é observado por Weber nas indústrias que se guiam pela organização “científica” do trabalho. Os delineamentos da “gerência científica” são descritos em Economia e sociedade:

O aparelho psicofísico do homem é aqui completamente adaptado às exigências do mundo externo, do instrumento, da máquina ou, em uma palavra, da função, despojado de seu ritmo dado por sua própria estrutura orgânica e submetido a um novo ritmo que, depois da análise sistemática das funções de cada músculo e da criação de uma ótima economia de forças, corresponde perfeitamente às condições do trabalho (Weber, 1999: 362).

Weber dá a este processo a denominação de “adestramento e treinamento do trabalho produtivo”. Em verdade, são as modalidades de exploração capitalista da força de trabalho que ficaram associadas ao nome de Taylor. Para Weber, são apenas métodos racionais de medição do “ótimo de rentabilidade” de cada trabalhador individual (cf. Weber, 1999: 362).

A burocratização da vida social é uma tendência que Weber qualifica como “inevitável”; em Parlamentarismo e governo numa Alemanha reconstruída, trata-se “do avanço irresistível da burocratização” (Weber, 1974: 32). Detém uma natureza teleológica e não haveria exército que impedisse o seu triunfo. E, caso fosse tentada uma revolução que instituísse uma sociabilidade para além dos limites do capital, Weber avisa: “a burocracia estatal reinaria absoluta se o capitalismo fosse eliminado. As burocracias privada e pública, que agora funcionam lado a lado, e potencialmente uma contra a outra, assim restringem-se mutuamente até certo ponto, fundir-se-iam numa única hierarquia” (idem: 31). Weber aprecia que, durante a vigência do capital, as burocracias estatal e privada atuam em paralelo e limitam-se reciprocamente; a derrocada do capitalismo só faria congregar as duas modalidades de burocracia, o que ampliaria a força do império burocrático. A eliminação do capitalismo instituiria o reino absoluto da burocracia. Na letra de Weber, a luta contra a burocracia seria então uma luta inglória, fadada ao fracasso.
 
Em meio às ideias de Weber, é necessário ter atenção sobre o que está em jogo quando se lê acerca da inexorabilidade da burocratização. Com efeito, o que Weber promove em sua teoria é uma generalização de seu próprio tempo histórico:
 
O ponto mais discutível de suas ideias é, sem dúvida, a afirmação — que é o cerne de sua “sociologia política” e o resultado de uma abstração injustificável e de uma “desistorização da História” — do destino burocratizado dos tempos modernos, ou seja, de que “o futuro pertence à burocratização”. Mas esse ponto, na verdade, nada mais reflete do que a generalização da experiência alemã por parte de Weber, em primeiro lugar para o capitalismo em geral e, depois, para o conjunto da humanidade (Nogueira, 1977: 146).

A teoria weberiana encoberta o fato de que a burocratização da vida social é uma característica do estágio monopolista do capital, em que não só a produção mas todas as esferas da cotidianidade são reificadas, o que demanda o controle burocrático, a manipulação do consumo inteiro dos homens. “A disciplina burocrática transcende o domínio do trabalho para regular a vida inteira de quase todos os homens, do útero à cova” (Netto, 1981: 82). O caso da Alemanha é ainda de maior dimensão haja vista o forte peso adquirido pelo Estado prussiano de Bismarck. As determinações de classe do movimento de regulação da vida cotidiana não são levadas em conta pela teleologia da história de Weber. A fase imperialista do capital particularizada na Alemanha é o período histórico que Weber transforma em inevitável necessidade, encontrando antecipações suas desde a Antiguidade (Egito, Roma, China, Pérsia, Esparta, etc.) e fazendo-o perdurar até as sociedades do futuro.

Ao contrário do que relata acima Marco Aurélio Nogueira, a generalização de um período histórico por parte de Weber não é uma “abstração injustificável”. Não paira a menor dúvida de que seja uma enorme abstração; porém, que se justifica pelo fato de que Weber atuava dentro das fronteiras objetivamente postas pelas lutas de classe de seu tempo. Para a burguesia do pós-1848, qualquer abstração era justificável caso fosse conveniente à conservação do estado de coisas.

Uma constante no processo de decadência ideológica da burguesia é o convite à resignação. Com Schelling, Schopenhauer, Kierkegaard, Nietzsche e outros decadentes, foram vistas algumas formas de se educar o homem para a passividade. À sua maneira, Weber apresenta uma forma de resignação pessimista e de apologia indireta do capital: a burocratização da vida moderna é uma “jaula de ferro” que, embora aprisione os indivíduos, não é reversível. A racionalidade da vida social caminha sem perturbações e que os homens deixem-se levar. São os “malefícios” da sociedade burguesa alçados à condição humana inelutável.
 
No passado (Antiguidade e Idade Média), Weber via formas do capitalismo que impediam ou antecipavam os traços racionais da “ação de se obter lucro”; no presente, está em vigência o capitalismo de específico caráter racional; e no futuro, a racionalidade burocrática do capital persistirá em vigor.

É profundamente mistificador perder de vista o caráter teleológico que Weber atribui à racionalidade do capital quando se analisa a sua relação com a tese do fetichismo da mercadoria descrita por Marx. Para o bem dos fatos, deve-se rejeitar categoricamente a seguinte observação: “entre a ‘racionalização’ de Weber e a ‘alienação’ de Marx, a distância não é grande” (Colliot-Thélène, 1995: 48). O inverso é o verdadeiro: a distância é abismal. Dissemos acima que Weber apreende traços imediatos do processo de reificação do cotidiano no período do capitalismo monopolista, transformando-os em eternos. Marx abarca a totalidade contraditória das relações capitalistas dentro de seu processo histórico de gênese, desenvolvimento, crise e possibilidades concretas de superação. Weber não pretendia unir a ciência à ação, mas, se fosse o caso, uma crítica técnica reparadora é o máximo de prática que as suas teses permitiriam; a crítica resignada ao capital não pretende a sua superação, senão sua apologia indireta. É ocioso recordar que Marx concebe uma autêntica crítica revolucionária à sociedade burguesa; a transformação radical do modo de produção capitalista é o máximo de ação prática que as teses marxistas permitem. Colliot-Thélène não considera esses grandes pontos de discordância ao afirmar que a racionalização em Weber não distancia em muito da alienação em Marx.

A socióloga não é única a afirmar o íntimo parentesco entre Marx e Weber. Beetham sugere que existem “ecos” do “conceito de alienação de Marx” em Weber no instante em que este último afirma que a racionalização assume “forças e valores próprios”, independentes do homem (cf. Beetham, 1974: 71). Há inclusive quem sustente que é “consensual” a afinidade entre os dois: “[há] um consenso (embora frágil) que existe um certo paralelo entre a visão de Weber sobre a racionalidade e a visão de Marx sobre a alienação, que existem muitos pontos pacíficos entre Marx e Weber na conceitualização do capitalismo” (Holton & Turner, 1990: 17, 18). Nunca é demais recordar que este consenso não nos inclui.

Até mesmo nos instantes que Weber parece reproduzir algumas determinações capturadas por Marx, as diferenças dos pontos de vista de classe ganham relevo. Quando parece que a teoria da racionalização burocrática tangencia em alguns pontos o processo de fetichização do capital descrito por Marx, Weber é incapaz de ultrapassar o “círculo familiar dos objetos”, assim expressaria Schiller. Prestem atenção na maneira pela qual, ao estudar as condições dos trabalhadores nas fábricas alemãs, Weber chega perto de processos descritos por Marx como a transformação do operário em apêndice da maquinaria:

Na questão da “rentabilidade”, a capacidade de rendimento do trabalhador é considerada no mesmo sentido que a rentabilidade de uma classe qualquer de carvão ou de um mineral ou de qualquer outra “matéria prima”, de uma fonte de energia ou de uma determinada máquina. O trabalhador é aqui, em princípio, nada mais que um meio de produção rentável..., com cujas capacidades e “falhas” há que se contar, como se conta com as de qualquer meio de produção mecânico (Weber, 1999b: 131).

Weber chega perto das determinações do capítulo sobre a maquinaria de O capital, mas não as reproduz. Faltou dizer que, embora em aparência possa ser tratada como um “meio de produção”, um apêndice da maquinaria, a força de trabalho é, em verdade, a mercadoria particular sem a exploração da qual não existiriam as relações de produção capitalista. O trabalhador é um “apêndice” que gera mais-valor, o que nenhum meio de produção poderia efetuar; não se extrai mais-trabalho de um meio de produção. A “rentabilidade” da força de trabalho será sempre imperiosa ao capital. Ao contrário do argumento de Weber citado acima, as falhas da rentabilidade da força de trabalho possuem uma grandeza que não se compara com as falhas da rentabilidade do carvão ou de qualquer matéria prima. São estas as contradições essenciais que movem o processo. Para o capital, a classe trabalhadora nunca foi “nada mais que um meio de produção rentável”.

Nesta pesquisa sobre os trabalhadores alemães, quando se ocupa da extensão da jornada de trabalho, Weber põe às claras as diferenças entre o que chama de racionalização burocrática em face das formas capitalistas de alienação apreendidas por Marx. Nesse caso, a interrogação de Weber respeita à influência do aumento ou da diminuição da jornada sobre o “rendimento” do trabalhador; que espécie de mudança na jornada causa a “fatiga psicofísica” na classe operária. Menciona o exemplo a fábrica de tecelagem Zeiss que reduziu a jornada e o trabalho “rendeu” tanto ou inclusive mais do que uma jornada ampliada (cf. Weber, 1999b: 143). A propósito do assunto, escaparam a Weber elementos importantes que constam em O capital: a extensão da jornada e sua divisão entre o custo de reprodução da força de trabalho e o mais valor produzido; a ampliação ou redução da jornada de trabalho e a sua relação com a transformação da mais-valia absoluta em relativa; os métodos de exploração de mais-valia relativa caso a jornada esteja limitada por lei (incremento da produtividade do trabalho, o exército industrial de reserva, a introdução de novidades tecnológicas, etc.); a passagem da subsunção formal para a subsunção real do trabalho ao capital; a intensificação do trabalho; as melhorias ou os retrocessos do custo de reprodução da força de trabalho de acordo com as lutas travadas entre capital e trabalho, e outros. Se não houver grande distância entre a “racionalização” de Weber e a “alienação” de Marx, é de se explicar o porquê do abissal intervalo entre o que os autores disseram sobre a jornada de trabalho.

Disso não resulta que Weber não tenha capturado determinadas formas de resistência do trabalhador face aos avanços do capital. O debate sobre a “autorrestrição” cumpre um papel importante neste seu estudo empírico sobre a classe trabalhadora alemã. O trabalhador impõe-se conscientemente um limite de produção; restringe o próprio trabalho para que não dê maiores ganhos ao capital. A autorrestrição demanda um certo grau de consciência dos seus interesses por parte do trabalhador em antagonismo aos interesses do capital. Weber afirma que “a ‘autorrestrição’ intencional e consciente, não apenas involuntária e dependente do ânimo, dá-se em todos os lugares em que exista algum sentimento de solidariedade entre os trabalhadores ou em uma parte significativa deles, a despeito da organização sindical” (1999b: 157). Weber capta uma modalidade de resistência do operário e, ademais, atrela esta resistência à solidariedade de classe. Contudo,o sociólogo não transgride as fronteiras colocadas para sua classe; não vislumbra que a resistência espontânea do trabalho frente ao capital possa evoluir para a política revolucionária. Não era de se esperar que Weber pusesse tais temas em pauta de discussão. Pois, é evidente, logo nos capítulos introdutórios a Sociologia do trabalho industrial, declara-se que a empresa monopolista moderna “transformou o rosto espiritual do gênero humano quase até não reconhecê-lo e seguirá transformando-o” (Weber, idem: 74). Que resistam os trabalhadores porque o capitalismo burocrático modelou e seguirá modelando a face do gênero humano.

Lukács sempre teve enorme prudência ao traçar paralelos de Marx com os filósofos burgueses. Na análise da relação entre Marx e Vischer, Lukács apreende questões metodológicas que podem servir ao presente debate. Sabe-se que Marx acompanhou atentamente a produção teórica do esteta irracionalista. Lukács encontra algumas ressonâncias da leitura de Vischer na obra de Marx, como, por exemplo, nas passagens sobre os mitos gregos nos Gründrisse. Obviamente, não seria a circunstância para reproduzir a discussão completa; o decisivo é reter a afirmação de Lukács quando compara os trechos de Marx que parecem nascer da influência de Vischer: “é impossível não notar que as duas exposições apresentam certos traços comuns, ainda que sejam de natureza muito geral” (1957: 297). Isso, no entanto, não é suficiente para que Lukács convença-se de que Marx corrobora com a estética irracionalista de Vischer: “certamente o confronto entre os autores revelará ao mesmo tempo de modo mais explícito a radical diferença entre as duas concepções, o seu diverso fundamento de classe e, por isso, a sua linha de desenvolvimento diametralmente oposta” (Lukács, 1957: 297, 298). Daí, Lukács aprofunda o cotejo entre os dois, o que evidencia a mencionada “radical diferença”. Nas mãos de Marx, as influências de Vischer mudam de caráter, ganham uma “linha de desenvolvimento diametralmente oposta”.
 
É esta a postura metodológica a ser seguida quando se trata da relação entre Marx e Weber. Os prováveis ecos de Marx em Weber adquirem uma “linha de desenvolvimento diametralmente oposta”. A “racionalização” de Weber e a “alienação” de Marx distam remotamente; discutiram a introdução da maquinaria no processo produtivo, a jornada de trabalho, as formas de resistência do trabalho ao capital, mas assumiram pontos de vista de classes distintas.

É preferível que se descartem os paralelos com Marx e que se procurem com autores diversos os laços da interpretação de Weber acerca do capitalismo burocrático. Ao concluir o capítulo sobre Weber em A destruição da razão, Lukács diz que o sociólogo faz a ponte entre a filosofia imperialista do neokantismo e o existencialismo (cf. 1968: 500). A correlação é exata, a nosso ver. Também em Heidegger a situação do capital monopolista é eternizada para todo o ser social, com a peculiaridade que aqui se transforma na condição ontológica do homem. A angústia dos tempos do estágio imperialista do capital é um dos elementos que constituem a ontologia existencialista: “aquilo com que a angústia se angustia é o ‘nada’ que não se revela ‘em parte alguma’. Fenomenalmente, a impertinência do nada e do em parte alguma intramundanos significa que a angústia se angustia com o mundo como tal” (Heidegger, 1997: 250). Para Heidegger, o princípio motivador da angústia é o mundo enquanto tal e não o mundo do capital monopolista. Kierkegaard havia escrito que um pouco de eternidade compunha o desespero humano e Heidegger afirma que o homem jamais supera o estado de angústia. O homem está condenado à angústia. É a resignação frente à fase imperialista do capital compartilhada entre os existencialistas e Weber. Efetivamente, as circunstâncias históricas não são de todo distintas. A segunda e completa edição de A ética protestante e o espírito do capitalismo é de 1920 e a publicação de O ser e o tempo é de 1927. Respondem à mesma particularidade histórica. Não se duvida que haja especificidades entre Weber e os existencialistas (e mesmo entre os existencialistas; que se comparem os franceses com os alemães). Mas todos fincam estacas no mesmo território político-teórico.
 
Lukács estabelece a correlação entre o neokantismo de Weber e existencialismo de Heidegger que, a nosso parecer, é correta. No terreno do pensamento burguês, Weber é ponte de transição que conduz a Heidegger. Em contrapartida, existe novamente em Colliot-Thélène a tendência de equiparar as teses de Weber acerca do Estado burocrático com as de Hegel; não só Marx mas igualmente Hegel seria correlato de Weber quanto à burocracia. Com efeito, é a tese central do livro O desencantamento do Estado: de Hegel a Weber, de Colliot-Thélène. As palavras introdutórias já exibem a tendência: “as similitudes que existem entre as análises hegeliana e weberiana do Estado moderno foram raramente assinaladas. São, entretanto, completamente perceptíveis” (Colliot-Thélène, 1992: 07). A socióloga discorre a propósito das semelhanças dos dois autores a respeito do funcionalismo estatal. Por exemplo, segundo ela, em Weber também haveria “o tema da dedicação ao bem público, igualmente presente, e fundamentalmente, no Estado hegeliano” (idem: 15). Todo o texto direciona-se no sentido de construir um parentesco entre a “filosofia política” de Hegel e a “sociologia da dominação” de Weber.

Colliot-Thèléne acredita ter encontrado o grande trunfo de seus argumentos no fato de que Hegel teria percebido o desprendimento da esfera administrativa estatal em face das demais esferas societárias. Tal desprendimento autônomo seria posteriormente analisado em larga escala por Weber. É feito o vínculo: “Hegel, como vimos, antecipou esta dissociação das práticas sociais que está no coração do processo de ‘racionalização’ descrito por Weber” (Colliot-Thèléne, 1992: 261). Ali estão as similitudes perceptíveis entre os pensadores. Apesar de ressalvar certas distinções metodológicas (o projeto hegeliano de uma filosofia da história que nunca esteve nos planos weberianos), este foi o argumento com o qual Colliot-Thèléne procura convencer-nos das afinidades teóricas entre o dialético idealista e o positivista neokantiano: a burocracia desprende-se enquanto classe autônoma na gerência cotidiana dos negócios do Estado.

Na verdade, a socióloga francesa atem-se a aspectos formais de Princípios da filosofia do direito e de Economia e sociedade. Se ambos teorizaram sobre a burocracia desencantada, as suas respectivas teses assumem funções históricas bem diversas; refletem contextos distintos. Tomando de novo o modelo de Lukács ao estudar Marx e Vischer, veremos que as similitudes formais desaparecem ao analisarmos o conteúdo histórico dado ao Estado burocrático em Hegel e em Weber.

Bom leitor de Hobbes, Hegel entendia a sociedade civil como “o campo de batalha dos interesses individuais de todos contra todos” (1976: 265). No âmbito da sociedade civil, os homens portam-se conforme seus interesses mais imediatos, particulares. A manifestação de tais particularidades dá-se nas “corporações”. O Estado, emseu turno, representa os interesses universais, “o ponto de vista mais elevado”. É justamente a burocracia, a “classe de funcionários”, que está em possibilidade de engendrar a universalidade em meio às particularidades da sociedade civil; o funcionalismo é o portador da universalidade do Estado. É a generalidade da burocracia versus o imediatismo das corporações civis. Leiamos da letra de Hegel a sua definição da classe burocrata: “a classe universal ocupa-se dos interesses gerais, da vida social” (idem: 185). O ofício do funcionário é o interesse universal da razão. Para que esteja em condições de atuação, a classe universal deve ser “dispensada do trabalho direto requerido pelas carências, seja mediante a fortuna privada, seja mediante uma indenização dada pelo Estado que solicita a sua atividade, de modo que, nesse trabalho pelo universal, possa encontrar satisfação o seu interesse privado” (Hegel, idem: 185). É imperativo que o burocrata esteja acima das carências da sociedade civil para que possa resolver os conflitos particulares em nome da razão de Estado. Eis que a burocracia desprende-se, autonomiza-se das esferas sociais.

Os juízos de Hegel a propósito da “classe universal” suscitaram o seguinte comentário de Marx: “os fins do Estado convertem-se em fins de escritório e os fins de escritório em fins do Estado. A burocracia é um círculo de que nada pode escapar” (2002a:120). Logo adiante: “o Estado só existe na forma de diversos espíritos burocráticos fixos,cuja única coerência é a subordinação e a obediência passiva” (Marx, idem: 121).

O Estado de Hegel é uma projeção, um ideal a ser alcançado, um dever ser. É um conceito construído a partir das potencialidades do seu presente exacerbadas especulativamente. Diz Marx: “constrói-se uma categoria e conforma-se em encontrar uma existência que lhe corresponda. Hegel concede à sua Lógica um corpo político; o que não dá é a lógica do corpo político” (idem: 122). Ainda na esteira de Feuerbach, o jovem Marx procura resolver as mistificações hegelianas a partir de um ponto de vista materialista, mesmo que neste instante de sua formação não tenha descoberto a chave metodológica da crítica da economia política.

A teoria política de Hegel é a principal manifestação da contradição entre o seu método, que afirma a historicidade das relações sociais, e o sistema, que aponta para um “fim da história”.

Lukács diz que somente se pode entender a ideia de que o Estado é a realização da razão ao se reter a situação histórica da Alemanha de Hegel. Diante da fragmentação das nações germânicas, o Estado poderia engendrar a unidade nacional. “Só deste ponto de vista o Estado aparece como algo que se encontra para além de todos os contrastes da sociedade civil” (Lukács, 1975: 511). Assim, Hegel pensa o Estado como a encarnação unitária das figuras do espírito; o filósofo sempre acreditou que as contradições da sociedade pudessem ser resolvidas pela intervenção do Estado. E, para Hegel, a burocracia é a implementação do Estado burguês, a consolidação revolucionária deste Estado. Pode-se dizer que, segundo os Princípios da filosofia do direito, a maturação da revolução burguesa ocorre com o desenvolvimento da casta burocrática. Hegel era um ideólogo do período revolucionário da burguesia, do período heroico do nascimento do Estado burguês em face das relações feudais. A filosofia do direito de Hegel é a tentativa de elevar a conceito o Estado da revolução francesa (em especial do período napoleônico).

Inteiramente distante é a situação histórica de Weber. A sua apologia indireta ao Estado burocrático é o embate contra a possibilidade de ruptura deste Estado por parte da classe trabalhadora. Tanto Weber quanto Hegel estavam a favor do Estado burocrático burguês; porém, com a determinante diferença de que isso significava em Hegel uma tomada de posição contra a miséria da Alemanha aristocrática, enquanto que em Weber implicava a luta a favor da conservação da ordem. Entre ambos, há a mudança qualitativa da burguesia em direção à manutenção do estado de coisas. Entre os Princípios da filosofia do direito e Economia e sociedade há o surgimento do novo sujeito revolucionário, a classe trabalhadora.

Colliot-Thèléne não compreende que a advocacia de Hegel favorável ao Estado burguês revolucionário não é passível de equalização com a defesa do Estado burguês conservador de Weber. A identificação só é possível se nos atermos aos contornos mais abstratos do pensamento dos dois teóricos. A linha histórica que parte de Hegel e conduz a Weber somente pode ser construída sob aspectos puramente formais. Para alguém que tenha lido e entendido as teses de Lukács em A destruição da razão, soa extremamente problemático traçar uma linha de pensamento que chega até Weber desde Hegel e não de Schelling. Sabemos que a herança das grandes aquisições da dialética hegeliana não está em Weber, senão em Marx. Com mordaz ironia, Isaac Deutscher (1973) disse que, se houver algum parentesco entre Hegel e Weber, este último seria um “neto pigmeu” daquele primeiro.

= = =
Notas:
[1] Quanto à existência do “proletário de tipo moderno” em Roma, Weber reformulou suas ideias juvenis e, em 1909, escreveu que, na Antiguidade, “enquanto classe, o proletariado moderno não existia” (2001: 92). Pelo menos enquanto classe, Weber não mais projetou o proletariado moderno para o passado antigo.
[2] Marx também abordou as formas antigas de aquisição de lucro. Para Weber, os usurários e comerciantes antigos constituíam manifestações do sistema capitalista. Ao contrário, Marx disse que “a forma comercial e a forma a juros são mais antigas do que a da produção capitalista, do que o capital industrial, forma básica da relação capital enquanto domina a sociedade burguesa” (1974a: 279). A produção capitalista não engendra estas formas de aquisição de lucro: “encontra estas formas mais antigas na época de sua constituição e de sua geração, encontra-as como prévias pressuposições, que não são todavia pressuposições postas por si próprias, formas de seu processo de vida” (Marx, idem: 279). A usura e o comércio não são gerados pela produção capitalista; em seu processo de constituição histórica, as relações de produção de capital já se deparam com estas formas de lucro. De fato, são pressupostos para o metabolismo capitalista: do dinheiro acumulado com a usura e o comércio, investe-se na compra de força de trabalho; então, usurário e o comerciante transformamse em capitalistas industriais. Contudo, para que isso ocorra, há que se contar com determinadas circunstâncias históricas: o acúmulo de dinheiro dos usurários e comerciantes é meio para a constituição deuma nova sociabilidade “somente numa época em que se encontram disponíveis as demais condições para a produção capitalista — trabalho livre, mercado mundial, dissolução do vínculo social antigo, desenvolvimento do trabalho até determinado nível, desenvolvimento da ciência, etc.” (Marx, idem: 328).Uma vez desenvolvida a produção capitalista, as antigas formas de obtenção de lucro subordinam-se à nova estrutura societária. Indubitavelmente, é uma abordagem teórica diversa desta que estudamos em Weber.
= = =
CARLI, R. György Lukács e as raízes históricas da sociologia de Max Weber. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2013, p. 119-136.
= = =

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

ARTE REALISTA| Taste



Taste
Sabrina Carpenter/Julia Michaels/Amy Allen/John Ryan/Ian Kirkpatrick

Oh, I leave quite an impression
Five feet to be exact
You're wonderin' why
half his clothes went missin'
My body's where they're at

Now I'm gone, but you're still layin'
Next to me, one degree of separation

I heard you're back together
And if that's true
You'll just have to taste me when he's kissin' you
If you want forever, and I bet you do
Just know you'll taste me too

Uh-huh

He pins you down on the carpet
Makes paintings with his tongue (La-la-la-la-la-la-la)
Hе's funny now
All his jokes hit different
Guеss who he learned that from?

Now I'm gone, but you're still layin'
Next to me, one degree of separation

I heard you're back together
And if that's true
You'll just have to taste me when he's kissin' you
If you want forever
And I bet you do (I bet you do)
Just know you'll taste me too

La-la-la-la-la-la-la

Every time you close your eyes
And feel his lips, you're feelin' mine
And every time you breathe his air
Just know I was already there
You can have him if you like
I've been there, done that once or twice
And singin' 'bout it don't mean I care
Yeah, I know I've been known to share

Well, I heard you're back together
And if that's true
You'll just have to taste me when he's kissin' you
If you want forever
And I bet you do (I bet you do)
Just know you'll taste me too

Taste me too, ow
(La-la-la-la-la-la-la)
You'll just have to taste me when he's kissin' you
You, no, yeah, ah-ah
(La-la-la-la-la-la-la)
You'll just have to taste me when he's kissin' you

= = =
Short n' Sweet (USA, 2024) - Sabrina Carpenter. Videoclipe dirigido por Dave Meyers.
= = =

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Sartre semimarxista: a rejeição da ontologia dialética da natureza



por György Lukács

Apenas para lançar um pouco de luz sobre essa situação e sem a intenção de caracterizar o seu sistema de pensamento, que de qualquer modo se encontra em estágio de transição, sejam feitas aqui algumas referências a Sartre. É do conhecimento geral que seu ponto de partida foi o existencialismo de Heidegger e Jaspers. Igualmente do conhecimento geral é que, nos últimos tempos, ele se aproximou, muito resolutamente do marxismo e com grande arrojo e determinação converteu em práxis essa sua convicção — no que se diferencia com bastante nitidez e de forma vantajosa da massa dos insatisfeitos habituais. Portanto, essa guinada de Sartre para o marxismo, que se comprovou em feitos importantes e arriscados, só pode ser acompanhada com o maior respeito possível. Seu comportamento na prática nada tem a ver com a autocomplacência gerencial dos neopositivistas nem com a apologia da revolta a priori impotente contra o estranhamento no existencialismo “clássico”.

Reiteramos: é impossível fazer aqui uma análise ou uma crítica dessa nova posição de Sartre. Pois a finalidade desta observação, cuja parte introdutória, tratando da situação atual da ontologia, desemboca na investigação das reflexões de Marx sobre a ontologia do ser social, consiste meramente em proporcionar um quadro crítico do estado atual do problema, visando fundamentar teoricamente o nexo indissolúvel mas dialeticamente contraditório entre a ontologia geral (ontologia do ser natural) e a ontologia do ser social. Nesse contexto, é preciso indicar, portanto, que a nova obra de Sartre [Critique de la raison dialectique] tampouco se desprendeu ontologicamente dos preconceitos do neopositivismo e do existencialismo. Consonâncias com o marxismo em questões que dizem respeito a fenômenos puramente sociais e históricos não são capazes de eliminar essa contraditoriedade ontológica. O ponto central em tais pontos controversos é o complexo de uma dialética na natureza. Como para Marx a dialética não é apenas um princípio cognitivo, mas constitui a legalidade objetiva de toda realidade, uma dialética desse tipo não pode estar presente nem funcionar na sociedade sem ter tido uma “pré-história” ontológica correspondente na natureza inorgânica e orgânica. A dialética concebida em termos ontológicos só tem sentido se for universal. Essa universalidade naturalmente não representa um singelo sinal de igualdade entre dialética na natureza e dialética na sociedade; também nesse ponto se aplica a constatação hegeliana da identidade da identidade e da não identidade. Só poderemos falar sobre o caráter concreto desses nexos quando tratarmos da ontologia de Marx, isto é, aqui só se pode apontar para o seu quê, e não para o seu como. Contudo, essas questões precisam ao menos ser mencionadas neste ponto por se tratar de um contraste determinante entre o marxismo e correntes filosóficas hoje predominantes, como antes de tudo, o neopositivismo e o existencialismo[1]. Essa questão tem para as atuais aspirações filosóficas de Sartre uma importância tanto maior porque um de seus propósitos é a produção de uma antropologia filosófica. Ora, como vimos, o existencialismo chegou – em íntima conexão com a centralização exclusiva do que é ontologicamente relevante no ser humano e seu mundo — a uma concepção irracionalista e abstratamente vazia em relação à gênese real do ser humano ontologicamente em consideração e, desse modo, transformou — querendo ou não — a filosofia numa antropologia idealisticamente irracionalista. Sem uma ruptura decisiva com essa concepção e seus pressupostos filosóficos não é possível desobstruir o caminho metodológico que leva à apreensão concreta do ser humano no sentido antropológico e social — as duas coisas são inseparáveis: sem uma ontologia dialética da natureza não é possível fundar nenhuma ontologia dialética do ser humano e da sociedade.

A última obra de Sartre, porém, é precisamente uma tentativa de unir a rejeição da dialética da natureza com uma dialética do ser humano e da sociedade. A negação mesma é formulada de modo bem inequívoco. “E vimos que”, resume Sartre, “só se acha na natureza a dialética que foi posta dentro dela”.[2] Dizendo isso, Sartre não quer negar a limine [de antemão] que se possam encontrar nexos dialéticos na natureza. Porém, no estado atual dos nossos conhecimentos, cada pessoa está livre pra crer ou não crer nisso; na natureza inorgânica, trata-se, em todo caso, de afirmações extracientíficas[3]. Como veremos mais adiante, as constatações ontológicas com muita frequência antecedem a sua fundamentação científica, a qual, quando sucede, naturalmente poderá ser concretizada e modificada de múltiplas maneiras por elas, o que de fato sempre ocorrerá; abstraindo desse fato, constatamos que o escrito de Sartre mostra que há questões em que ele não só preservou inalterados seus pressupostos existencialistas, mas também, de modo correspondente, permanece enredado de muitas formas em preconceitos neopositivistas. Assim, ele reclama para o existencialismo o conhecimento da prioridade ontológica do ser em relação à consciência. Porém, essa pretensão só se torna sustentável quando uma abstração fenomenológica é levada a tal extremo que os traços reais, autenticamente conforme ao ser, do ente-em-si esmaecem a ponto de não poderem mais ser reconhecidos como tais. Até o próprio Heidegger, com sua determinação do ser humano como ser-aí, poderia falar de uma prioridade ontológica do ser, embora, como vimos, o sentido ontológico desse ser-aí mostre o contrário de tal prioridade.

Mas nessa tese também foram incorporados preconceitos neopositivistas. Nas elaborações seguintes, que visam à concretude, Sartre diz, por exemplo:

A única teoria do conhecimento que poderia hoje estar em vigor é a que está fundada sobre a seguinte verdade da microfísica: “o experimentador é parte integrante do sistema experimental”. Ela é a única que permite o afastamento de toda e qualquer ilusão idealista, a única que evidencia o ser humano real no mundo real.[4]

Mas isso não passa de um preconceito neopositivista, que foi disseminado especialmente por ocasião da popularização filosófica da “relação da incerteza” de Heisenberg, junto com o “livre-arbítrio” das partículas, da qual os pesquisadores da natureza sensatos se dissociam claramente. Na microfísica interagem realidades exclusivamente físicas, das quais fazem parte, todavia, também as condições de medição, os instrumentos de medição etc., como objetos físicos que podem influenciar a medição. O próprio observador, porém, também nesse caso não passa de uma arranjador ou registrador de ocorrências objetivamente físicas, como na macrofísica. A afirmação de Sartre mostra com clareza o quanto ele resiste à aceitação ontológica de uma natureza com lei própria, que se move como ser imanente de modo totalmente independente do ser humano. Trata-se de uma questão decisiva da ontologia; todavia, uma questão em que o neopositivismo e o existencialismo, a despeito de todas as suas demais diferenças, andam conformes. Essa posição pode ser percebida também em muitos posicionamentos decisivos da nova obra de Sartre. Para finalizar, damos destaque apenas a uma observação sobre o tempo, que mostra precisamente quanto suas atuais visões são determinadas pela concepção heideggeriana do tempo “autêntico”, do tempo não “vulgar”, quanto elas negam — uma vez mais, em consonância com o neopositivismo — toda objetividade ontológica do tempo. Sartre diz: “É preciso realmente entender que nem os seres humanos nem suas atividades existem no tempo, mas que, em contraposição, o tempo, como característica concreta da história, é feito pelos seres humanos com base na sua temporização original”[5]. A diferença em relação a Heidegger consiste aqui em nuanças que podem até ser interessantes no âmbito do existencialismo, mas que, para nossas indagações, não têm relevância, uma vez que também aqui o mundo extra-humano perdeu toda e qualquer importância ontológica, tendo sido subjetivado. A despeito de todos os contrastes exteriores, esse tempo social, moral e historicamente subjetivado é irmão gêmeo daquele que se origina no neopositivismo a partir da identificação medição do tempo com o próprio tempo, reprimindo totalmente este último. Ambas são formas subjetivas de manipulação — originárias de distintas finalidades e, por isso, diferentemente acentuadas —, chamadas a reprimir a objetividade ontológica.

= = =
Notas:
[1] Também me sinto no dever de declarar, neste ponto, que meu livro História e consciência de classe, publicado em 1923, contribuiu para despertar ilusões quanto à possibilidade de ser adepto do marxismo — no sentido filosófico — e, ao mesmo tempo, negar a dialética na natureza.
[2] J.-P. Sartre, Critique de la raison dialetictique (Paris, 1960), p. 127.
[3] Ibidem, p. 129.
[4] Ibidem, p. 30.
[5] Ibidem, p. 69.
= = =
LUKÁCS, G. Para uma ontologia do ser social I. Trad. Carlos Nelson Coutinho, Mario Duayer e Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2012, p. 101-102.
= = =

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Vigotski contra Freud

por E. Yu. Zavershneva

O problema de estudar a relação entre as teorias de Vigotski e Freud

Em caderno inédito “Conferência sobre temas de investigação. 27 a 29 de outubro 1933”, Vigotski, ao esboçar um plano para trabalhos futuros, afirmou: “As perspectivas: defender a posição básica de Freud (psiconeurose — resultado de um deslocamento que falhou, conflito entre o Ego e o Id, as camadas superiores e inferiores da psique no novo sistema): Freud considera o consciente à luz da doutrina do inconsciente; nós — o inconsciente à luz da doutrina do consciente. Uma nova teoria da psiconeurose infantil. Nem redescobrir a América nem considerá-la não descoberta. Quem quer construir uma psicologia científica deve seguir outro caminho: Fr. não deu a doutrina do consciente; não se pode agregar a Fr. a doutrina do consciente; é necessário reconstruir seus fatos e teorias em um todo novo”[1].

Esta tese, expressa na discussão do relatório do psicanalista V .F. Shmidt nas “conferências internas”, é um testemunho em primeira mão que expressa a atitude de Vigotski em relação à teoria de Freud. A tarefa especificada na tese — repensar a psicanálise no contexto da teoria histórico-cultural — já foi designada por Vigotski em 1925, no prefácio do livro de Freud “Além do princípio do prazer” (escrito com A. R. Luria [18]). Analisando o prefácio, R. Van der Veer aponta que, para os autores, a única “variante aceitável de anexação” era o estudo dos princípios básicos da psicanálise e sua verificação à luz da própria teoria, mas a forma concreta de tal anexação permanecia obscura [34, p. 60]. Em nosso estudo tentamos mostrar como esta tarefa, formulada em 1925 como uma pura declaração de intenções, gradualmente passou para a categoria de resolvida, e a polêmica de Vigotski com Freud atingiu o nível de rivalidade potencial dos programas científicos.

A discussão sobre a atitude de Vigotski em relação à psicanálise é fundamental devido às seguintes razões. Em primeiro lugar, Vigotski e Freud lançaram as bases das duas maiores direções, cada uma das quais tem uma saída na metapsicologia e é, em essência, uma prática antropológica. Diferentemente de outros conceitos, onde se estuda funções ou processos de processamento de informações, ou seja, uma “pessoa sensível”, dividida em elementos e considerada fora da dimensão do significado, dentro destes sistemas se tenta construir uma ontologia da pessoa, uma compreensão teórica de sua “segunda natureza” e sua formação dirigida através da educação ou da terapia.

No entanto, as diferenças fundamentais nas bases das abordagens fazem com que sua unificação livre de conflitos seja impossível dentro do marco da teoria psicológica geral, a qual Vigotski tentou criar. Na tese do relatório de Shmidt citado acima, assim como nas primeiras teses sobre “o problema da consciência” (05/12/1932; [12, p. 156–167]), as teorias de Vigotski e Freud se opõem como sistemas polares: psicologias de cumes e profundidades. A operação aritmética somar cumes e profundidades eventualmente dará zero (veja a atitude crítica de Vigotski em relação ao Freudomarxismo [12, pág. 330–331]), portanto, a pergunta sobre com quais bases é possível o diálogo entre essas abordagens permanece aberta.

Apesar da grande importância do tema da relação entre psicanálise e psicologia histórico-cultural, sua investigação é muito escassa. A razão para isso é, por um lado, a dificuldade objetiva do trabalho metodológico sobre a correlação de dois conceitos, cuja bases não estão completamente esclarecidas e vão além da psicologia para a filosofia. Por outro lado, a análise é dificultada pelo conhecimento insuficiente dos trabalhos posteriores de Vigotski, em particular, os estudos da dinâmica semântica de consciência. Em nenhum dos artigos encontrados por nós, que traçam paralelos entre a psicanálise e o enfoque de Vigotski [19; 32; 33; 35 e outros], este último está representado como um todo único em sua versão final de 1932–1934; para a maioria dos autores a contribuição de Vigotski para a psicologia se limita à teoria da mediação do signo e à monografia Pensamento e Fala. No entanto, cabe assinalar uma tendência positiva: o tema central das intersecções entre tais concepções — o papel da linguagem e da sociedade no desenvolvimento da pessoa, é discutido de alguma maneira por todos os autores.

Caracteristicamente, esses estudos foram feitos principalmente no Ocidente durante os anos 1990 (talvez dentro do boom Vigotskiano relacionado à publicação das obras escolhidas de Vigotski em língua inglesa). Como regra geral, as ideias de Vigotski atuam como heurísticas projetadas nas posições teóricas da psicanálise ou sobre os problemas da relação entre analista e paciente[2]. Apesar da variedade de temas, esses estudos estão “na superfície”: eles estudam os vínculos entre as abordagens no nível de questões individuais. A única investigação condizente com a tarefa, identificada pelo próprio Vigotski na década de 1930, foi realizada no artigo de E.V. Ulibina, onde se considera a possibilidade “de construir um único espaço teórico, no qual uma análise substantiva adicional permite, em particular, considerar os fenômenos descritos por Freud a partir do ponto de vista da psicologia histórico-cultural” [28; pág.72]. Porém, mesmo aqui existe a mesma ótica tendenciosa: as obras do “período instrumental” estão incluídas na análise, enquanto os trabalhos posteriores de Vigotski — e com eles a teoria dos sistemas semânticos dinâmicos — permaneceram fora do campo visual do autor. Como resultado, os paralelos mais significativos das abordagens permanecem nos bastidores, levando a uma significativa incompletude do estudo que, no entanto, contém uma série de ideias interessantes, expressas não apenas na relação com a psicanálise ortodoxa, mas também com relação à sua versão lacaniana.

Sem questionar o valor da pesquisa, propomos outra em comparação com a linha geral de pesquisa estrangeira: o aspecto do problema; analisaremos a dinâmica da relação de Vigotski com a teoria de Freud, apoiando-nos em fontes publicadas e inéditas, e então partiremos do plano histórico ao teórico para repensar a psicanálise a partir da psicologia histórico-cultural.

Dinâmica da atitude crítica de Vigotski em relação à psicanálise em 1925–1931

A polêmica de Vigotski com a psicanálise é caracterizada por uma série de elementos que atestam a situação excepcional de Freud no círculo de oponentes de Vigotski. Ao debater com representantes de outros sistemas científicos, Vigotski se adapta ao curso de pensamento do oponente, segue-o, revela os pontos de crescimento da teoria, então a refuta e dá sua própria explicação, mais heurística, dos mesmos fatos ou regularidades obtidos no marco da reflexologia, Gestalt, das teorias de W. Stern, J. Piaget, K. Koffka, K. Lewin e outros. E só no caso da psicanálise não observamos este jogo intelectualmente afiado e emocionalmente carregado (exceto talvez em “Psicologia da Arte”). Não é que sua fase aberta tenha chegado tarde demais; por exemplo, os argumentos decisivos na disputa com Koffka sobre o desenvolvimento infantil apareceram em um dos últimos artigos de Vigotski [12, p. 238–290], uma situação semelhante ocorreu na disputa com Lewin [10]. A questão é: nas obras publicadas de Vigotski praticamente não há tentativas de jogar no campo adversário, testar seu pensamento, jogar com ele, leva-lo ao absurdo onde estará localizada a linha básica de ataque, e encontrar um grão de verdade no invólucro de falsas hipóteses. Até o ponto de inflexão de 1932, Vigotski limita-se à crítica “ao serviço” da psicanálise, que não cria momentos de confronto inerentes à crítica de outras abordagens.

O início da polêmica pode ser transferido para 1925, quando Vigotski expressou pela primeira vez, sua atitude em relação às obras de Freud e suas resenhas são bastante elogiosas. No citado prefácio do livro de Freud, no artigo de Luria “A Psicanálise como um sistema de psicologia monista” [26] e em uma nota analítica posterior “O problema da psicanálise e do marxismo” (arquivo familiar de L. S. Vigotski), que Vigotski e Luria enviaram à Sociedade Russa de Psicanálise e ao Instituto de Psicologia em abril de 1927 (Fig. 1); o desenvolvimento da psicanálise no marco da ideologia marxista foi altamente recomendado pelos autores como um campo de pesquisa promissor. Citemos a passagem final da nota, onde os aspectos positivos da psicanálise são destacados: “[…] compreensão dinâmica dos processos mentais (repressão do inconsciente, transformação dos afetos, influência dos impulsos em processos mentais, sublimação, etc.); materialista em essência a consideração de toda a vida mental como um desenvolvimento baseado no material primário (redutível como resultado de processos físico-químicos) de necessidades-impulsos; determinismo na explicação da psique e, por fim, busca dar uma construção objetiva de conceitos mentais baseada no estudo dos processos inconscientes”. No entanto, logo muda a posição de Vigotski, e ele critica duramente, não apenas o artigo de Luria, mas também trabalhos similares de Zankind e Friedman [12, p. 328–333]. A “objetividade” de Freud desaparece da lista de seus pontos fortes, como o “monismo” e o “através do sociologismo” de sua teoria, e o “materialismo em essência” se converte agora no materialismo de um fato sempre distorcido na psicanálise por meio de uma interpretação idealista desse fato.

A primeira e última tentativa de abrir o confronto com a psicanálise nas obras de Vigotski publicadas em vida, pode ser rastreada no capítulo IV de “Psicologia da Arte”, onde a principal crítica é a redução errônea da criatividade à sublimação. A gama de críticas é muito ampla, a concepção de Freud se opõe ao seu próprio ponto de vista, que se reflete na teoria da catarse da arte como um sentimento social, etc., mas “a anexação do território” é reduzida a uma única lei: Vigotski aprecia muito a interpretação freudiana do fenômeno da criatividade nos aspectos enérgico e econômico, e afirma que os resultados de sua investigação estão em certa correspondência com esta interpretação, embora a metáfora energética em si mesma pareça “um tanto arbitrária” [11, p. 294]. A anexação em escala não acontece: apesar de que toda a “Psicologia da Arte”, de fato, é outra explicação da criatividade, Vigotski está comprometido, não tanto em refutar o inimigo, quanto em construir sua própria teoria.

A crítica a Freud em “Psicologia da Arte” contrasta com o prólogo de seu livro, escrito naquele mesmo ano. Aparentemente, no processo de escrever “Psicologia da Arte” a incompatibilidade da psicanálise com a psicologia marxista tornou-se evidente para Vygotski; além disso, como apontamos anteriormente, “Psicologia da arte” pôde ser completada em 1926 e em meados desse ano surgiram as primeiras teses da teoria histórico-cultural, que encontrou o caminho de sua própria pesquisa [22]. De uma forma ou de outra, a mudança está acontecendo, e outras fontes foram, provavelmente, as obras de V. N. Voloshinov [3; 4] em que, não apenas Freud é criticado, mas também Luria, Zalkind, Friedman e outros freudo-marxistas[3]. A atitude de Vigotski em relação à obra de Freud torna-se mais moderada e até 1932 apresenta a seguinte série de comentários críticos:

1) Anti-historicismo, refletido na interpretação do desenvolvimento como epigênese [11, p. 105–106; 16, p. 161–162];

2) Naturalismo da teoria, que considera “a psique humana como um processo puramente natural” [11, p. 103–104, 319; 14, pág. 19–20];

3) Abordagem dualista: Freud atua como materialista quando se baseia nos fatos e luta por sua explicação determinista, e como idealista ao tentar interpretar os fatos a partir dos conceitos filosóficos de Schopenhauer, Lipps e Herbart [ver, por exemplo: 12, pp. 136, 145- 146, 332; 13, pág. 25];

4) Adoção de leis particulares para o universal [11, p. 103; 12, pág. 117–118; 6, pág. 1033]; esta objeção toca no problema da norma em psicologia [ver 12, p. 293] e assinala que na psicanálise o estágio neurótico do desenvolvimento é tomado como típico, e a norma é uma variedade rara;

5) Obscuridade da linguagem científica, confusão do sistema conceitual [12, p. 333, 335];

6) “A escassa capacidade de persuasão dos reforços reais” [ibid.], ou seja, não o descrédito do material factual, mas a debilidade e especulação das hipóteses explicativas [por exemplo, sobre a tríade de traços de caráter anal, ver: 16, p. 161];

7) E, claro, o pansexualismo e a fixação do simbólico — o lugar mais comum da crítica da psicanálise por toda a sua existência [11, p. 103–104; 17].

Até certo ponto, essa crítica era padrão, ou seja, reproduzia as objeções generalizada à psicanálise. Naqueles anos, chamar o psicólogo “burguês” de idealista significava quase certamente não dizer nada de novo ou substancial sobre ele; a “dualidade” foi o contra-argumento universal de Vigotski, voltado contra qualquer teoria do círculo adversário: apontava para a manifestação de uma crise na psicologia, explícita ou implicitamente dividida em dois campos ideológicos[4]. A área em que Vigotski pôde em 1930 resistir a Freud está bem fundamentada, descrita nos pontos 1 e 2, já que no marco da estrutura da “psicologia instrumental” criou a teoria do desenvolvimento das funções psíquicas superiores, que explicava o processo de transformação da psique natural com base nas ideias do ato instrumental; pôde opor seu método genético ao método antigenético da psicanálise e interpretar o papel da sociedade no desenvolvimento infantil. No entanto no final da década de 1920 Vigotski não fez isso.

Existem elementos de confrontação em “História do desenvolvimento das funções psíquicas superiores” (escrita no mais tardar em 1930), onde Vigotski não só fez uma breve crítica — por um lado — à psicanálise relacionada com sua naturalização da psique superior e a subestimação do papel da cultura no desenvolvimento do homem, mas também esboçou seu conceito de desenvolvimento. No entanto, aqui também Vigotski resolve seus próprios problemas: os argumentos não estão dirigidos a Freud, na parte principal da monografia apenas o menciona brevemente duas vezes, e o único fragmento de polêmica, que pode tomar-se como “anexação” dos fatos, está relacionado à discussão da natureza da amnesia infantil [14, p.321; ver também: 12, p.148]. É característico que Vigotski apenas tenha necessitado desse fato do arsenal da psicanálise quando discutia a pergunta chave do papel da fala no desenvolvimento do psiquismo.

Aparentemente, a controvérsia aberta com Freud não fazia parte dos planos de Vigotski e não podia ter lugar por razões óbvias. A teoria do desenvolvimento das FPS nesse momento se estendia principalmente às funções cognitivas e afetava a esfera volitiva-afetiva apenas pela tangente. Vigotski não tinha uma teoria do afeto superior, não havia uma periodização do desenvolvimento, que aparecerá na década de 1930, para não mencionar a teoria da personalidade, que ele nunca criou explicitamente. “Pedologia do Adolescente” (1931) atesta o surgimento de novos interesses de pesquisa na área de psicologia clínica, mas o material factual sobre histeria, esquizofrenia e outras doenças citadas nele são tomadas de outros autores. Tenhamos em mente que as publicações de 1930–1931 não refletem que Vigotski, que já tinha muitos anos na investigação da criança anormal (crianças surdocegas, deficientes mentais), trabalhava intensamente na clínica e observava crianças com diagnósticos de neuroses, psicoses e outros tipos. Ressaltemos que até agora nenhuma menção foi feita a nenhuma das práticas de Vigotski, mas o caderno “Clínica EDI” (1931) contém descrições de 37 histórias clínicas; neste documento ele descreve dois casos em detalhes (Kolia S., Naum P.), em que Vigotski conseguiu liminar um diagnóstico psiquiátrico dos pacientes e substituiu-o por um diagnóstico de “atraso no desenvolvimento”. Ambos os casos ilustram a aplicação prática da futura “psicologia dos cumes”: o ponto de partida é a personalidade do paciente, a possibilidade de seu crescimento e a compensação do defeito através do desenvolvimento da superestrutura cultural, a reorganização do sistema das FPS ao incluir conexões terciárias e relações de caráter[5].

Juntamente com a crítica formal, Vigotski invariavelmente expressa seu respeito pelo oponente em declarações moderadas, mas eloquentes, sobre as realizações da psicanálise. O reconhecimento de Vigotski aos serviços de Freud, em nossa opinião, é mais informativo do que a crítica das deficiências, já que aponta mais aos problemas científicos (causalidade estrita, teoria genética do afeto, caráter, personalidade) que coincidiram por todas as suas diferenças em sua configuração básica. A psicanálise, segundo Vigotski, foi progressiva em vários aspectos, dentre os quais destacam-se os seguintes:

1) O estudo do problema da correlação do biológico e do social no desenvolvimento de personalidade, a concepção de caráter como uma superestrutura sobre um sistema de impulsos que têm origem social [11, p. 29; 12, pág. 96; 18];

2) O desenvolvimento do princípio do determinismo e do método indireto baseado nele, do qual, segundo Vigotski, a psicologia moderna necessitava: “A tentativa de Freud é continuar as conexões e dependências significativas dos fenômenos mentais com o inconsciente, para sugerir que por trás dos fenômenos conscientes está o condicionamento inconsciente que pode ser reestabelecido analisando os rastros e interpretando suas manifestações” [12, p. 136];

3) A exploração teórica de novas áreas (o inconsciente, a atração pela morte), acompanhada de atenção às “anomalias”, isto é, os fatos que inicialmente colocaram a teoria sob ataque, mas que posteriormente levaram à sua renovação (por exemplo, os sonhos nas neuroses traumáticas) [11, p. 109; 12, pág. 92, 336; 14, pág. 59; 18].

4) O estudo das emoções em seu desenvolvimento [13, p. 428–429].

Porém, o fato mais eloquente dessa polêmica não é a crítica e o reconhecimento de mérito, mas o silêncio. Em nossa opinião, a omissão mais importante refere-se às tentativas de Freud de trabalhar na esfera semântica de seus sujeitos assistidos com ajuda da fala (a única menção de análise de ligações significativas se encontra na lista acima, no parágrafo 2). Vigotski sustenta que, do ponto de vista teórico, aqui reside o ponto fraco da psicanálise, cujos representantes tentam subordinar a palavra ao inconsciente, isto é, à área declarada em teoria como um conjunto de processos não acessíveis à verbalização [12, p.148]. Esta objeção não se revela: requer um comentário adicional que Vigotski não faz aqui. Por exemplo, que a fala na psicanálise é vista como um intermediário que permite ao inconsciente desencadear erupções (“descendência”) na consciência [29, p. 181–182], também cria uma zona de amortecimento do pré-consciente e, na verdade, é um meio de transformar a primeiro natureza na segunda. A psicologia moderna marca aqui o ponto de contato entre as abordagens, no entanto, Vigotski tem apenas uma indicação indireta desta circunstância: “Freud, como Piaget, sustenta corretamente que a fala desempenha um papel extremamente importante no ato da consciência” [8; pág. 244–245]. Talvez os silêncios se devem ao fato de que foi justamente pela mediação da fala que teve lugar o eixo principal da competição das abordagens. Em relação à natureza verbal da consciência, Vigotski tinha diferentes pressupostos que tomaram forma até 1932, e a partir desse momento aparece uma antítese decisiva na crítica de psicanálise.

A passagem da polêmica de Vigotski com Freud para a fase de confronto entre os programas científicos (1932–1934)

A partir de 1932, nas obras e palestras publicadas de Vigotski aparecem, no centro da polêmica, a hipótese do autismo primário da criança, a primazia ontogenética do princípio do prazer e sua oposição ao princípio da realidade [13, p. 36–37, 403, 442; 15, pág. 313–314], e teoria psicanalítica, além do epíteto anterior de “metafísica”, adquire um novo: “solipsista”. Vigotski ainda escapa do embate com Freud ao discutir com seu “deputado” Piaget que, de acordo com Vigotski, toma emprestado de Freud as hipóteses anteriores, o que piora significativamente sua posição teórica. No entanto, em alguns casos, seu próprio ponto de vista se opõe diretamente ao psicanalítico: a criança é vista como um ser originalmente social, em interação contínua com a realidade; no contexto da polêmica com a psicanálise esse ponto de vista é reforçado, em particular, pelo estudo da fala egocêntrica. Pela primeira vez, a hipótese “repressiva” da influência da sociedade e da cultura no desenvolvimento infantil recebe uma refutação aberta; a compreensão psicanalítica do meio em sua função de pressão e limitação [13, p.67] ele contrastou com a compreensão do desenvolvimento como cooperação da criança com o adulto. Sua própria experiência ao longo das linhas da crítica anterior (anti-geneticismo, naturalismo da teoria de Freud) é usada muito raramente, por exemplo, na discussão do problema das emoções superiores [13, p. 434–436], onde as posições de Vigotski não são fortes o suficiente como no caso de outros processos psíquicos. É curioso que ele continue a “luta de contatos” nos pontos quentes de sua própria investigação (isso também se aplica à psicologia do desenvolvimento: nos últimos anos de sua vida, Vigotski apenas passa a estudar sua determinação interna e introduz as categorias fundamentais de zona de desenvolvimento proximal e vivência [perejivanie]).

Em particular, Vigotski afirma que Freud ignora o papel do pensamento na formação da personalidade e aponta que o desenvolvimento de um afeto superior não pode ser explicado sem chamar a atenção para a análise dos vínculos afetivos interfuncionais com o pensamento, a imaginação e a fala [13, p.436, 446].

À medida que a crítica a Freud se dissipa gradualmente, a polêmica com ele, necessária para estimular seu próprio pensamento e refletida nos registros pessoais de Vigotski, apenas se intensifica. Estuda a continuação das recém-publicadas conferências de Freud sobre a introdução à psicanálise [31] (Fig. 2), conduz conferências internas dedicadas à teoria de Freud (1931, 1933) e, o mais importante, descobre os pontos de apoio nos quais baseia uma explicação concorrente, sem recorrer à anexação da psicanálise, mas estando na linha de contato com ela.Figura 2. Sinopse do livro de Freud “Nova série de conferências introduzindo a psicanálise” (1933), escrita por L.S. Vigotski. Fragmento (p. 3)

Por exemplo, nas teses sobre o primeiro relatório de Shmidt (o problema das emoções, 1931) Vigotski lista suas discordâncias com Freud: “1. Subdesenvolvimento = suspensão. 2. Desenvolvimento antissocial. 3. Formas patológicas da emoção. 4. […] Pensamento a serviço das emoções!!!” (ver o fragmento de “Pedologia da Adolescente” onde aponta que na neurose o intelecto e a vontade estão subordinados ao afeto [15, p. 168]) e também dá sua explicação chave — a partir do ponto de vista da psicanálise — do mecanismo do desenvolvimento: “Repressão: a emoção se desconecta da consciência. Sublimação: as emoções têm outro objetivo. Ver sistemas e sublimação, repressão: há uma parte de verdade na transferência para outros sistemas”. No entanto, o programa concreto aparece mais tarde, quando Vigotski esboça o esquema geral da teoria da consciência. Nas notas sobre o segundo relatório de Shmidt (“O problema do desenvolvimento da criança psiconeurótica”, 1933) oferece sua antítese às ideias freudianas sobre a natureza do inconsciente: “3. profundo — superficial — psicologia dos cumes. — O mundo externo é uma força hostil ou uma fonte de maior desenvolvimento (formas ideais). — Domínio das fases iniciais do desenvolvimento. — A luz emprestada do inconsciente — Desenvolvimento em Freud — implementação, modificação e combinação de ingredientes. Neoformação. […] 9. Princípios básicos da psicologia dos cumes (acmeísta) contra a Tiefenpsichologie [psicologia profunda] (às vezes implícitos nesta última, mas desenvolvido explícito por nós): relação do ego e do id, impedida nas psiconeuroses, é um produto do desenvolvimento (da consciência) do ego e sua relação com o mundo externo; contra Lust und Realitätsprinzip [princípios do prazer e da realidade]: sua unidade; contra o naturalismo e a metafísica — pró-historicismo (natureza humanizada); o inconsciente surge do desenvolvimento da consciência; consciência do afeto; imobilidade do pensamento autista; não a profundidade, mas as leis dos cumes determinam o destino da personalidade; contra a história do mais alto da sublimação; contra a consciência = a percepção” [ver: 12, pág. 166].

Que novas disposições da concepção de Vigotski dão origem a tais afirmações tão decisivas?

A principal inovação foi o princípio da estrutura semântica da consciência, introduzido em 1932; sobre esta base se desenvolveu a teoria da consciência, cuja ideia se reflete de forma fragmentária em suas obras publicadas (“Pensamento e fala”, “O problema da consciência” e outras), bem como nos cadernos. Ao reconstruir esta ideia, pode-se dizer que a consciência é considerada como uma forma de relação ativa com o ambiente e ao mesmo tempo como um formato especial da relação dos processos mentais. Vigotski preserva o princípio da mediação do signo como parte da nova teoria; ele argumenta que esse tipo de relação especificamente humana com o meio ambiente surge com o uso do signo, mas se antes estava interessado na estrutura externa da operação do signo, nos últimos anos de sua vida preocupou-se sobretudo com seu lado interno: o significado. Vigotski mostra que a compreensão do mundo é possível graças à união da fala com o pensamento, o que nos permite ver o mundo como um todo, onde cada evento é percebido em uma conexão lógica com outros eventos (a consciência é “conhecimento em comunicação” [12, p. 165]). A riqueza de nossas ideias sobre o mundo, sua ordem e correspondência com a realidade são determinadas pelo nível de desenvolvimento do significado das palavras: “Os passos da fala são os passos da abstração: os passos da consciência” (caderno “Minhas observações, rascunho de 1933 [ver também: 27, p. 116]). O mundo interno também é construído através da reorganização dos processos mentais naturais; se torna maior e mais extenso e diferenciado à medida em que a pessoa conhece o mundo externo e interage com outras pessoas [para mais detalhes ver: 20; 40]. No aparato conceitual de Vigotski também surge a noção de “campo semântico”, que se define como um plano semântico de generalização; ao explorá-lo geneticamente, Vigotski demonstra como ele desempenha em suas diferentes etapas de desenvolvimento sua principal função de mediação na relação do homem com o mundo e consigo mesmo [5; 26], em particular, permite realizar as funções de transformação da dinâmica fluida do pensamento na dinâmica da ação e é a base do comportamento volitivo [para mais detalhes ver: 23].

Ao expandir as possibilidades de sua teoria, Vigotski também recicla o método de Lewin da análise dinâmico-formal e de sua apresentação do desenvolvimento da personalidade. Em vários estudos, Vigotski e colaboradores oferecem descrições esquemáticas do estrutura da personalidade e a dinâmica do seu comportamento, com base nos métodos diagnósticos de Lewin modificados para suas próprias tarefas [1; 10; 27 e outros]. Nestes trabalhos foram selecionados alguns planos de análise: sistemas afetivos, campo semântico, atividade prática, e mostra-se que são determinados por leis gerais, tanto em aspectos estruturais como dinâmicos. Os processos dinâmicos relacionados a esses planos descrevem o modelo de ação livre e significativa que inclui três fases básicas: “1) transformação da dinâmica do campo psicológico, dinâmica da situação em dinâmica do pensamento; 2) desenvolvimento e implantação de processos dinâmicos do próprio pensamento, sua transformação inversa em dinâmicas de ação; 3) a atividade refletida através do prisma do pensamento se transforma em outra ação, significativa, consciente e, consequentemente, arbitrária e livre” [10, p.444].

Nesse modelo, o afeto atua como a base energética da ação livre, e a característica central da pessoa, sua diferença específica em relação aos outros animais, é sua própria capacidade de ser livre. Psicologicamente é entendida como a capacidade de “elevar-se acima do campo”, não só do campo externo, mas do campo semântico e do próprio afeto. Refletido em conceitos, o afeto se realiza, se transforma e se relaciona de modo secundário com outros processos mentais no novo sistema psicológico. Na verdade, esse é o processo subjacente à formação básica da personalidade, que se desenvolve na medida em que “se cortam” os processos naturais e têm a oportunidade de se construir como uma hierarquia de conexões terciárias de consciência. Assim, a liberdade de comportamento é introduzida na teoria como uma característica fundamental da existência humana. Esta posição, que beira a filosofia pura, determina a ontologia da pessoa na abordagem histórico-cultural: estabelece a noção de norma, que é o ponto de partida para a investigação do desenvolvimento anormal.

É a perda da liberdade de comportamento que caracteriza todos os desvios da norma, incluindo os transtornos neuróticos e psicóticos. As formas mais graves de perda dessa capacidade são inerentes à esquizofrenia, que é definida como “… uma mudança patológica na formação do significado (o sistema semântico de conexões e organização da consciência) e deterioração das conexões funcionais dentro da consciência” (caderno “O problema da psicologia da esquizofrenia”, não antes de 1932), causada pela desintegração do modo de comunicação do homem com o mundo e consigo mesmo. No último ano da vida de Vigotski, seu grupo científico teve êxito na realização de investigações de algumas formas nosológicas [1; 7; 27 e outros]; metodologicamente essas investigações também foram construídas a partir do ponto de vista da psicologia de cumes: peculiaridades dos sistemas afetivos, estrutura da personalidade dos pacientes, a natureza de sua interação prática com a realidade (tipos de estrutura, sua diferenciação, permeabilidade de limite, rigidez ou, inversamente, labilidade patológica de processos dinâmicos) foram estudados por sua especificidade, comparados entre si, mas a especificidade da doença foi revelada no contexto da norma [para mais dados ver: 24].

Obviamente, a introdução das categorias e métodos acima mencionados fortaleceu notadamente a posição de Vigotski na discussão com a psicanálise. Diferentemente da ontologia freudiana, que descreve a personalidade neurótica neste ou naquele modo de não liberdade, forçado a buscar um compromisso entre as exigências do meio e seus próprios impulsos Vigotski propôs um ponto de vista diferente do homem, a partir do qual todas as leis de seu desenvolvimento estão, de alguma forma, conectadas com sua capacidade de ser livre. Nesta ontologia, o “ideal do homem” freudiano pode ser visto como uma versão distorcida da norma, já que a fuga para a doença só é possível como fracasso das soluções livres. Parece que aqui há uma zona potencial de reinterpretação das posições de Freud a partir da abordagem histórico-cultural (como as posições do “caso especial” em relação às leis gerais), mas isso deve ser feito com o máximo de cautela, já que tais questões na ciência não são resolvidas no nível dos princípios superiores: devem colidir não com conceitos filosóficos, mas com hipóteses científicas (ver: I. Lakatos sobre a impossibilidade de uma refutação direta do núcleo duro dos programas científicos [25]). Além disso, a relação entre normal e patológico é uma das perguntas mais difíceis não resolvidas até hoje[6].

Notemos que para Vigotski responder à pergunta por que uma pessoa é livre e a outra não (parafraseando de forma psicanalítica: por que uma escolhe o caminho da sublimação e a outra da doença) não significa referir-se ao axioma da liberdade, mas considerar geneticamente o desenvolvimento da personalidade: “A liberdade não é dado, mas se estabelece. Ela… é conquistada em uma difícil luta interna. […]. Não é o princípio, mas sim o fim do caminho do homem” (nota “Rumo a Spinoza”, 1933). A postura sobre a liberdade se justifica a partir de outros princípios do núcleo duro das concepções de Vigotski, particularmente a posição de que uma pessoa se torna pessoa (sinônimo: torna-se livre) na medida em que aprende a falar e a pensar (mais precisamente, a pensar falando). A fala cria um marco para o ser humano; ao impregnar seu pensamento, a fala o leva à existência e lhe dá a oportunidade de se tornar realidade no pensamento e na ação. E aqui se descobre mais um campo potencial de diálogo com psicanálise (em particular com sua versão lacaniana).

Tem sido repetidamente apontado que a psicanálise é, de fato, uma terapia racional de consciência, mas em seus esquemas explicativos tanto o pensamento quanto a autoconsciência são tomadas entre parênteses como um valor constante: se usa, mas não se explica. Aqui está uma citação do caderno “Os relâmpagos do pensamento de Spinoza” (não antes de 1932), no qual Vigotski conecta sua posição com a filosofia de Spinoza: “Freud: tratamento da consciência, ligação com afetos e desejos. [Nas margens há uma marca com uma seta apontando para “Freud”]: Nossas investigações sobre os conceitos da linha espinosista. […]. O conceito de afeto é um estado ativo e é liberdade. Liberdade: afeto no conceito” [mais detalhes ver: 24, p. 91–93]. É essa camada de mediação da teoria freudiana que não foi introduzida, assim como a questão de por que a fala é capaz de fazer mudanças na mente do paciente.

Esta circunstância lembra, em particular, a caracterização de P. Riker que chamou a teoria psicanalítica “energia ingênua” e sua linguagem descritiva “linguagem da hidráulica mental”, bem como a afirmação de L. Binswanger, que considerou a psicanálise como conhecimento não consciente de seu logos. A opinião de Binswanger também foi compartilhado por Vigotski [12, p. 335]), que colocou a consciência e o pensamento verbal no centro de sua concepção e os investigou experimentalmente.

Ao considerar o desenvolvimento da psique superior através do prisma da dinâmica semântica, Vigotski estendeu o ponto de vista do “cume” e o problema do determinismo. Já em 1930 ele discutiu a importância progressista da teoria de Adler, que conseguiu mostrar que os objetivos podem ser mais importantes do que as causas [17, p.75] (ver a conhecida expressão de V. Frankl: “as razões são empurradas, os objetivos são atraídos”). O psicólogo deve compreender não apenas por que o neurótico se move em direção à doença, mas para que o faz, em particular para responder às perguntas relacionadas com o determinismo do desenvolvimento, que vai do passado ao presente, e ao futuro. Na abordagem de Vigotski, essa determinação ocorre por meio do conceito de ZDP e uma forma ideal de desenvolvimento.

Ao reconhecer o papel mediador central da palvra na formação do homem, Freud e Vigotski oferecem ideias diametralmente opostas sobre sua entrada na cultura: a psicanálise acentua seu lado traumático, associado à perda de seu objeto de desejo e à subsequente busca pelo perdido; a psicologia histórico-cultural acentua seu lado de apoio, abertura e transformação do ser humano em palavras e em cooperação com outras pessoas. O social, segundo Vigotski, é a principal fonte que gera os meios de desenvolvimento e seus padrões [2, p.122–123; 8, p.83–88]. A colaboração da criança com o adulto na ZDP não está isenta de problemas, é tão dramática quanto o próprio desenvolvimento já que nem os meios nem as mostras são emprestados automaticamente pela pessoa. A refração da influência do exterior só é possível através do interno, através da vivência, que aparece na abordagem de Vigotski como uma unidade de investigação da personalidade e da situação de desenvolvimento social. Acrescentamos que a personalidade determina eventos significativos, não redutíveis a traumas da criança ou traumas em geral, e que a formação da personalidade continua na idade adulta, onde, idealmente, tem lugar um ato baseado na livre escolha.

No entanto, mesmo com todas as inovações, é prematuro falar de uma discussão em larga escala com a psicanálise. A teoria da consciência como um sistema semântico dinâmico e a ideia de uma ação livre e significativa foram dadas a Vigotski como um esboço, sua reconstrução exigiu que juntássemos cuidadosamente “as peças” individuais disseminadas em publicações e notas pessoais. Podemos dizer que a versão mais recente da abordagem de Vigotski permaneceu no estágio inicial de sua elaboração. Carece de teorias do afeto explicitamente formuladas (ou seja, emoções e motivações) e da personalidade, sem a qual é impossível a polêmica com a psicanálise, bem como de hipóteses detalhadas sobre a natureza do inconsciente; em termos práticos, é impossível não mencionar o problema das aplicações psicoterapêuticas. Além disso, também é difícil comparar as abordagens, porque sua arquitetura não foi totalmente esclarecida. Idealmente, para colocar essas abordagens em contato, é necessário recriar seus postulados metapsicológicos, suas posições teóricas básicas, operar suas hipóteses de nível médio, técnicas e práticas de observação, mas isso parece difícil de alcançar. E, no entanto, podemos pelo menos nos perguntar o que poderia opor Vigotski ao modelo tópico, dinâmico e econômico da psique proposto por Freud. Poderíamos deduzir do trabalho de Vigotski outra explicação da natureza dos seus sintomas básicos (neurose, parapraxia e sonhos)? Seu ponto de vista é capaz de dar uma teoria das psicoses que tenha mais poder explicativo do que o conceito de narcisismo secundário? Essas perguntas estão além do escopo deste artigo, mas pretendemos analisá-las na continuação de nossa investigação.

Conclusão


A análise realizada neste trabalho mostra que a atitude de Vigotski em relação à teoria de Freud refletia uma coincidência entre seus interesses de investigação e suas aspirações de construir uma ciência baseada na análise genética do desenvolvimento de personalidade. Se levarmos em conta outros cruzamentos no que diz respeito à natureza social da personalidade e o papel da fala em seu desenvolvimento, fica claro por que Freud foi uma das principais figuras do círculo de oponentes de Vigotski. Mostramos que a dinâmica da relação de Vigotski com a psicanálise estava determinada pela lógica interna do desenvolvimento da psicologia histórico-cultural, e que essa atitude adquiriu características de confrontação de programas científicos em 1932–1934.

O espaço para a polêmica entre as abordagens surgiu devido à metáfora enérgica, que Vigotski utilizou como “ponte” metodológica: primeiro em “Psicologia da Arte” e posteriormente nos trabalhos que reinterpretam várias teses da teoria de Lewin. Não sabemos se Vigotski planejava manter essa metáfora como parte de seu programa científico ou aplicá-la como um meio ad hoc, porém seu papel progressista é evidente, pois facilitou o surgimento de um diálogo — na verdade, um polílogo — do qual participaram as três principais abordagens psicológicas da época. No entanto, deve-se notar que ele levanta uma série de problemas filosófico-metodológicos quanto à sua aplicabilidade na psicologia, assim como a metáfora do campo, que serviu de ponte entre as teorias de Vigotski e Lewin [20, p.123–126].

Acrescentamos que o diálogo de Vigotski com outros sistemas científicos desenvolvidos em acordo com o esquema proposto em seus primeiros trabalhos metodológicos, onde se negava a possibilidade de anexação direta de outros sistemas científicos: “Quem toma o lenço de um estranho, toma o perfume de outro; quem toma dos psicanalistas — o estudo dos complexos de Jung, a catarse de Freud, a instalação estratégica de Adler — toma boa parte do perfume daqueles sistemas, ou seja, do espírito filosófico dos autores [12, pág.329]. Por trás de cada fato e regularidade, segundo Vigotski, não está apenas uma técnica de observação ou uma hipótese empírica, mas uma teoria como um todo. Deste ponto de vista é razoável perguntar: quanto é necessário tomar da teoria construída sobre uma versão “repressiva” da cultura, na presença de seu próprio conceito, onde o papel da cultura se entende de modo fundamentalmente diferente? É a anexação, por exemplo, da história do pequeno Hans em quem postulados e interpretações inaceitáveis de ponto de vista histórico-cultural estão inextricavelmente entrelaçados? Como mostra a análise das obras de Vigotski, os casos de anexação aberta de áreas psicanalíticas neles são únicos (amnésia infantil, criatividade); remetem mais ao cinturão defensivo da teoria do oponente do que ao seu núcleo, ou estão limitados a princípios técnicos como o princípio de deslocamento ou regressão. Mas mesmo esses fatos e princípios, minimamente carregados ideologicamente, não são emprestados de modo inalterado, mas estão sujeitos a reconsideração e “retirada”, ou seja, recebem uma nova interpretação a partir do ponto de vista histórico-cultural.

Ressaltemos que a polêmica de Vigotski com Freud, Lewin e outros oponentes é um modelo de interação de abordagens, que praticamente não tem análogos na história da psicologia. Há tempos se observa que o desenvolvimento da psicologia se desvia significativamente dos esquemas propostos, por exemplo, por Popper ou Lakatos: os programas científicos não lutam por uma explicação melhor e não se excluem mutuamente. Em geral para a psicologia, a situação de cisma (F.E. Vasiliuk) é mais típica quando os contatos entre endereços individuais não são intensivos, e um experimento crítico é uma prática comum. Embora as anomalias desempenhem um papel importante no desenvolvimento dos programas científicos, não levam à eliminação da teoria, mesmo nos casos mais atrozes (ver a questão sobre a paradoxal “viabilidade” da psicanálise, que se desenvolve apesar de muitos anos de duras críticas [30, p. 436–438]). A este respeito chama atenção a estratégia científica de Vigotski, que não buscou suplantar as teorias seus oponentes, mas criar para eles um espaço de diálogo onde os fundamentos dessas teorias poderiam ser esclarecidos. Ele estava bem ciente da natureza do pensamento, que surge como uma descarga elétrica, na presença de uma diferença de potencial em dois polos; precisava de um interlocutor com uma visão diferente da natureza das coisas. Ele precisamente chamou Freud de uma das mentes mais intrépidas de nosso tempo. [18, pág. 3]: o estilo de pensamento do fundador da psicanálise determinava a capacidade de ver uma anomalia no caos do material factual e a capacidade de fazer perguntas que têm um potencial heurístico e a tenacidade na defesa de seus próprios pontos de vista. Os trabalhos de Freud, escreveu Vigotski, ensinam a buscar a verdade, que é muito mais importante do que a apresentação de verdades prontas [12, p.336]. Emprenhado em uma polêmica com interlocutores como Freud ou Lewin, Vigotski criou passo a passo a psicologia histórico-cultural, mas foi uma luta, não tanto por sua concepção, mas também pela psicologia na qual a “eliminação” de um ponto de vista do oponente não significava sua destruição, mas a inclusão em um contexto mais amplo, no limite, na teoria psicológica geral. Por isso a continuação dessa polêmica nos parece uma das tarefas da psicologia em seu presente e futuro.
 
= = =
Notas:
[0] Publicado em ZAVERSHNEVA, E. Yu. Vigotskiy vs Freyd: o pereosmyslenil psikhoanaliza s tochki zreniya kul’turno-istoricheskoy psikhologii, Cultural-Historical Psychology, v. 16, n. 4, 2016, pp. 14–25. Tradução por Marcela Rosa. Via Bruno Bianchi, Kátharsis.
[1] A partir de agora todas as seleções de fontes entre aspas pertencem aos autores das citações.
[2] Em particular, olhamos para a série de estudos de A. Wilson e L. Weinstein, onde se analisa a relação entre os conceitos de «transferência» e «zona de desenvolvimento proximal», a fala interna é considerada como um meio de comunicação entre analista e paciente, e as ideias de Vigotski sobre a natureza o pensamento verbal são usadas para expandir o modelo topográfico do inconsciente [37; 38; 39].
[3] O fato de Vigotski estar familiarizado com as obras de Voloshinov é evidenciado por uma citação dele em seu artigo “A psique, a consciência e o inconsciente” [9, p. 61].
[4] Logicamente, Vigotski descobriria mais tarde indícios de dualismo não apenas na versão “instrumental” do seu conceito, mas também na sua versão posterior [21; pág. 124, 129].
[5] No mesmo ano, 1931, teve lugar o primeiro dos informes “internos” que conhecemos, de V. F. Shmidt, dedicado à teoria psicanalítica das emoções, à qual Vigotski se opôs ativamente afirmando a estratégia errônea de Freud ao derivar diretamente as emoções superiores das pulsões (aderno “Desenvolvimento anormal da criança”, 1931).
[6] Em 1931 Vigotski, ao participar com um escrito do encontro “Sobre a relação entre a psicologia moderna e psicopatologia”, no qual discutiu o princípio da unidade das leis do desenvolvimento e a desintegração da mente (caderno “Desenvolvimento Anormal da Criança”), enfrentou uma crítica contundente do colégio de especialistas; incluindo os conhecidos psiquiatras S.V. Krayts, I.D. Sapir e B.D. Friedman, declararam todos que não há leis gerais para a norma e a patologia, e que a especificidade da doença não pode ser completamente eliminada da norma, e isso era verdade.

= = =
Referências bibliográficas

1. Birenbaum GV, Zeigarnik BV K dinamicheskomu analizu rasstroistv muishlienia [Para uma análise dinâmica dos distúrbios do pensamento]. Sovietskaya nevropatologia, psiquiatria i guiguiena [Neuropatologia soviética, psiquiatria e psico-higiene], 1935, v. 4, n.6, pág. 75–98.

2. Veresov N.N. Eksperimentalno-guenetícheski miétod i psijologuia soznania: v póiskaj utrachiénnovo (statiá vtoraya) [Método genético-experimental e psicologia da consciência: em busco do perdido (parte 2)]. Kulturno-istorícheskaya psijologuia [Psicologia histórico-cultural], 2015, vol. 11, no. 1, pp. 117–126. doi:10.17759/chp.2015110113

3. Voloshínov V.N. Po tu storonú sotsiálnovo: O freidizme [Mais além do social: sobre o freudismo]. Zviezdá [A estrela], 1925, no. 5, pp. 186–214.

4. Voloshínov V.N. Freidizm. Kritícheski ócherk [Freudismo: ensaio crítico]. Moskvá; Lieningrad: G.I.Z., 1927. 164 p.

5. Vygotski L.S. Igrá i yieyó rol v psijícheskom razvitii riebionka [A brincadeira e seu papel no desenvolvimento mental da criança]. En Psijologuia razvitia [Psicologia do desenvolvimento]. San Petersburgo: Píter, 2001, pp. 56–79.

6. Vygotski L.S. Konkriétnaya psijologuia chielovieka [Psicologia concreta do homem]. En Psijologuia razvitia chielovieka [Psicologia do desenvolvimento humano]. Moskvá: Eksmo, 2005, pp. 1020–1038.

7. Vygotski L.S. K probliemie psijológuii shizofriénii [Sobre o problema da psicologia da esquizofrenia]. Soviétskaya nevropatologuia, psijiatría i guiguiena [Neuropatologia, psiquiatria e psicohigiene soviéticas], 1932, vol. 1, no. 8, pp. 352–364.

8. Vygotski L.S. Liéktsii po piedológuii [Lições de pedologia]. Izhevsk: Publ. “Udmurtski univiersitiet”, 2001. 304 p.

9. Vygotski L.S. Psíjika, soznanie i bessoznátielnoie [Psique, consciência e o inconsciente]. En Kornílov K.N. (ed.) Eliemienty óbshchei psijológuii [ Elementos de psicologia geral]. Moskvá: Publ. B.Z.O. pri piedfakie 2-vo MGU, 1930, vol. 4, pp. 48–61.

10. Vygotski L.S. Probliema úmstviennoi otstálosti [O problema do retardo mental]. En Probliémui diefiektológuii [Problemas de defectologia]. Moskvá: Prosvieshchenie, 1995, pp. 426–450.

11. Vygotski L.S. Psijologuia iskusstva [Psicologia da arte]. Ivanov V.V. (ed.). 3-e izd. Moskvá: Iskusstvo, 1986. 573 p.

12. Vygotski L.S. Sobranie sochiniénii: v 6 t. T. 1. Voprosy teórii i istórii psijológuii [Obras escolhidas: Vol. 1. Problemas de teoria e história da psicologia]. Moskvá: Piedagóguika, 1982. 488 p.

13. Vygotski L.S. Sobranie sochiniénii: v 6 t. T. 2. Probleimui obshchei psijológuii [Obras escolhidas: Vol. 2. Problemas de psicologia geral]. Moskvá: Piedagóguika, 1982. 504 p.

14. Vygotski L.S. Sobranie sochiniénii: v 6 t. T. 3. Probliemui razvitia psíjiki [Obras escolhidas:. Vol. 3. Problemas do desenvolvimento do psiquismo]. Moskvá: Piedagóguika, 1983. 368 p.

15. Vygotski L.S. Sobranie sochiniénii: v 6 t. T. 4. Diétskaya psijologuia [Obras escolhidas: Vol. 4. Psicologia infantil]. Moskvá: Piedagóguika, 1984. 433 p.

16. Vygotski L.S. Sobranie sochiniénii: v 6 t. T. 5. Osnóvui diefiektológuii [Obras escolhidas: Vol. 5. Bases da defectologia]. Moskvá: Piedagóguika, 1983. 369 p.

17. Vygotski L.S. Son i snovidienia. En Kornílov (ed.) Eliemienty obshchei psijológuii [Elementos de psicologia geral]. Moskvá: Publ. B.Z.O. pri piedfakie 2-go MGU, 1930, pp. 62–75.

18. Vygotski L.S., Luria A.R. Predislovie [Prefácio]. En Freud Z. Po tu storonú printsipa udovolstvia [Mais além do princípio do prazer]. Moskvá: Sovriemiennie probliemui, 1925, pp. 3–16.

19. Gonzales A. “Freud v Vygótskom. Biessoznátielnoie i yazýk” [“Freud em Vygotski. Inconsciente y linguagem”]. Kulturno-istorícheskaya psijologuia [Psicologia histórico-cultural], 2007, no. 1, pp. 114–120.

20. Zaviershnieva Ye.Yu. Dvié línii razvitia katiegórii “smuisl” v rabótaj L.S. Vygótskovo [Duas linhas de desenvolvimento da categoria “sentido” nas obras de L.S. Vygotski]. Voprosy psijlóguii [Problemas de psicologia], 2015, no. 3, pp. 116–132.

21. Zaviershnieva Ye.Yu. Zapisnuie knizhki, zamietki, naúchnuie dnievniki L.S. Vygótskovo: rezultaty issledovania seméinovo arjiva [Notas, cadernos e revistas científicas de L.S. Vygotski: investigação dos arquivos familiares]. Voprosy psijológuii [Problemas de psicologia], 2008, no. 2, pp. 120–136.

22. Zaviershnieva Ye.Yu. “Kliuch k psijológuii chielovieka”: kommientárii k bloknotu L.S. Vygótskovo iz bolnitsy “Zajarino” (1926) [“A chave para a psicologia humana”: comentários sobre o caderno de L.S. Vygotski do hospital Zajarino (1926)]. Voprosy psijológuii [Problemas de psicologia], 2009, no 3, pp. 123–141.

23. Zaviershnieva Ye.Yu. Priedstavlenia o smyslovom polie v teórii dinamícheskij smuislovuij sistiem L.S. Vygótskovo [A noção de campo semântico na teoria de L.S. Vygotski do sistema semântico dinâmico]. Voprosy psijológuii [Problemas de psicologia], 2015, no. 4, pp. 119–135.

24. Zaviershnieva Ye.Yu. Probliema svobodui kak otlichítielnoi jarakterístiki chielovieka v rabótaj L.S. Vygótskovo [O problema da libertade como um traço distintivo o homem na obras de L.S. Vygotski]. Voprosy psijológuii [Problemas de psicologíia], 2015, no. 5, pp. 89–105.

25. Lakatos I. Falsifikatsia i mietodologuia nauchno-issliedovátielskij program [Falsificação e metodologia dos programas de investigação científica]. Moskvá: Medium, 1995. 236 p.

26. Luria A.R. Psijoanáliz kak sistiema monistícheskoi psijológuii [A psicanálise como sistema de psicologia monista]. En Kornílov K.N. (ed.) Psijologuia i marksizm [Psicologia e marxismo]. Lieningrad: G.I.Z., 1925, pp. 47–80.

27. Samujin N.V., Birenbaum G.V., Vygotski L.S. K voprosu o strukturie diemiéntsii pri boliezni Pika [O problema e a estrutura da demência na doença de Pick]. Soviétskaya nevropatologuia, psijiatría i psijoguiguiena [Neuropatologia, psiquiatria y psicohigiene soviéticas], 1934, vol. 3, no. 6, pp. 97–136.

28. Uluíbina E.V. Znákovoie oposriédovanie v kulturno-istorícheskoi teórii i psijoanálize [Mediação do signo na teoria histórico-cultural e a psicanálise]. Psijologuícheskii zhurnal [Revista psicológica], 2004, vol. 25, no. 6, pp. 64–72.

29. Freud Z. Bessoznátielnoie [O inconsciente]. En Osnovnuie psijologuícheskie teórii v psijoanálize. Ócherk istórii psijoanáliza [Principais teorias psicológicas da psicanálise. Ensaios da história da psicanálise]. San Petersburgo: Alieteiya, 1998, pp. 151–193.

30. Freud Z. Vviedienie v psijoanáliz. Liéktsii [Introdução à psicanálise]. Moskvá: Nauka, 1991. 456 p.

31. Freud S. Neue folge der vorlesungen zur einführung in die psychoanalyse [Novas lições introdutórias à psicanálise]. Wien: Internationaler Psychoanalitischer Verlag, 1933. 254 p.

32. Kozulin A. The concept of regression and vygotskian developmental theory. Developmental review, 1990. №10, pp. 218–238.

33. Pešić J., Baucal A. Vigotski and psychoanalysis: Toward dialogue. Journal of Russian and East European Psychology, 1996. Vol. 34, no. 1, pp. 33–39.

34. Van der Veer R. Tatyana on the couch: the vicissitudes of psychoanalysis in Russia. In S. Salvatore (eds.) Cultural psychology and psychoanalysis: pathway to synthesis. Charlotte, N.C.: Information Age Publishing, 2011, pp. 49–55.

35. Wertsch J.V. A meeting of paradigms: Vigotski and psychoanalysis. Contemporary Psychoanalysis, 1990. Vol. 26, no. 1, pp. 53–73.

36. Wilson A., Weinstein L. An investigation into some implications of a Vygotskian perspective on the origins of the mind: psychoanalysis and Vygotskian psychology, Part I. Journal of the American Psychoanalytic Association, 1992. №40, pp. 357–387.

37. Wilson A. Weinstein L. Language and the psychoanalytic process: Psychoanalysis and Vygotskian psychology, Part II. Journal of the American Psychoanalytic Association, 1992. №40, pp. 725–760.

38. Wilson A., Weinstein L. Language, thought, and interiorization: A Vygotskian and psychoanalytic perspective. Contemporary Psychoanalysis, 1990. Vol. 26, no. 1, pp. 24–41.

39. Wilson A., Weinstein L. The transference and the zone of proximal development. Journal of the American Psychoanalytic Association, 1996. Vol. 44, no. 1, pp. 167–199.

40. Zavershneva E. The problem of consciousness in Vigotski’s cultural-historical psychology. In Yasnitsky A. (eds.) The Cambridge handbook of cultural-historical psychology. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2014, pp. 63–100.

= = =